À Maria Rita

A vida sempre nos prega peças. Duzentos e cinquenta quilometros do litoral, a cidade não tinha movimento próprio, tudo parecia parado, até quem se mexia. Pequena, quase inexistente, Coronel Helano vivia do passado garimpeiro de riquezas. Hoje, sua única riqueza é seu povo: gente simples e de valor. Gente que confia em você antes de perguntar quem você é ou acha que é, porque quem você é não importa, de verdade. Importa quem você vai ser daquele momento em diante. Assim, os dias passam – não se sabe como – em Coronel Helano. Passam pra todos, inclusive Maria Rita. É ela quem organiza o arrastapé de sábado no “Inferninho”. Longe de ser uma casa de meretrício como o nome pode sugerir, o “Inferninho” é o poço das angústias e esperanças da cidade. Tem gente que vai pra beber. Tem gente que vai pra paquerar – os gringos que passam por lá. E tem Maria Rita.

A noite de sábado começa bem cedo pra dar tempo de se arrumar. E como se arruma! Toda bonita e cheirosa. Sabe disso tudo e mais um pouco! Auto-confiança em pessoa. É tanta que fica snobe. Metida. Mal pisa no “Inferninho” e começa a cheirar os perfumes da gente que passa por ali. Zé Pedro é Zé Brutt (perfume inconfundível, quando se tem o dom), Josiel fica Josi-Musk (AVON, muito barato, não interessava!), Diego, Di-Dimitri; o Marco Alencar da padaria era o MarQuasar, tudo da cabeça de Maria Rita. Tinha alguns gringos que facilmente eram reconhecidos pelas fragrâncias mais duradouras e cítricas. Passavam Armanis, Ferraris, Diors, Ralph Lourens, Guccis, Tiffanys e Lâncomes. Maria Rita conhecia cada um e snobava um a um. Nenhum bom dançarino conseguia iludir aquela fixação olfativa. Noite após noite ela se punha toda bonita para o arrastapé. Sempre o mesmo nariz empinado e arrogância que já não afligiam mais ninguém na cidade. Na rua ela nem olhava para os lados, não dava atenção àquela gentinha.

Foi por isso que teve que ser um forasteiro. Leonel. Esse nome tinha pouca história pra contar. Sujeito simples, criador de rebanho, quase não falava. Como todo bom moço, Leonel era tímidamente tímido. Quando chegou no “Inferninho”, arrastado pelo Basílio, nem sequer viu o que estava acontecendo. Maria Rita ficou Alucinada com o novo perfume que pairava no ar que praticamente planou, aspirando o odor enebriante, até Leonel. Foi inevitável, nem a timidez conseguiu interferir. Ele ganhou a sorte grande e assim também o fez a cidade de Coronel Helano que se viu livre de Maria Rita.

Maria Rita nunca soube que fragância misteriosa foi aquela e também nunca atinou com a história que Leonel contava, toda vez que perguntavam como eles se conheceram.

O cavalo tinha “enxucrado” no meio do caminho e Leonel já estava atrasado. O banho tinha sido no rio (caminho mesmo) e o cavalo não saia do lugar. Só conseguiu chegar no baile porque um gambá espantou cavalo que disparou por todo o mato da região até se deparar com uma cerca e arremessar Leonel para o outro lado e quebrar tudo. Ninguém nunca ouviu de Leonel o que tinha depois da cerca. Só se sabe que ele ficou com uma dívida com o “seu Jonas” das carnes, o melhor espetinho de carne de porco da região.

Foi assim que Maria Rita se despediu de Coronel Helano. Essa vida nos prega cada peça!

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7 Comentários on "À Maria Rita"

  • Juliana K. diz

    Gostei! Boa história!

  • Juliana K. diz

    Tinha algum CK Be ou um Hugo Boss??? :)

  • Rafael diz

    Pois é, eu mesmo não sei dizer se era “Avanço” ou Hugo Boss, mas tinha alguma coisa estranha no ar…. hehehe.

  • Ricardo diz

    Mamute,

    Acho que está entre os contos mais bem escritos do site … parabéns!

    Bem legal!

    Abraço!

  • Rafael diz

    Poxa, fiquei lisongeado, ou lizongeado, ou lizonjeado, ou lisonjeado…. hehehehe seja lá como escreva isso! (Acho que nunca escrevi essa palavra!)

