Um pingo

“Quem fez essa porquera?” – foi o grito que eu escutei.

Eu já estava quase pegando no sono sentado na forma que o meu corpo decalcou no sofá da sala. O sofá é um lugar mágico, de onde vêem todos os sonhos! Acreditem! Contudo não pude deixar de escutar esse berro, mesmo porque lá em casa nunca ninguém foi, vamos dizer assim, discreto.

Foram os cinco segundos mais longos de toda a história mundial, mas eu levantei; músculo após músculo, parte após parte, eu fui me erguendo do servo de Morpheu para ver o motivo de tal ato escandaloso.

No banheiro. Sim ………….. no banheiro. Uma simples gota. Digo gota porque não sei o que ela continha. Podia ser, mas podia não ser. Podia ser apenas água. De qualquer forma, ela estava lá: repousava sobre a tampa do vaso sanitário (na verdade eu pensei em “privada”, mas é uma palavra muito feia de escrever). Mas quando falo “tampa do vaso sanitário” quero dizer, não a tampa de tudo, aquela que encerra o assuto, quero dizer aquela na qual se pensa. Foi essa que você pensou? Então: essa mesma.

– Quem fez essa porquera? – indignada com a situação.
– …

Eu não respondi porque não consegui. Fiquei a ver a posicão das coisas no banheiro, o espelho sobre a pia, a pia ao lado do vaso, ao lado do cesto de lixo. Podia muito bem ter respingado da pia. Podia, sim. Dependendo da força da água do próprio vaso, ela respinga também. Repare.

Observava, observava muito, acho que era o sono mal acabado que fazia voar entre o etéreo e o terreno. De repente um estalo. A vida! É, a vida! Estar na cuba rodopiando até o ralo. Cair torneira abaixo pela cuba ………… o tempo vital que se vai sem que se possa estancar a trajetória natural. Mas o Homem pode. Tem que inventar, não se atém ao propósito inicial, é muito ansioso e intervém com seus tampões e o que mais for evitar o livre correr da vida. Tudo isso é a mais pura acuidade da vida: seguir da torneira para a cuba e por lá ficar seus ínfimos segundos até que se vá. E poucos, somente uns poucos conseguem, entre o abrir da torneira e o escorrer pelo ralo, respingar para a tampa do vaso ……… privada – vou escrever privada mesmo – e viver o que não se está programado, viver o que não é o mais fácil, não ser como deveria, mover-se. É preciso mover-se da inércia humana, nascer, crescer e morrer como fizeram outros antes de você. Você precisa marcar a história, fazer a história nem que seja a sua própria, porque no fim ………….. no Fim meu caro, todos desaparecemos: ou escoando pela cuba da pia ou evaporando da tampa. Porém quem evapora aproveita o tempo de ir que de fulgás e pouco comparado ao tempo que o jato da vida te leva para o ralo.

E depois de tudo, só vai restar a lembrança daquele pingo na tampa do vaso sanitário.

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5 Comentários on "Um pingo"

  • Bacana a conclusão do penúltimo parágrafo.

  • malena diz

    ótimo incentivo. sei não, encarei dessa forma.

  • Rafael diz

    Pois é, a idéia é essa. Vamos todos pular fora da pia……hehehe

  • rodolfo diz

    Só faltou colocar o pingo no seu respectivo i.

  • Mond diz

    Adorei o final…

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