Caminho catado

Era um catador de feijão. Não destes comuns. Era do tipo que separava o joio do trigo. Não “mais” (sic), porque agora só separava feijão. Mesmo porque, o que é “joio”, quem já viu um pé de joio? Continuando . . . . . . . . . . .

Era um simples catador de feijão. Ele não colhia nem nada, ele só pegava o feijão, já manufacturado, e separava o grãos; separava, ali na mesa, o próprio, das pedras que vinham junto no saco. Ele não trabalhava nas fazendas; seu trabalho era em um pequeno restaurante da cidade. Ele era o melhor dos melhores quando se falava em especialização.

Nunca havia se importado se era um simples catador de feijão. Fazia seu trabalho; e por este motivo foi ficando cada vez mais ímpar em sua função a ponto de um dia – digo “um” dia porque não sei precisar o dia que aconteceu, óbviamente; mas todos na cidade ainda se lembram – ser chamado de canto na sala do dono do restaurante e ser promovido. Sim, pro-mo-vi-do e esta é a parte inesquecível, porque vocês podem imaginar o que mais vem depois de catador de feijão? Pois é, existem mais coisas entre o Céu e a Terra, meu caro . . . . . . . . . . Foi designado para um serviço mais árduo e minúsculo que feijões: arroz. Promovido a catador de arroz. Foi uma das grandes bençãos que ele agradeceu por anos em sua vida. Foi, assim, uma mudança total de perspectivas. Feijão era uma coisa e arroz . . . . . . . . Ah, o arroz!

Não demorou muito e ele já era o melhor catador de arroz da cidade. Honrarias de chef. Os clientes entravam para cumprimentá-lo fingindo visitar a cozinha do restaurante. Tornou-se uma celebridade. Seus dias de folga eram como um desfile de carnaval, acenava e mandava beijos para a população que o saudava na passarela imaginária da praça do coreto.

Trabalho bom era trabalho bem feito e por isso ele não descansava, era um dos mais corretos funcionários do restaurante, funcionário do mês durante anos, mas começava a sentir uma certa dificuldade em chegar no horário por causa dos seus novos fãs que paravam sua caminhada para o trabalho para conversar e tirar fotos. Inúmeras foram as vezes que ele atrasou os risotos da casa e já não conseguia mais disfarçar a sua impaciência com a situação. Então veio uma conversa muito séria com o chef – que o admirava muito – e o trouxe para uma nova função, mais difícil porém menos regular. Transformou-se, pois, em catador de cebola das bacalhoadas de sexta-feira. Ganhou um uniforme mais sóbrio e elegante. Ficava de pé, ali, postado feito vaso de canto esperando que algum cliente solicitasse sua habilidade. E ele catava cebolas como ninguém. A vantagem é que saíra da cozinha para lidar com o público e assim precisava comparecer um menor número de vezes ao trabalho conseguindo, então, lidar melhor com seus horários e compromissos. Contudo, sua nova função tornava-o mais público do que quando trabalhava na cozinha e por isso a situação foi piorando paulatinamente. Não conseguia sair mais aos domingos com a família; aos sábados ele tinha que sair correndo da pelada com os amigos porque mesmo sem fazer gols e sendo o maior perna-de-pau da cidade, ainda assim, era o que mais dava autógrafos. Pensou em distribuir santinhos mas só ia priorar as coisas. Ele começou a reparar nos pratos que eram servidos e a quantidade incrível de pessoas que não comiam cebolas na bacalhoada. Começou a achar a situação completamente ridícula, afinal, porque eles não comiam as cebolas, um vegetal tão saudável e saboroso? Vá lá que deixa um certo “bafo” mas nada que uma escova de dentes não possa resolver.

A gota d’água foi uma sexta-feira chuvosa que fez entrar – às pressas – um senhor sorridente apesar da agua que pingava do seu paletó. Sentou-se comedidamente. Olhou para ele e pediu uma bacalhoada com cebolas, enfaticamente. Menos um trabalho se a pessoa gosta de cebolas. Quando o prato chegou o sujeito cochichou alguma coisa ao ouvido do dono do restaurante. Solicitamente caminhou e pediu que fosse feita a “catação” das cebolas. Foi o fim. Fez o serviço o mais rápido que podia. Serviço bem feito. Entrou para a cozinha e começou a tirar o uniforme. Saiu pela porta dos fundos e ninguém mais o viu. Dizem por aí que “numa” (sic) cidade vizinha tem um homem muito bom que cata batatas como ninguém, mas acho improvável: batatas são muito grandes.

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1 Comentário on "Caminho catado"

  • malena diz

    vc e o leo combinaram ou o q?

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