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A mulher do chefe - (06-11-2003)

Esses dias eu estava lembrando de uma coisa terrível. É, uma coisa terrível que eu fiz e nem acredito. Eu tinha tudo pra evitar, deixar passar, mas não. Eu estava lembrando do dia que eu beijei a Rose. Porque eu fui fazer aquilo, eu ainda não sei. Instinto animal, solidão, sex appeal, sei lá. Mas eu não lamento por ela - porque ela era realmente linda - mas por mim que não lembrei da questão profissional mais importante para um sujeito: nunca, eu disse nunca, jamais beije a mulher do chefe. O Valdir era um cara legal e tudo, mas eu nem liguei e beijei a mulher dele, mas quando digo mulher eu não quero dizer aquela coisa careta de marido e mulher. A Rose era a “mulher” do Valdir no seu jeito mais sensual e sexual de dizer essa palavra, mulher. Vivia cheia de presentes secretos que todo mundo sabia de quem eram, mas a surpresa era fingida com uma certa fluidez da hipocrisia parlamentar.

Depois de tudo, acho que a Rose, em algum momento, gostou de mim. Eu estava nas nuvens e ela me puxava mais pra cima. Largou o Valdir e começamos a namorar. Foi um choque para muitos, inclusive o novo chefe que despediu o próprio Valdir e toda a equipe, inclusive eu. Esqueci o trabalho, esqueci o Valdir. Só pensava na Rose, só falava na Rose; bebia e respirava Rose. Ela também me adorava, chorava cada jóia que eu pendurava em seu corpo. Nosso amor era intenso como um carro esportivo acelerando em uma arrancada; ela não chegou a participar de arrancadas mas fizemos amor loucamente dentro daquele porsche que eu dei de presente no nosso aniversário de um ano de namoro.

Viagens de lua-de-mel foram umas quinze, beijos quentes e enlouquecidos, incontáveis. Acho que o dia mais feliz da vida da Rose foi quando eu encontrei outro emprego; nesse mesmo dia eu quis fazer uma surpresa pra ela e comprei um loft; pequeno, porém confortável, e dei de presente pra ela. Eu estava nas nuvens e ela me puxava pra cima. Aquilo é que era mulher. Contudo, depois dos cinco anos mais maravilhosos da minha vida a coisa toda foi esfriando, não sei como, mas foi. O trabalho já não dava conta de tanta frustração e comecei a me desligar da empresa até me desligarem. A Rose até que segurou a barra durante um tempo, depois saiu pela porta de trás à francesa. Não durou seis meses e eu estava sem perspectiva na vida. Ligava pra casa dela e ninguém atendia. Acho que ela deve ter mudado do loft ou perdido o telefone, pobrezinha.

No final das contas eu acabei sem emprego, sem mulher, sem dinheiro - não que eu me importe, sem casa, sem comida, dependendo da ajuda alheia como estas pessoas que nos ajudam com comida e roupas.

- Mais sopa?
- Por favor, obrigado.

Esses dias eu encontrei o Valdir em um albergue aqui perto, ficamos horas sentados sob a marquise, conversando sobre a injustiça da vida e como chegamos a tal ponto. Discordamos em tudo. Só houve trégua quando o assunto foi a Rose.

- Um espetáculo de mulher!
- Sem dúvida, uma santa mulher!



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Leopoldo - link - leopoldo@cronistasreunidos.com.br • 13-11-2003 08:03

Genial Rafa!

Rose - rose@terra.com • 17-11-2003 05:17

Vc pode por gentileza devolver meu sultien meia taça… Vc também não falou aí que adora um fio terra e que o meu consolo de aço diminuia de diâmetro a cada semana que passava em sua casa… Cachorro!

Valdir - valdir@valedoriodoce.com.br • 17-11-2003 05:20

Fala sócio! Saí da merda e estou aqui na Vale como supervisor de novas tecnologias… Ah esqueci de falar no Albergue: Eu tenho AIDS! Contraí de uma mariposa da rua de trás antes de conhecer a Rose…

Boa sorte garoto!

Valdir

Juliana.K@terra.com.br • 17-11-2003 11:06

…das últimas que li do seu repertório, a melhor!! Parabéns!

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