  • Show de Copacabana – Dia 28/12/2003 – Maria Rita e Lenine! Duelo de titãs regado de desigualdades e distâncias minimizado pela grande sensibilidade de nossos artistas! Por Cris Passinato 29/12/2003 – 01/01/2004 Domingo, dia 28 de dezembro, 9 h da manhã, acordo de uma noite tumultuada e inquieta, mas acordo, com toda disposição, pois seria um dia marcante, eu sabia. Testemunharia algo, que talvez, hoje, não saibamos a dimensão, mas que poderá ficar nas nossas histórias e possamos aos nossos filhos, netos e quem sabe bisnetos vir a contar. Testemunhar em um ano difícil tanto para mim, no campo pessoal, como no ponto de vista mundial, sócio-cultural, enfim, em todos os aspectos nossa expectativa de algo novo era muito grande. Bem, vi e-mail, como de costume, vi os fóruns, que viciei, não tenho vergonha, pois o carinho e a compreensão dos nossos colegas de fã clube, coisa que estou ainda relutando, mas quero vir a ser, tipo, a minha natureza não é essa, estou em uma fase nova, não imaginei que ficasse tão empolga, ansiosa e dedicada a esse tipo de causa, mas mais para frente dentro do texto haverá uma idéia pálida sobre os porquês dessa admiração e desse coleguismo todo para com meus colegas, pois sinto que todos eles compartilham do mesmo e nem todos podem estar em shows que eu pude, podem adquirir os produtos que eu adquiri e sequer podem vê-la de perto e parte disso tudo ou até isso tudo e mais um pouco, eu pude ter, mesmo que pouco, mesmo que distante, mesmo com esperas, mas tive e sou muito feliz por isso! Deu 10 h e fui arrumar tudo que levaria e tomar meu banho e tal. A minha indecisão do que vestir era engraçada, mas da forma como eu iria vestida realmente não dava, daí liguei para mamãe e ela disse-me: “Vai como você se sente melhor, como você vai para faculdade, bem solta, sem essa de se arrumar, ein, Cristiana?” Pois bem, como a mamãe sabia, parecia que tínhamos estado em uma vídeo conferência, pois lá ia eu com uma roupa muito séria para a ocasião. A idéia que tive de início era boa, tipo, ficar em um hotel próximo, mas o mais próximo era o Copacabana Palace e me dá um medo de entrar à toa lá, até porque, eu nunca fui lá dentro. Mas a idéia era de ficar por algum hall de hotel lendo e de vez em quando tomar um refrigerante ou coisa que o valha. Depois pensei: “Isso não vai dar certo…” Se não der e a praia estiver tranqüila vou para um quiosque e fico lendo e tomando água de coco. Pois é, saí de casa com essas mil dúvidas e só, pois é, isso mesmo, deixei todos viajarem, está arriscado de eu não ver a minha sobrinha nessas férias, pois não fui para casa do meu irmão, passando meu aniversário, Natal e agora o Ano Novo sozinha e assim fui ao show da Maria Rita e do Lenine, em Copacabana, em pleno dia 29 de dezembro, só. Mas era uma fase reflexiva, pois Maria Rita, desde que havia se lançado remeteu-me a diversas áreas de meu íntimo, algumas que havia deixado por diversos anos, um tempo que parecia ter se ido, uma alegria que não mais estava dentro de mim, aquele árido e vasto vazio que me deixava sem qualquer inspiração de ser jovem, e como ela mesma tanto fala, ser leve. Esse era o show do fechamento de um ano, de uma fase que para o resto de nossas vidas, a minha e a dela, a minha, a sua, a de muitos seria um marco. Os mais ácidos e descrentes que me perdoem, mas ela foi o marco da renascença da nossa perdida MPB. Enfim, lá fui eu, fazendo um trajeto para comprinhas básicas de filmes para máquina, pois a minha digital foi-se com meus pais para fotografar minha sobrinha e algo para mastigar, um drops, chicletes, sabe-se lá o quê, mas fui para dar tempo de pensar inclusive no que eu iria fazer mais nitidamente. Cabe colocar, nunca fui assim, se saio pe com destino e objetivos traçados e trilhados para não se gastar e nem tão pouco perder tempo, mas nesse dia, tudo tinha se reduzido a um alvo: ao show de Copa. Assim, chegando no ponto de ônibus pude pegar tranqüila e calma o ônibus que me deixou na cara do gol, lá estava o tal palco e aquele hotel lindo quase de cara – O Copacabana