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Abra seus olhos - (16-09-2005)

Acordou subitamente. Sua mente estava desperta mas seus olhos permaneciam fechados. Virou para esquerda procurando conforto, mas seus ombros não seguraram o giro tão comum e tantas vezes repetido. Rolou da cama ao chão……….teve que abrir os olhos.

Com eles ainda semi-cerrados, tentou limpá-los, mal podia enxergar. Muita remela. Teve a impressão de ter visto uma pomba ou qualquer outra coisa alada.

Sacudiu o corpo, não entendia, mas ele simplesmente não conseguia limpar os olhos. Algo estava muito estranho. Não conseguia um apoio, que prestasse, para levantar. Pensou nas aulas de yoga. Girou e pôs-se de joelhos, e depois de pé, caminhando até o lavabo.

Parecia uma ressaca de três dias. Meio tonto e bocejante, fitou o pequeno espelho na parede: barba por fazer…………..estranho!……….. Ficou paralizado. Não que já não estivesse.

Seus braços……..onde estavam os seus braços! À sua volta, o ar parava, nada se mexia, estava perplexo. Como alguém podia acordar sem braços e pior, não ter a menor lembrança do que possa ter ocorrido! Seria uma gangue de tráfico de órgãos, ou coisa parecida? Lenda! Talvez um carma ruim, ou até mesmo intervenção divina? Crendice! Não soube responder, parado………pensando na vida, nas suas mazelas, não soube responder. Suas memórias o traíam veementemente; perdido no labirinto da recordação, ele chorava.

Uma hora de reflexão e sofrimento foram suficientes para terminar com sua auto-compaixão e se reerguer com coragem para mais um dia, mesmo sem entender tudo aquilo. Lágrimas nervosas ainda caíam sobre a pia de mármore branco quando percebeu um objeto atrás do seu reflexo, seguido de uma coceira. Ele tentou alcançá-lo e virou de costas para o espelho. Precisava ver o que coçava tanto. E viu. Seu rosto ficou petrificado como se visse ali, na sua frente, a própria rainha medusa. Já estava estupefacto com a desgraça acontecida e agora mais essa. Não conseguiu segurar a fúria da qual foi acometido e começou a gritar e chorar. Um misto de raiva e desespero que acertava sua cabeça na parede, no espelho, quebrava os vidros do box do chuveiro e a porta. Parou em posição de súplica como se fosse a única posição a ser tomada. Natural.

A lembrança da recente visão só aumentava sua angústia, não conseguia acreditar. Asas! Ela não tinha braços, tinha asas. Porque? Como? Soltou um urro grutal tentando voltar no tempo ou qualquer coisa que alterasse o estado em que se encontrava. Em vão. Olhava com nojo e assombro aquele par de asas que surgia das suas omoplatas. Viceral. Tivesse braços cortaria as plumas naquele instante. Parou apenas quando, surpreendentemente, foi tomado por uma sensação de tranquilidade e entrega: “e se ele pudesse voar!”



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:: recomende :: comente este texto (4) ::
José Ignacio - jicmendes@gmail.com • 16-09-2005 02:10

Putz… muito bom. Prende o interesse. É legal ver que os textos de todos nós estão melhorando, né? Parece até que estamos ficando sérios (rsrsrs)…

Gabriela - link - gabi_blanco@hotmail.com • 18-09-2005 07:46

Nossa! Estava tão bom no começo que achei que o final fosse estragar, mas não estragou, foi ótimo! Muito do estilo que eu gosto de ler.

Ricardo - link - ricardo@cronistasreunidos.com.br • 20-09-2005 01:06

Super-produção, heim Mamute?! caramba!

anninha • 22-09-2005 03:28

e se ele pudesse voar urrando grutalmente?

adorei, realmente MTO boa!

congrats!

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