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O mundo tem dessas coisas - (08-09-2003)

Era domingo, era dia; dia de ir para casa da minha avó. Dia de cruzar a cidade. o caminho era muito maior doque este de hoje porque era pequeno, criança. Engraçado como você sempre acha tudo muito grande e demorado quando é criança. Aí vem os adultos com os relógios e todos os ensinamentos de como se comportar sendo pontual e tudo fica mais curto e o tempo encolhe.

No farol, semáforo ou sinalera, dependendo de onde você está no mapa do país, havia um moço robusto e bem apessoado, mas que fazia coisas engraçadas. ele ficava ali parado esperando os carros imitarem seu gesto, e então, começava a conversar com os outros moços que estavam dirigindo. Eu nunca entendi muito aquilo porém, era simpático da parte dele. Todos sorriam e seguiam seu caminho. Coisa de adulto, a gente não entendia.

Com alguns anos a mais eu comecei a achar mais estranho ainda essa coisa de farol e gente conversando. Toda vez que eu tinha que ir para casa da minha avó eu cruzava a cidade e eles vinham conversar com a gente, sempre muito educados, mas certas vezes tive medo. Um cruzamento mais à frente e veio um menino decalço de um pé conversar com a gente. Meu pai falou alguma coisa com ele enquanto eu via o seu único pé, descalço. Aquilo ficou na minha cabeça até eu conseguir achar uma solução para o pé daquele menino. Só podia ser isso, era o próprio, era o saci. Pra mim, aquilo tudo era novidade e nem me dava conta do que tudo aquilo se tornava ao longo dos anos. Só fui realmente perceber o que estava acontecendo esses dias atrás quando eu comecei a dirigir pela cidade devidamente licenseado. Era um mais um dia no fundo de garantia, um dia comum. Um semáforo comum. A situação, também, comum. Amarelo. Vermelho. À direita, uma orda de portadores enlouquecidos esperando o verde da largada - portador é um nome bastante estranho para quem já foi motoboy - ; à esquerda, sacos e sacos de balas e doces vendidos no mais novo ponto-de-venda da cidade: o retrovisor do seu carro. Ao longe um sujeito caminhava com dificuldade por entre os carros e com certa intolerância pela vida. A dificuldade era fisicamente visível, com apenas uma perna, aquele jovem adulto não podia correr distribuindo os doces, não conseguia dirigir uma moto e ficava ali, na sinalera, andando e pedindo. A largada foi dada. Primeira, segunda, o rosto era familiar, os olhos, o sorriso, não conseguia imaginar outra coisa. O dia todo foi assim, aquela imagem do menino conversando com meu pai na janela do carro.



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Marilene - marilene@dearruda.com.br • 10-09-2003 07:08

Nossa escrevi preocupar errado…. mil desculpas

Juliana K. - juliana.k@terra.com.br • 10-09-2003 07:42

Gostei. Pra você ver como criança sempre procura ver o lado positivo das coisas…a ingenuidade embeleza o mundo.

Marilene - marilene@dearruda.com.br • 10-09-2003 10:18

Rafael bom dia !!! adorei sua crônica e fiquei pensando de como realmente quando nos tornamos adulto o tempo é importante para nós ,talvez porque ja começamos a nos preoculpar com o amanhã que depois de uma certa idade fica cada vez mais perto e temos pressa de realizar o que um dia foi um sonho de criança hoje seja a nossa responsabilidade como pai ou mãe …. Beijos

Rafael - rafael@cronistasreunidos.com.br • 11-09-2003 06:48

Fico feliz de ter feito algo que vocês gostaram. Às vezes a obrigação de escrever nos torna tão automáticos que fica difícil escrever alguma coisa mais “autoral”. Valeu.

marmarga@uol.com.br • 25-09-2003 07:20

Rafael, queria sugerir que em vez de você pedir um minuto de silêncio para quem inventou o minuto de silêncio, o coloque logo em silêncio definitivo. Talvez esqueçam… E parabéns pela sua presença sempre renovada. om você o silêncio não tem vez. Um abraço.

Anonymous - marmarga@uol.com.br • 25-09-2003 07:23

Corrijo o “Com você…”

Gente, o horário está errado. Não estou assim tão madrugadora…

Mas estou bastante divertida com esse seu negôcio do silêncio. Obrigada.

Rafael - rafael@cronistasreunidos.com.br • 25-09-2003 07:37

Elogios aceitos, curiosidade acirrada, espero que você continue por aqui. Abraços.

Anonymous - marmarga@uol.com.br • 25-09-2003 07:52

Rafael, mas você foi muito rápido! Fiquei olhando uma outra crónica sua, Carta de Amor, e não consegui entender porque uma carta de amor preciiiiiiiiiisa ser brega. Quer ver uma que eu não acho brega, mas vale também qq outra opinião. Aí vai:

já percebi:

é loucura

tu assim

dentro de mim

e eu de ti

– à procura

Este poema está em meu livro Memorial, editado em 2001.

Rafael - rafael@cronistasreunidos.com.br • 25-09-2003 09:00

Concordo com vc e acho muito bonito este seu poema, mas poema é poema e crônica é crônica; eu não podia ser tão platônico em detrimento a obviedade dotexto em questão.

Parabéns pelo poema, muito bonito!

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