Como escapar da solidão na mesa

E o mundo, hein? Continua uma merda. Estes dias eu fui comprar pão, na padaria (é claro), e encontrei com um dos meus vizinhos que comigo defendia a rua de cima contra a de baixo e ele passou reto. Devia estar atrasado ou coisa assim. O mundo continua a mesma porcaria de sempre, você cresce e isso significa: ficar chato, entediado, refém.

Coisa mais ridícula de se reparar é a solidão. É, a solidão. O desapego as coisas tradicionais e a pífia tentativa de modernização dos costumes vêm trazendo apenas a individualidade e o egoísmo: e por isso, pífia. Incrível a pressão com que isso cai em nossas cabeças. Eu mesmo estava me preparando pra sair e encontrar uns amigos e fiquei tremendamente impaciente porque eu estava saindo e chegaria na hora combinada. Até aí, nada demais. Mas eu tenho que dizer que apartir do instante que eu cheguei no bar eu percebi o que realmente significava a solidão. Não o lado mais romântico da coisa, mas o lado prático mesmo. Entrei e nenhum graçom teve o atrevimento de me atender. Deviam pensar coisas como: “ele está sozinho, vê se não irrita o cara”, “pô o cara veio sozinho que triste, não importuna ele não”. Como se fosse uma doença eles mantinham distância segura e intransponível. Pensando agora, talvez o atendimento simplesmente fosse ruim.

Conseguida a mesa para oito e tendo que aguentar aquelas pequenas vozes na minha cabeça dizendo “mesa pra oito, só se for oito almas”, “oito? quem ele quer enganar? Era só sentar naquela ali mesmo”, ” pobre coitado, não teve coragem nem de pedir uma mesa pra ele” – sentei. Nem vem com essa, sentei como um macho senta. Chutei tudo, arrastei a cadeira e me larguei como um saco de lixo jogado na calçada. Macho pra caramba, tá pensando o quê?

Mesa pra oito, sim senhor. Estava sozinho com todas aquelas cadeiras. As pessoas ficavam olhando, observando o coitado, no caso, eu. Ninguém admite que uma pessoa fique em uma mesa de bar, sozinho. Mesmo sabendo da solidão urbana e da falta de perspectiva alheia, as pessoas se espantam com isso. Experimenta, uma vez, sentar você e sua consciência. As pessoas devem imaginar que você é infeliz, que não tem amigos, o que não era o caso; eles estavam apenas atrasados. A medida que o tempo passa e você olha em volta, mais e mais pessoas reparam na sua momentânea solidão e julgam sua vida em um piscar de olhos. Começam as expeculações afetivas e aí vem a idéia de que a pessoa que senta só, em um bar levou um bolo, ou pior: a outra pessoa do encontro chegou viu e foi embora.

Particularmente eu desenvolvi um método bastante eficiente e consagrado em diversas áreas, infelizmente a afetiva ainda não deu certo mas tenho esperanças. Quando você se vê em uma situação parecida e não sabe o que fazer, primeiro: jamais ligue alucinadamente pra falar bobagens com sua amiga ou pra fingir que lembrou de alguém e começar a conversar. Isso é trapaça. Depois da invenção do celular isso tornou-se um mau hábito, covarde até. Seja convicto da sua situação e criativo na solução. Peça uma bebida, de preferência alcoólica e olhe fixamente para um ponto na parede a sua frente – se não houver parede procure uma, onde já se viu bar sem parede! Quando a bebida chegar, empreste uma caneta da pessoa que te atendeu e improvise. Pegue um guardanapo e comece a escrever. Faço isso por pura comodidade pois tenho que escrever semanalmente e esse tempo que me sobra entre chegar no horário e esperar os outros é bastante produtivo. Mas você pode escrever seus pensamentos, exercitar a caligrafia e a imaginação. Quem sabe você não se descobre um(a) cronista de talento? Você pode até ganhar dinheiro com isso e talvez ficar famoso. Quem sabe, até, o seu vizinho te reconheça na padaria um dia desses.

Compartilhe!

1 Comentário on "Como escapar da solidão na mesa"

  • Kris diz

    Cara, ficou muito bom…você realmente captou o sentimento…mas agora que vc falou que pegar o celular e ligar pra alguém é trapacear não sei mais o que fazer…tenho que começar e escrever…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *