Infeliz saber

Hoje eu acordei bem. Não sei o que era, mas acordei bem, como há muito eu não fazia. Não sei bem o que era, talvez o ar gelado soprando no rosto quando você põe a cara na janela e recebe uma bofetada de ar de esquerda e um direto de raios luminosos. Bang! bem no meio do nariz. Isso sim é acordar bem. Mas o que me fez bem de verdade foi acordar sem preocupações – não que não tivesse com o que me preocupar e, acredite, eu tenho – como se o mundo todo fosse atender seus pedidos e desejos, como se fosse posível pensar em algo e pronto: estava lá, acontecia, feito.

É engraçado, porque minha última lembraça desse estado de espírito é da infância ou pelo menos adolescência e tal descoberta me jogou contra a parede do auto questionamento (acho que tenho lido muitos livros de auto-ajuda). Seria o passar dos anos e o amadurecimento um sintoma da infelicidade, ou simplesmente a consciência das coisas nos tornaria infelizes?

De certo não deixei muitas opções, mas perceba a intenção da questão. Se você concordar com o amadurecimento paulatino já está sendo traçado um caminho que um dia será congruente em algum ponto com a questão da consciência das coisas e dos fatos, na realidade são maneiras diferentes de perguntar a mesma coisa e perguntando eu quero na verdade afirmar (a pergunta foi apenas um argumento retórico para deixar você, leitor, mais à vontade). O conhecimento, não substantivamente, qualquer conhecimento, até os mais simples, que nos pegam nas esquinas da vida são de fato fatores de infelicidade. Quanto mais você conhece ou sabe, mais você quer saber e diante da impossibilidade – porque sempre haverá uma impossibilidade – você se frustrará. Mais uma frustração . . . . . . . . . mais uma dose de infelicidade.

No caminho contrário, imagine por exemplo, um ignorante; não pejorativamente, mas imagine essa pessoa, que ignora os fatos que você não. Você pode imaginar, vamos lá, você consegue, é só imaginar toda vez que você reclama de alguma coisa como seu salário que não muda, ou a droga do seguro do carro que venceu, ou então quando você pragueja a porcaria da situação dos países como o nosso que ficam sempre à mercê dos “yankees malditos”. Imaginou? pois então: esta pessoa não. Porque ela não sabe o que é salário, porque ela não tem carro e muito menos faz idéia do que isto seja e jamais soube o que essa palavra, “yankees”, queria dizer. Sem dor, nem frustrações, como uma anestesia mental, alienação.

Não fique aqui uma névoa de “locus amoenus” em favor da destruição dos automóveis perseguindo uma vida movida a carro-de-boi, ou uma imagem política de alienação popular e domínio do poder, porque isso seria um erro e porque também já foi feito. Eu estava aqui apenas tentando fazer você acordar bem, como eu.

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4 Comentários on "Infeliz saber"

  • volponi diz

    Não sei não, Rafa. Essa visão “seja alienado que é melhor” não me convence, apesar de compartilhar com você essa inquietação que de auto-consciência e consciência traz problemas.

    Mas tenho a ligeira impressão de que não tê-las seria pior, muito pior, pro mundo inteiro. Já ouviu falar em sociedade? (Nem estou falando em civilização, é só sociedade mesmo.) Imagine 150 índios, numa tribo, sem se preocupar com as coisas. Eles dariam certo? Hummm… sei não.

  • Sempre penso nisso, Mamutão.

    E mesmo sabendo que não é o certo, isso sempre me parece o mais cômodo … Ainda não concluí muito o pensamento sobre isso …

    Valeu o texto !

  • malena diz

    entendo completamente o q vc quer dizer…….é…….mas nunca existiria uma comunidade harmoniosa de pessoas totalmente ignorantes: ou ela sumiria devido aos próprios erros ou em algum momento apareceria um espertinho se dando bem em cima dos ignorantes…sei lá

  • Rafael diz

    Nossa, tanta despretensão no meu texto e veja só o que deu . . . rs.

    NA verdade foi só um esforço teórico-argumentativo pra ver se pensando sobre o assunto eu conseguia desenvolver alguma teoria nova ou outro questionamento, sei lá. Mas é bom ver que o assunto interressa.

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