Palace. Como sempre, não foi daquela vez que me permiti conhece-lo. Percebi o sol forte e a falta, o esquecimento talvez de alguns óculos escuro, o que eu fiz? Camelódramo a vista? Fui correndo comprar um óculos, aliás “Fashion” o bichinho, só vendo, R$ 5,00, interessante, mas protegeu bem os meus olhos, só que percebi também que esqueci o filtro solar e a pilha da máquina (aliás, eu depois reparei que não abri a máquina e percebi ter comprado um par de pilhas sem precisar, pois estavam lá, é possível?), mas no meio da maratona e caminhada, o meu tamanco de salto plataforma que resolvi colocar que inclusive estava me matando resolveu descolar no meio da rua e a minha sorte é que no meio da história, onde sentei, inclusive no Galeto onde meu pai me levou a minha infância toda, uma senhora apontou uma loja de artigos esportivos, e fui às compras novamente. Resolvi comprar uma sandalinha bonitinha e bem barata de R$ 20,00 e pronto, mas detalhe, só iria levar um dinheiro tal, e depois resolvi me perguntar se acontecesse algo nomeio do caminho e coloquei uma quantidade “X” a mais, enfim, estava lá, havia acontecido de fato, presença de espírito a beca, mas se não fosse isso também ficaria com meus pés latejando e não teria o ânimo que mais tarde tive para empolgar tanto no show. Por que você está falando dessa história toda, e o show? Nossa, o show nem foi só o show, o show resumiu-se em tudo isso, pois o nervoso anterior a ele e os detalhes até que chegasse a apresentação triunfal da estrela, nossa, até chegar a esse ponto, muita água rolou, muita gente se conheceu, muitas trocas foram efetuadas, micos, acontecimentos, enfim, mil e uma situações que para mim e para um pobre mortal somatizam no encanto do momento e da situação e marca por uma vida inteira. Chegando ao quiosque enfim com tudo em cima, encontrei uma determinada senhora que falou que nada sabia do show e que estava esperando sua filha que morava no mesmo bairro que eu por acaso, pois já havia para puxar papo, por estarmos em uma mesma mesa, e logo veio perguntando de onde eu vinha, pois estava daquela forma vestida de preto e não poderia ir somente à praia. Perguntou de meu parceiro, qual seria ou se estaria o esperando, julgava ela que estaria acompanhada de meu marido, namorado, noivo talvez e disse-lhe que não tinha ninguém comigo e nem estavam por vir. A senhora não se conformava e eu, serena e tranqüila, só olhando o começo da passagem de som. Comecei a viajar quando chegaram mais duas senhoras, que também não deixaram de me abordar as mesmas questões, e eu já agoniada e enfadonha querendo ir para areia ver se era o Da Lua quem estava no palco, mas de longe não dava para ver nada, depois vi que não era e fiquei tranqüila em meu posto, esbanjando tranqüilidade, mas as senhoras a cada ponto do papo eram uma mais negativa que a outra, uma coisa que só sabiam me apontar perigos, tudo era negativo e disse-lhes afinal: “Eu fiquei no Rio, não viajei por esses dois shows, pela Maria Rita de quem sou admiradora e fã de sua música e o som de sua banda e por conta de Lenine que admiro como poeta e conheço uma ou duas músicas de seu repertório, mas sei dele ser um revolucionário da música mistura estilos e sons com uma grande naturalidade e tudo cai bem, por isso e por muitos outros motivos, movi-me e tive coragem de encarar essa”. Pronto, elas começaram a dizer a coisa que eu já não agüento mais, era o passaporte para minha decisão de ir para areia, o que elas disseram? Adivinhem só? “Pois é, né? Essa menina é a mãe toda, ela é a mãe, Elis está no palco, ela renasceu, ela está viva…”. Eu quase falei que Elvis também canta com a Lisa Marie, sabe? Ele entra no corpo dela e coisa e tal, mas não gastei minha paciência com isso, pois estava ainda por vir muita coisa, pois ainda eram treze horas e o show só seria às vinte horas, ou seja, tinha que abstrair e pedi licença e fui. Elas queriam porque queriam que eu ficasse ali com elas e que aquele seria o melhor lugar que assistiria o show… Imagina, se ficasse nesse quiosque não veria