A verdade sobre a beleza

Era uma vez uma cidade muito, muito bonita em um lugar muito, muito distante onde tudo era lindo e nada era feio. A população seguia as apolíneas tradições venerando tudo que era belo, tudo que era agradável aos sentidos. E assim é que era…
… e era lá, nesta cidade muito, muito bonita em um lugar muito, muito distante que vivia Fernando, um rapaz simples, vindo de uma cidade muito, muito comum – alí da vizinhança – onde nem tudo era tão lindo assim, se é que vocês me entendem.

Todos trabalhavam duro sem perder de vista o que mais dignificava o homem (depois do trabalho): a beleza. Consequentemente as pessoas eram muito preocupadas com a saúde, e faziam do culto ao corpo uma diversão que era quase obrigação.

Na cidade muito, muito bonita tudo era como ela, tudo perfeito e muito, muito bonito às luzes da ribalta. Foi em um dia ensolarado, de temperatura amena, com passarinhos chilreando que Fernando, alto, bronzeado, de porte atlético e gentil (depois de muito, muito esforço; um homem muito, muito mudado), encontrou Clarice – sua antiga amiga de infância e impressionantemente a atual mulher mais bonita da cidade muito, muito bonita, muito muito mudada; lá em um lugar muito, muito distante.

Clarice estava maravilhosa. Cabelos longos, castanho-claro e com médio volume, davam formato àquele rosto angelical de nariz fino e lábios carnudos. Convidativos. Seu corpo era escultural. Seios, nem grandes, nem pequenos, tiravam a atenção daqueles que atraídos pelo reto abdômen ficavam perdidos no quebrar dos quadris de Clarice. Suas coxas eram desejáveis obras de arte não assinadas. Um verdadeiro convite à descoberta da autoria. Tudo isto coberto por uma alva e fina seda a que chamava de pele.

Foi amor à segunda vista. É……..porque Fernando estava deslumbrado com uma Maserati Spyder GT muito, muito irada que passava naquele instante. Mas logo viu que nada se comparava à beleza de Clarice.

Por dias os dois se encontravam nos lugares mais comuns, academia, clínica de bronzeamento, cromoterapia. Tomaram inúmeros cafés enamorados nas saídas para lipoescultura e drenagem linfática. Uma corridinha aqui, um peeling químico ali, depois uma conversa romântica na sessão de invel (cada um na sua maca, afinal Clarice era moça de família).
Então, uma quarta-feira depois da depilação a laser e esfoliação facial que eles tinham combinado, Fernando teve a certeza, só precisava achar o momento certo.

E o momento certo finalmente chegou: ia ser no dia do preenchimento com ácido hialurônico; depois desse dia só restaria a semana da bioplastia.

Não houve dúvidas, agora, o casal mais lindo da cidade muito, muito bonita, decidiu pelo casamento; nada poderia dar errado, teria que ser maravilhoso e foi. A cidade em festa, os padrinhos lindos – corredores, triatletas, jogadores, todos esportistas; tudo saiu como tinha que ser.

O resultado foi instantâneo, em poucos meses já se via desfilar a grávida mais bonita da cidade muito, muito bonita que ficava ali depois do rio à esquerda, em um lugar muito, muito distante.

O bebê do casal, outrora migrados, foi mais aguardado que copa do mundo e no dia do nascimento todos os jornais estavam prontos para notíciar o acontecimento. O parto não foi fácil, houve complicações de ordem de competência. Não havia um obstetra na cidade. A sorte foi que um cirurgião plástico que estava dando plantão tinha um primo na cidade vizinha – que também era muito, muito distante, mas não dali – e conseguiu buscá-lo a tempo.

Tudo pronto, nasceu o filho de Fernando e Clarice; e ainda na mesa de cirugia os dois se entreolharam e lembraram da infância (cada um da sua) e de como a genética nunca mente.

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5 Comentários on "A verdade sobre a beleza"

  • Kris diz

    Plástica no rebento!!!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Que maravilha!

  • flavio diz

    adorei esta crônica, apesar de ter demorado p/ entender,hehehehe.

    simplesmente é como o mundo está hoje, banalizado pela beleza construida pelos fabricantes, produtoras de filmes entre outras coisas qu nos fazem pensar q a beleza são pessoas “saradas”, bonitas e etc…e não pela beleza interior.

    não sou contra a beleza fabricada, e sim vc ficar escravizado desta beleza.

    abs e bjs a todos

    flávio

  • diz

    Muito, muito hialurônica!

  • Muito bem escrito, Mamute! O lance da Maserati também foi de tirar o chapéu! haha

    parabéns!!

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