Sindicato

Cinco para a meia noite. Eles já não suportavam mais! Seus caminhos estavam traçados de uma maneira tortuosa, sem volta, não viam possibilidades de mudanças. Trabalhavam o ano inteiro, jornadas diárias de 8 horas, viva a CLT (que Deus a tenha!). Mas trabalhar de final de semana, feriado, trabalhar na época de Natal e agora, ali, nas vésperas; sem ver a família, sem poder comemorar. Onde estava o espírito natalino? E a solidariedade, a confraternização?
– Que confratenização que nada, eu vejo vocês o ano inteiro, inclusive final de semana, porque eu deveria me confraternizar com vocês? Pra mim chega!

– É … pra mim também. Fazer o meu trabalho, o dos outros e ainda assim ganhar o equivalente a prestação de favor, o que é isso?

No outro canto…

– Eu não aguento mais essa palhaçada! Quando nós vamos ter respeito e profissionalismo aqui dentro! Eu que só deveria empacotar, agora tenho que empacotar, dividir e encaminhar para a expedição…eu sou um só!

Lá no fundo se ouvia…

– Vocês não sabem o que é ficar aqui esperando a decisão alheia para ver se eu continuo fazendo ou paro tudo. Já estou aqui ha 30 minutos e nada!
– E você não sabe o pior: me ligaram agora – cinco pra meia noite – para eu vir aqui trabalhar. Sem respeito nenhum, acordaram minha esposa e meus dois filhos porque precisavam de mais gente na montagem.
– Pois é…época de Natal é assim, todo mundo quer faturar, ninguém quer pagar e ainda te desejam Feliz Natal. Hipocrisia.
– Hipocrisia, nada; é cara-de-pau mesmo! Tanto tempo trabalhando aqui e nem férias eu posso tirar direito.

Perto do maquinário…

– A gente precisa se impor, dizer que não dá mais. Não é queståo de ganhar aumento – que disso eu nem faço questão -, é ganhar qualidade de vida; tempo pra ver os filhos, tempo pra namorar.
– É, eu que o diga! Não consigo ter vida social, não saio de casa nos fins de semana (quando não estou aqui trabalhando), não vejo, nem conheço pessoas novas e ainda por cima me cobram porque eu não casei. Mas como se eu sou praticamente um heremita?
– Precisamos nos unir! Vamos criar um sindicato, uma organização, algo que nos represente e faça valer nossos direitos.
– Ok, deixa que eu falo com o “homem”.

Já no escritório…

– Precisamos acertar as coisas, não dá mais pra fazer três funções e ainda assim ficar motivado. Não tem como mostrar competência e nós nem ao menos ganhamos pra isso. Você precisa resolver isso de uma vez por todas. Sem essa de baixar custo às nossas custas, ou então…, ou então …é greve!
– Todos estamos exaustos; eu, vocês, as renas; mas por favor, compreenda: uma greve agora seria o fim do seu natal, do meu, de todo mundo. Eu sei que tenho sido desatento quanto à organização dos processos e relapso quanto à motivação dos meus funcionários, mas vocês devem compreender que antigamente eram poucas e hoje, só na China, são quase 700 milhões de crianças esperando seus presentes!

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4 Comentários on "Sindicato"

  • malena diz

    hehe, uma ótima crônica de natal!

  • diz

    O bom velhinho sobreviverá ao socialismo de mercado?

  • Bom Velhinho, My ass! haha

  • Murilo Moyses diz

    Ta certo! Tem que trabalhar!

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