nem metade do que já vi. Foi perto, mas ao mesmo tempo longe, sabe? Continuando a jornada, agora na areia, cheguei perto quando Lenine começou o seu ensaio, mas antes reparei no palco lá no fundo, no baixo uma pessoa diferente, um cara quietão, só de cabeça baixa, mas um rapagão alto, com um rabo de cavalo grisalho, bem, eu já tinha visto aquele cara em algum lugar! Pois é, era o irmão da Maria Rita, o Marcelo Mariano, aliás, como ela mesma apontou, o moço é uma beldade, mas a menina, mais a frente, na sua apresentação, logo cortou o barato das futuras e possíveis fãs, pois é casado e tem filhos, pronto, a mulherada frustrou e o ciúme imperou naquele palco mais adiante no show diante da multidão, menina possessiva? (risos) Pois bem, começou a minha tietagem de longe, mas contida, mas olhei a passagem dele de perto quietinha lá no meu canto, quando entrou Lenine logo em seguida, começaram a ensaiar algumas músicas e agente começou a reparar pessoas se aglomerando, papo vai e papo vem, pessoas conhecendo-se, fazendo acordos, muito engraçado. Eu fiz uma sociedade entre minha canga e a cadeira da Wanda, uma senhora que conheci que mora na Suíça. Foi muito legal, pois conversamos muito, tivemos muito o quê rir, o principal, havia nos atrapalhando a visão, com a proximidade maior do palco uma área vip e um corredor que serviria para os seguranças dos vips e eu reparando bem, vi umas meninas da limpeza do local, parece que o pessoal que estava servindo aos vips e nos camarins, limpando cada cadeirinha dos tais, e eu parei para pensar: “Eu aqui na lua de quarenta graus quase, desde cedo, com meu traseiro na canga e da canga para cadeira, feito um bife à milanesa, completamente já vermelha e toda suada, meu cabelo ressecando pela maresia, morrendo de sede e vendo aquilo, não resisti, até vou registrar, quero umas fotos desse momento e essas são as literalmente vips”. Isso quando ainda estava se não me engano ainda no Lenine tocando, daqui a pouco vejo Lenine parando e o povo indo para água, saindo de perto quando vejo alguém vindo abraça-lo. Uma menina toda de branco (acho que a camiseta era bege, mas de longe vi tudo branco) e um monte de mulheres em torno, só vi mesmo a Juliana Funaro, a empresária dela para lá e para cá e a Guete, a produtora de costas. Foi então, quando uma senhora insistentemente começou a tentar bater fotos, percebi ser do Sul, gaúcha, sim o sotaque era de gaúcha, mas tudo bem, a senhora se indignou porque a produtora da MR estava só na sua frente e depois veio a MR abaixando para não ser clicada e a moça para lá e para cá, aquilo foi me dando uma agonia que exclamei: “Não está vendo que a moça está só tentando trabalhar com um pouco mais de concentração, tem hora para tudo, mais tarde ela estará produzida para tais fotografias, saiba esperar”, mas a moça inconformada dizia-me que MR era uma pessoa pública e era OBRIGADA a ser fotografada quando os fãs quisessem… Ah! Pra quê? Vocês não imaginam, disse-lhe essas palavras que a Wanda ficou estupefata: “Obrigada? A estrela é ela e nós que a temos que entender? Ponto, vírgula e correção senhora, nem de cantar ela tem obrigação de cantar de graça, nem de aparecer agora ela tinha obrigação, faz porque é profissional e está atentando para o som, para mais tarde a senhora não vir a reclamar da qualidade do trabalho dela, sabe o quê é tentar trabalhar e as pessoas não terem o simancol de que as pessoas têm direito de o mínimo de privacidade e de um pouco de individualidade, mesmo que essas sejam o mais públicas possível?..” e foi nessa hora que ela desistiu e foi-se, que a Wanda me catucou e mandou olhar para o palco e quando vi a MR olhando em nossa direção e com a expressão meio de surpresa e tal, mas não imaginava que estava falando tão alto e fiquei morta de vergonha, bem, bobagem, pois tantas acontecem com ela que aquilo diluiria no meio de tudo e acho que só deve ter sentido um ruído de alguém atrapalhando, mas fiquei na minha. Pensei, vou lá, vou gritar, mas que nada, fui vendo a coisa de longe e fui percebendo que a coisa estava ali meio que séria, a galera concentradíssima, então de novo pensei com meus botões: “Vou ficar quietinha aqui na frente comportada, para não atrapalhar que de vez em quando a MR olha para cá e eu tiro uma foto e mando um tchauzinho, sei lá, mas procurá-la, agora, pelo menos, não!” Foi quando um japonês falando inglês fez-me uma pergunta curiosa, se essa menina que era a filha do César Camargo Mariano, aí eu morri de rir e falei que sim, aí ele questionou que ela teria a voz idêntica a Elis e que ela imitava e eu explicando com meu “very poor english” que ela seria filha da mesma, nossa, ele ficou meio sem graça e falou que nem sabia que o César teria sido casado com a cantora, enfim, até eu explicar tudo, sendo como sou, já irritada, enfim, a Wanda ajudou um pouco, porque parece que o “Japa” sabia um pouquinho de português, então ficou mais fácil e a coisa melhorou, pois ele falou que só iria ao show para ver o talento da menina, então. Acho que as pessoas já falam para me acalmar, pois fico com uma cara, avermelho, fico indignada de fato com essa perseguição gratuita, mas nesse caso o cara sabia muito pouco e sabia mais do pai, menos mal. Pelo menos, alguém perguntou do pai! E quando perguntam da gravidez e a menina de barrigão e outras evidências… Tolerância Zero! Sinceramente! Não, não está grávida, ela está com barriga d´água e colocou silicone para ficar mais rechonchuda! Gente, o que tem haver ela estar ou não grávida, ela está ótima, plena, solta, mais feliz e cantando muito, mas acham que ela está doente, só pode! Bem, só assim, com ela voltando ao palco para ensaio com Lenine que acalmei meus ânimos. Ela fez, foi, voltou, mas não cantou no microfone, parecia nervosa, inquieta, não olhava para agente, fiquei tensa com aquilo, sabia que não era o seu normal, algo estava acontecendo e mais tarde no show, ela explicou que era o tal nervosismo perto dele, pois bem, compreensível, mas ela não resistia, parava e olhava para trás e se assustava a cada grupo que enchia, pois ela teve que passar “Lavadeira do Rio”, não teve jeito, pois tinham que no arranjo do grupo do Lenine e também afinar um tom intermediário entre os dois e assim foi enchendo, gente vindo correndo da água e tal, pergunta para lá e para cá, e isso foi crescendo e quando ela viu estava um aglomerado ali, e como se não bastasse depois fiquei sabendo que lá fora do lado do palco no calçadão também, isso que me deu medo, de incomodar e pelo visto, graças a Deus não a incomodei. Falaram-me que realmente, ela havia estado meio tensa. Bem, sei que quando ela voltou para passar o som dela, antes aconteceu um fato tão legal, depois de ter ficado horas conversando com o pessoal e ver cada um dos integrantes das bandas testando e exercitando suas partes na história toda, veio o Thiago Costa e o Sylvio Mazzuca começaram a passar suas bases e eu, sem querer comecei a cantar baixinho a música que tocava, agora não me lembro qual, pois o pessoal começou a ouvindo isso cantar junto e nós, nessa altura, já estávamos formando um lindo coro, assim entrou no palco para ensaiar MR, assim que ela nos viu veio dizendo, com as mãos na cintura:”Olha, quero esse mesmo pique no show, eu preciso de vocês com essa energia, só quero ver, conto com vocês…” Eu quase tive um treco, comecei a gritar que eu a adorava e ela era linda e ela olhou em minha direção, eu tirei até uma foto desse instante, mas de novo com a mãozinha na cintura e sorriu, meu Deus, mesmo que não tenha sido para mim, mas eu pensei: “Ela nos escuta, ela me escutou, não acredito!” Nessa ela veio dizendo: “Só vou passar uma, ein?” Quando vimos, ela já estava na quarta ou quinta, quase foi um show a parte o ensaio, e gente chegando, gente cantando, o povo aplaudindo e ela: “É só ensaio, gente.” Avistou um fã que ela conhecia e mandou:”Você não cansa, não?” Fiquei sabendo depois que esse moço só tinha ido a ver quinze vezes, mas a minha raiva é que ela não fala nada quando me vê, não lembra de mim, mas em todo show, aqui no Rio, pelo menos, eu estou lá na fila do gargarejo, sempre