Pão e leite

Nunca foi tão fácil tirar o carro da garagem. Ninguém perguntou se você estava levando o documento do carro. Ninguém pediu pra você tirar os materiais do banco de trás, antes de sair. Muito menos, vieram dizer que o tanque estava vazio ou os pneus precisavam ser calibrados. Foi coisa simples. Pega a chave, abre o portão, liga o carro e sai. Mas sempre tem o primeiro farol. Ah, o primeiro farol! Você ali andando tranquilamente e ele surge, parado, ali na sua frente. Ele olha pra você e desafia todo o seu dia só com o seu jeito petulante de ficar ali, parado.

A rubra luz que vem de cima não te afeta, você continua em movimento, mesmo que o carro esteja parado. Olha daqui, espia dali. Se você estiver na faixa do meio vai ver à sua direita um senhor de cabelos ralos, escassos, que tosse compulsivamente e cutuca o nariz com o indicador. Quase perde o dedo. Na sua esquerda um moleque, que nem sabe dirigir direito, acelera o seu “carrinho esporte”que o papai deu. O cara pensa que sabe dirigir, que sabe pilotar, imagina. Quando vir o verde nos olhos você mostra pra ele, mostra sim. Deixa engatado pra sair na frente. Isso, agora ele vai ver o que é dirigir. Nem saiu das fraldas, o fedelho, e acha que pode ficar assim acelerando do seu lado.

Vai. Mostra pra ele. Deixa pra trás tudo e queima a faixa antes que ele perceba. Próximo. E o calvo da esquerda? Próximo. Próximo. Só até o próximo. O farol contina olhando pra você. Com ar de superioridade, como quem faz chacota da sua mediocridade e submissão a uma simples luz vermelha. Ha, ha, ha. Você vai ter que fazer alguma coisa. Droga. Olha pra frente. Vê o que está ali. Droga. Não pode ser, uma velhinha! Como, por Deus, ela apareceu na sua frente?! E pior, dirigindo um Corcel II dourado – velhinhas sempre dirigem Corcéis II dourados, ou Del Reys azul-marinhos. Pelo retrovisor você vê que ela nem enxerga direito através dos enormes óculos de armação grossa e preta.

Droga. Não vai dar pra sair na frente dos outros carros. Seta pra direita, droga. Seta pra esquerda, droga. Todo mundo passando. Tem que ter uma saída. De um lado, um sujeito que passeia em pleno dia da semana, cutuca seu nariz largo. Do outro, um motoboy passa esbarrando no retrovisor. Outro motoboy passa, mais outro, e outro. Todos parados na linha de largada e a velhinha na frente. Droga, como o mundo é injusto.

Verde. Sai. Acelera. Pra direita, pra esquerda. Tchau ô barbera. Corre. Os motoboys não estão muito longe, você consegue. Acelera. Mas . . . . . . . .vrummmm. Aquele moleque me paga. Deixa, no próximo eu pego.

Não, não pode ser. Tenho . . . . . . . . droga . . . . . . . . eu tenho que virar à direita. Estava quase alcançando, droga, porquê? Porque parar, quando se pode ultrapassar? Vai, não perturba, eu quero dois litros de leite e cinco pãezinhos. E rápido. Quem sabe eu ainda alcanço eles.

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1 Comentário on "Pão e leite"

  • Paula diz

    Ai….essa sua crônica me deu uma fominha…nhan nhan

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