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Coisa de Paulista - (13-05-2003) Foi um dia desses, mesmo. O filho da minha tia Geni - lá do Rio - e portanto meu primo, bateu na porta de casa. Disse que estava de férias e veio pra ficar “um tempo”. Esta história de “um tempo” sempre soa estranho, mas a gente acaba esquecendo e nem liga. Nesse “tempo” ele conseguiu me achar indo pro trabalho. Pegou as minhas coisas (muito solÃcito) e veio com uma conversa de queria saber o que era idiosincrasia. Me senti pai, como se meu filho estivesse ali, na minha frente, perguntando tudo, querendo saber o que era isso e aquilo. Foi pior. Como eu ia dizer aquilo? Quando é o filho você até consegue tapiar, dar uma desculpa. Sentei no sofá da sala, bebi o café e fui explicar da maneira mais simples: peguei o dicionário e comecei a ler. Logo de inÃcio vi que não estava surtindo efeito e resolvi exemplificar - exemplo sempre ajuda. É mais ou menos como essa gente aqui de São Paulo. Calma, eu explico. Os paulistanos são cheios de manias, paranóias, coisas que você só vê aqui mesmo. Vamos supor que você está parado no semáforo, em um cruzamento. Todo paulista está lá, atento ao farol da pista transversal só pra poder saber quando vai abrir o semáforo para a pista dele ou então fica olhando de soslaio para o farol de pedestres. De qualquer forma ele vai estar com o pé na embreagem pronto para o inÃcio da corrida; sim, porque todo paulista que é paulista mesmo tem que encarar o trânsito como uma corrida contra o tempo, afinal, tempo é dinheiro. Paulista que é paulista mesmo anda embaixo do sol forte com sua pasta ou bolsa a tira colo e pode acreditar, é só olhar dentro delas (peça com educação para evitar confusões ou mal entendidos) e você vai encontrar um belo e grande guarda-chuva. Não importa o tempo ensolarado, sempre há uma possibilidade de chuva. Pura paranóia. Idiosincrasia paulistana. Vamos fazer uma outra suposição pra ficar mais claro. Vamos imaginar que você está andando pela paulista acha a mesma bolsa ou pasta de paulista, que é bem provável pois vocês está em São Paulo na avenida Paulista, e abre pra conferir de quem é. Você vai achar a carteira da pessoa com documentos e dinheiro, mas não é só isso. Abra a bolsa interna e confira. Com certeza, se a bolsa for de um paulista que é paulista mesmo, tem o “troco pro ladrão”. É isso mesmo, um dinheiro pra entregar pro assaltante na tentativa de não deixá-lo irritado com a pobreza da vÃtima, no caso, você. Além do “troco pro ladrão” também está lá o guarda-chuva (olha só as nuvens cinzas chegando!). Tá me entendendo? É coisa de paulista mesmo, entende. Ninguém mais se sujeita a ficar horas parado nas estradas pra chegar em uma praia que provavelmente estará cheia de paulistas como você, digo, eu. Idiosincrasia vai mais ou menos por aÃ, são essas particularidades de cada um. Você tá me entendendo? Veja como ser paulista é ser idiosincrático. Paulista que é paulista mesmo quando sai pela cidade e para em um bar ou um boteco qualquer só come “dois pastel e um chopps” e acima de tudo odeia tudo do Rio de Janeiro, menos as cariocas e o Cristo Redentor. Entendeu? Depois disso nunca mais o filho da tia Geni apareceu pra ficar “um tempo” em casa. |
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