mandando um grito ou um gesto que ela repara, mas não me dá certeza de nada essa danada? Ao mesmo tempo, fiquei pensando, mas que coisa mais infantil e que carência mais idiota, ela é uma estrela, uma artista, ela está lá em compromisso com uma multidão com esse povo que sofre tanto e que ali estava em delírio e compartilhando uma energia muito maior, e eu não tinha direito de não compartilhar com esse pessoal e desagragar e destoar daquele imenso cordão de amor. Isso era só o ensaio, não imaginam a loucura que foi no show, a explosão de paixão e energia positiva, foi demais. Bem, poderia detalhar música por música, cada explosão, cada minuto, mas fiquei naquele momento cega e só eu e a menina que estava ao meu lado de São Paulo que sabíamos o que era aquele delírio em estar em frente do palco, meio distante (pausa para lembrar e dar aquela choradinha básica), mas em “Encontros e Despedidas” a última antes de “A Festa” que é a despedida, pronto, não resisti, comecei a debulhar, quando ela começou a cantar o verso “A hora do encontro é também despedida…” aquilo bateu tão forte em mim, perguntei-me instantaneamente, porque toda vez que a Maria Rita vem ao Rio é tão assim, é muito rápido e ficamos longe? (Mais choro)(por isso que está sendo um parto acabar essa crônica, relato, seja lá o que for para mostrar o como essa moça é grande e importante pelo menos para mim). Bem, sim, era a despedida em “A Festa”, delírios, levantada geral, quem não levantava e ela pedia, eu gritava, mandava e neguinho até achou que eu estava passando mal, mas gritava: “Ô peruada vip, vambora ae levantar! LEVANTA! LEVANTA! ELA TÁ MANDANDO, DÁ PARA LEVANTAR!” Enfim, ela foi-se, show do Lenine, meu gás tinha se esvaído, não tinha mais pique, enquanto isso, as pessoas iam atrás da Maria Rita em camarins, como se fosse fácil, quando vi ao passar, o lance lá para trás do palco era enorme, uma cidade, cheio de bares, de ocas que deviam ser os camarins, mas eu só sei o seguinte, eu fiquei porque sabia que ainda tinham duas músicas, mas baixou depois do choro uma moleza, uma melancolia que quando ela veio para “Lavadeira do Rio” e o pessoal vip se aglomerou lá no palco tudo um em cima do outro e nessa hora ela falou muito fofa: “Vai cair aí…” Uma menina que se preocupa sabe? A área vip em parte tinha muitos deficientes físicos e mentais e vi também muitas crianças e senhores, acho que algo dessa espécie foi feita, não sei, mas tinha muita gente conhecida, mas todos tietes completos e pior que agente, sabe? Tietes da Maria Rita, porque o Lenine começou a tocar e só vi uma evasão para o tal bar, e voltavam calibrados de cervejas, bebidas e outros bichos, e o povo na seca, é isso aí. Ah! Eu poderia ficar escrevendo cada detalhe e cada minuto, cada música, cada emoção, mas é muito, muito extenso e acaba por estar já em cinco páginas de depoimentos em forma de crônica, que acaba em que ainda tentei pegara MR saindo do show, a peguei, mas entrando no carro e saindo, nem deu tempo, estava rolando uma briga e poderia até ser perigoso se eu tentasse abordar, então saí de fininho e como estava tudo muito confuso e fechado ainda fiquei um pouquinho por lá, peguei um salsichão com Fanta Laranja em uma dona que malhou o show dizendo que o da Ana Carolina tinha sido melhor e que para dormir com mais essa, ela manda a seguinte: “Ela não é a Elis, né? Ela é a filha, então, coitada, ela não passa mais nada disso?”, pois é, dormi ouvindo essa última, mas estava sem forças. Ainda fiquei perguntando entre uns dez guardinhas municipais, detalhe, nunca vi tanta viatura e tanto policial aglomerado, mas do lado vi uma van que entraram os músicos da MR, lógico que o único que consigo gritar algo é pro Da Lua e ele sempre olha e dá um aceninho e tal, mas nada de foto nova… Um dia, eu chego lá… Eu consigo minhas fotos legais e guardo para sempre e não perturbo mais! Lado aborrecente vibrando e gritando dentro de mim pungente, recém feitos trinta anos, pode isso? O final da maratona foi que depois de fazer o lanchinho básico, nada light para