Lobato

Lobato era apaixonado. Na sua vida só havia espaço para o futebol. Desde pequeno, Lobato colecionava figurinhas
das copas, trocava as repetidas e fazia mil rolos só não jogava bafo – medo de perder o Josimar. Nunca mais se falou no Josimar, o foguete da ala direita da seleção! Pena.

Lobato já nem sabia o que era almoço em família. Domingo era dia de estádio e ponto final. Já estava nisso
há uns três anos. Adorava a catarse das arquibancadas, até mesmo das cativas; era diferente mas ainda assim,
era futebol.
Sabia tudo do esporte bretão, os jogadores, seleções, Lobato era do tipo que sabia a escalação do time tricolor campeão em 90, o placar e os artilheiros. Mas o que ele mais gostava era de sentar ali, de frente pro campo, e reclamar. Já não podia mais, reclamar da vida, então, o fazia com os jogadores. Xingava. Ah que momento bom! Esperava todos se aquietarem e levantava bradando palavrões dos mais variados para o pobre do Alex – Alex é o ala esquerdo do time do coração do Lobato e só tinha chutado a bola para a lateral, enfim. Ali, no meio de todos, Lobato se sentia vivo! Mesmo assim, Lobato estava só, sempre fora só. Nunca tivera paciência ou qualquer apego a nenhuma mulher. Era homem de uma só paixão.

Ah, doces ventos sopram na direção daqueles que pensam que sabem de tudo!
Lobato conheceu Marina. Encantadora, e pelo adjetivo já se sabia o que causaria em sua vida! Doce, educada, sabia sorrir de um jeito que sempre te pega desprevenido e aí você sorri de volta esperando que ela se jogue em seus braços. Melhor de tudo. Horário do cafézinho (meio da tarde) Lobato encontra Marina na cozinha do escritório às gargalhadas com o Pereira comentando o jogo do Domingo. Quanta exuberância! Lobato conseguia ver cada lance que Marina narrava.

Numa história louca de um tio bastardo que chegara no meio do 2º tempo, Marina parou. Olhou para Lobato esperando alguma reação ou interrupção, ou até uma bronca – e que a mandasse voltar a trabalhar – mas Lobato sorriu.
Estava estaziado, o máximo que ele conseguiu foi pedir para ela passar o açúcar! Com um sorriso mágico, Marina estendeu a mão e passou o adoçante. Ele nem percebeu. Ela, também não.

Os dois sempre se encontravam às 16h na cozinha, toda segunda, para falar sobre a paixão. E de tanto conversarem, decidiram que a amizade já era suficiente para irem ao jogo juntos. Um desafio – Marina adorava futebol, mas nunca tinha ido ao estádio assistir uma partida!

À primeira vista, tudo certo. Multidão, ok; flanelinhas, ok; barraquinhas vendendo “XPernil”. . . . . ok; aí veio aquela vontade de ir ao banheiro. Aquí teríamos um capítulo à parte mas não convém detalhar, agora, esta aventura.
De volta ao estádio, já em suas cadeiras, os dois passam desapercebidos do tempo, que é curto, e o jogo se inicia.
Lobato reinvindicava mais garra ao time, esperneando e maldizendo tudo quanto era nome. Foi quando ele lembrou que estava com a Marina. Olhou para o lado, bem de soslaio e percebeu que ela parecia mais aflita que ele.
Toca a bola seu, seu, seu . . . . besta! Ela nem conseguia gritar só falava alto na direção do campo.

Falta na cabeça da área. Do outro lado da encantadora companhia, levantou um moleque de uns 14 anos e gritou:
“Dá amarelo pra ele! Juiz filho da p… e os xingamentos não pararam por aí. O mais impressionante em um estádio de futebol é a igualdade que ele proporciona. Não tem rico, pobre, preto, branco, o sujeito sentou no estádio, começa a xingar; e são os mais diversos palavrões endereçados aos jogadores ou suas respectivas mães. Os juízes.
Ah, os juízes! São os maiores prejudicados nessa história. Porque? Porque nenhum dos dois times vai sair elogiando
o árbitro. Esse é um coitado, pensava Marina. Ela se sentia oprimida pela quantidade de palavrões e insultos.
Todo mundo xingando, do menor ao maior, da criança com o pai ao aposentado que entra sem pagar. Nunca tinha ouvido tantos!
Foi, então, que Marina surtou, levantou e gritou algo bastante rude em relação à mãe do juiz.
Um palavrão. É, acho que foi um palavrão. Lobato ficou estático. Seu rosto empalideceu. Teve uma síncope.
Ela era perfeita!

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3 Comentários on "Lobato"

  • Kris diz

    dá muito pano pra manga isso aqui…

  • malena diz

    #@**/§#æ!!!!!!!!

  • é de mais !

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