Uma esquina real

Opa. Tudo bom? Eu só queria um cigarro, tem aí? Tá meio fora de moda mas é o único vício que eu tenho e … vício é vício, não é? Meu nome é Flávio, não que isso vá fazer alguma grande diferença na sua vida, mas eu gosto que as pessoas saibam quem está falando. Sim, elas devem saber o nome do personagem da história: eu. Mas não é porque eu sou um personagem que eu sou de mentira, eu existo, de verdade. Não é porque você está escrevendo, ou lendo que eu posso existir, eu estou aqui, bem aqui, é, aqui mesmo tá vendo? Se bem que se ninguém estivesse escrevendo ou lendo niguém poderia conhecer a minha história não é? Se eu estivesse em uma história, fechada em um livro qualquer, dentro de uma biblioteca de um colégio particular da cidade, eu nunca existiria para estas pessoas, mas ainda assim existiria para mim mesmo. Tá me entendendo?

O caso é que quando vejo esses dias abafados, o sol se pondo atrás dos edifícios doirados, posso dizer doirados? Estava num livro que eu acabei de ler: “cachos doirados de puro mel”! Achei bem bonito. O caso é que nesses dias eu sento aqui e fico olhando as pessoas, é como se eu fosse uma consciência coletiva que vaga por entre a população e pára aqui nessa esquina, bem aqui. Eu ouço tudo o que eles passam, conversando ou sussurrando. Olho pra esses caras aqui da frente, esses … como vou chamar; desempregados, ambulantes, brasileiros, esses caras que ficam aqui nesse farol vendendo balas no pára-brisa dos carros, e fico pensando em como eles não se lembram das cáries. Tenho certeza que as mães deles falavam para não comerem muitos chicletes porque “estragava os dentes”. Agora eles aparecem nos faróis propagando o consumo indiscriminado desses monstrinhos de açúcar sem lembrar do que a pobre mãe um dia ensinou. Preciso de mais um cigarro, não aguento ver essas coisas e ficar transpirando consciência. Tô de saco cheio mesmo. Mas olha só: o cara aqui existe. Como é seu nome? Jonas. Olha só, o Jonas existe de verdade, eu tô vendo ele aqui do meu lado, e ele é o meu personagem, mais um personagem, da história (se é que o que acabei de falar é uma história) que eu contei, falei, resmunguei. Ultimamente eu tenho andado muito resmungão. Resmungar por resmungar, sem razão de ser. Mas é que ninguém acredita que eu existo de verdade. De verdade! Eu falo com as pessoas, nas ruas, e elas dão aquela risada medrosa concordando e querendo correr de mim ao mesmo tempo. Veja se você consegue entender. O Jonas. Ele é um personagem da minha história do farol, sei eu. Ele existe. Existe na história e existe de verdade, pra mim, eu posso ver, tocar – com licença. Se ele me desse uma porrada agora seria bem real, de fato. Agora Eu. Eu existo. Existo porque eu sei que existo, horas. Jonas, chega aqui um pouco. Um soco … dá um soco aí, vai! Ouhphf! Olha só isso foi bem real. Ai, só existindo mesmo pra saber dessas coisas. Eu existo e não preciso de nenhum comentário ou etiqueta dizendo que sou baseado em fatos reais. Porque? Porque eu sou real, droga. Mas ninguém acredita. Droga. Vamos fazer o seguinte, vamos continuar com o raciocínio só que agora invertido. Você por exemplo. Como você sabe que você existe? É … como você tem certeza? Não adianta pedir pra outra pessoa te beliscar ou dar um soco, você não acredita em mim então isso também não vale. Como você sabe que ao escrever ou ler esse texto você também não é um personagem de alguém que escreve ou lê algo tão esquizofrênico quanto esse texto sobre alguém que quer provar que existe além do texto que diz que ele existe, mas ninguém acredita, afinal ele é uma personagem. Como você pode dizer que você existe se os outros não acreditam? E se acreditassem? Você só existiria se os outros acreditassem que você existe? Se houvesse apenas você e mais niguém, então você não existiria?

É nesses dias de mormaço e vento fresco de início de chuva que eu gosto de sentar aqui nessa esquina e acender o meu vício. Só preciso dele e mais niguém.

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3 Comentários on "Uma esquina real"

  • malena diz

    e será que o mundo atrás de mim existe mesmo quando estou olhando pra frente ou ele some e reaparece quando olho para trás? e as pessoas somem também e só continuam existindo na sua própria auto-visão, que são os braços, as mãos e um desfocado que é o nariz? mas e o espelho? é só uma miragem? ele reflete realmente como sou ou me engana?

  • Rafael diz

    No caso do espelho posso dizer que ele te engana……..e isso é exlplicado pela física, no mais a gente precisa sentar em um botiquim e beber para ter certeza. rs*

  • malena diz

    realmente, esse papo ficaria muito mais rico depois de umas biritas. Aposto que sairiam teorias incríveis. Sabia q o Einstein era um bêbado?

    Just kidding…

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