quem já está tendo que entrar o ano em dieta para variar um pouquinho, ainda consegui ter a sorte de pegar na Barata Ribeiro chegando no sinal e, na hora H, chegando o ônibus, com ar, dieto para o Recreio. Nem acreditei, chegaria em casa, sã e salva, no frescor de montanha e não teria neuras, ainda peguei uma senhora muito simpática com seu filhote (gatinho diga-se de passagem, mas muito baby, estava fazendo naquele momento, na virada para o dia 29, ali no ônibus 18 aninhos, não é lindo? Até parabéns pra você teve! Não sou MR, mas dou para o gasto… (risos)). Papo vai, papo vem, declarações e rasgações, defesas em prol da MR, pois afinal a senhora ali falava a mesma coisa, o mesmo refrão que, por exemplo, a minha mãe catequizada não mais fala, porque já coloquei de castigo e no Canecão, mamãe não a conheceu por essa neura necrófoba de chamar a menina de a cara da Elis o tempo todo e que isso assim, e isso assado é igual, poxa, vamos considerar, passou do tempo e já deu, como já cansei de colocar. Foi tão tão a minha defesa que ela começou a falar de outras coisas, nem mais citou a semelhança, suspirando sempre, eu cada vez que lembrava de um detalhe, ficava vibrando, sabia que seria difícil dormir naquela noite, mas no meio do caminho tinha uma pedra… tinha uma pedra no meio do caminho… Como tudo não é perfeito, o ônibus enguiçou no meio do deserto da Avenida das Américas, na altura do Barra Bali, realizem? Pois é, ficamos dentro do ônibus esperando o estorno de nossas passagens e nada feito, foram-se mais vinte ou trinta minutos, brincávamos, cantávamos, conversávamos e o ônibus fechado, abafado e subindo o cheiro de óleo e eu resolvi no ímpeto de que estava apertadíssima, morta de sono, podre de vontade de um banho, com sede, enfim, havia ficado um dia inteiro na soleira de quase quarenta graus e não estava para passar a noite ali e cheguei no motorista e mandei a decisão, mas tudo em vão, foi quando decidi, ADEUS, quem quiser que me acompanhe e fui, pegando o primeiro táxi que podia, como disse, nesse dia, eu estava liberada para gastar, porque era a minha comemoração de Aniversário, Ano Novo, Natal, todas juntas de Maria Rita, nossa querida cantora que me faz anestesiar todas as dores e passar por todas essas dificuldades e ainda dizer, pois é – Veja bem, meu bem… Tudo isso vale a pena, mas sim, você vale muito a pena, Maria Rita, anjo da música, diva da MPB, para mim, nunca esquecerei dos desafios e obstáculos dentro das maiores dificuldades que me fez ultrapassar vendendo medos que a muito não havia mais pensado em relutar! Obrigada, você é grande! Letras de Lenine que me fizeram pensar, pensar, chorar e refletir durante o show! Paciência (Lenine e Dudu Falcão) Mesmo quando tudo pede Um pouco mais de calma Até quando o corpo pede Um pouco mais de alma A vida não pára Enquanto o tempo acelera E pede pressa Eu me recuso, faço hora Vou na valsa A vida é tão rara Enquanto todo mundo espera a cura do mal E a loucura finge que isso tudo é normal Eu finjo ter paciência O mundo vai girando cada vez mais velos A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós Um pouco mais de paciência Será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber A vida é tão rara, tão rara Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma Eu sei, A vida não pára (não tenho certeza se ele tocou no show essa, mas eu lendo achei muito dentro de meu momento e acredito que tenha sido cantada sim, sinceramente ainda estava meio em transe com o show da MR!) Distantes Demais (Lenine/ Dudu Falcão) Somos Somente A fotografia. Dois navegantes Perdidos no cais, Distantes demais. Somos Instantes Palavras, poesia. Dois delirantes Ficando reais, Distantes demais. Noites de sol, Loucos de amar, Quem poderia nos alcançar. Eu e você, Sem perceber, Fomos ficando iguais, Longe, Distantes demais. Salve a MPB e vote na Maria Rita! http://babado.ig.com.br/especiais/melhoresepiores2003/pop_votar.html?11

  • Rafael.... diz

    poxa isso é que é comentar . . . .

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