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Sem título - (21-03-2005) Ele simplesmente não sabia o seu lugar. Queria, porque queria, tudo aquilo que não lhe pertencia. Nas idas e vindas do mundo já havia perdido seu tempo pensando em futilidades como trabalho, casa, dinheiro, sexo, amor. Agora não sobrava mais nada, era ele e mais nada. Tivera uma educação bastante adequada às possibilidades de um mundo moderno, nunca fora repreendido sem razão ou explicação, nunca pôde largar os estudos por preguiça ou má vontade. Aprendera uma vida correta e assim preparou-se para vivê-la, só não contava com os frutos da árvore do conhecimento. A inquietação do saber carregara consigo a angústia da incapacidade, diante do inevitável universo de ignorância que ainda guardamos. Não conseguia guardar pra si a descoberta da sua própria mediocridade; precisava mostrar a todos o quanto somos e ainda seremos insignificantes nânons falantes. O mundo sentiu o peso dos seus largos passos e, marcado, guardou pra si mais um inconformado ser entre as centenas que já havia acolhido. De tudo, até agora, sabiam apenas dois. Era pouco. Tudo parecia um constante sonho do qual você acorda mas não consegue erguer-se do leito e ali fica esperando que alguém o levante. Alienados, julgavam-no descontrolado ou anormal, sem mesmo tentar compreender o embrionário e admirável mundo novo. Nada parecia novo o bastante, e ao mesmo tempo era de uma clarividência ímpar; talvez por isso. É, talvez por isso. Uns poucos que percebera no caminho lhe deram um pista sobre a resolução da sua impaciência e aflição: resignação. Aceitação, talvez. Percebia que certas pessoas compreendiam o que significava tal pensamento e assim o encaravam. Não era uma descoberta, absoluta, verdadeira. Não era o código genético, não era o urânio, não era o homem, do macaco, descendendo. Era sobre a própria mediocridade humana, uma descoberta antropológica talvez, ou sociológica, mas não era científica e por isso desgastou-se nos comentários irônicos e sarcásticos daqueles que não se percebiam como personagens da mais linda descoberta humana. Transcorrido o tempo necessário, explanações sociais e muita argumentação, ele pegou-se desanimado e faminto. Precisou alimentar-se mais uma vez. No caminho, ainda conseguiu que um senhor, já muito de idade, escutásse-lo. Com paciência e um pouco de pigarro, respondeu a cada questionamento e por fim levou a mão à boca e tossiu: “- Não desita, isso é muito bonito, meu filho!” Na metade do trajeto até o café lembrou que os brioches haviam acabado. Há 5 anos que ninguém mais sabia fazer brioches, agora eles faziam um pãozinho que de tão insoso até que tinha um gosto diferente. Sentou na calçada e ficou ali parado, inconsolável. Não sabia mais o que fazer. |
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Mára Pezzolo - link - marapezzolo@uol.com.br 01-04-2005 12:00
ô Rafa! |
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Mára Pezzolo - link - marapezzolo@uol.com.br 01-04-2005 12:02
ps.: peça pra alguem esconder este livro do Proust, tá Rafa? |