Duas

Eram duas na mesa, uma de frente pra outra. O jeito lânguido que a da direita apoiava o fino queixo no punho, semicerrado e flexionado, fazia pender minha apatia. Seu sorriso quente e honesto…é, honesto; daqueles que escapam sozinhos não por um motivo, por nada, sincero; esse sorriso…enchia a mesa. E só tinham duas.

A cabeça pequena, ereta, com cabelos lisos e castanho-claros balançava vez ou outra no ritmo da conversa.

O colar caía sobre o seio em matizes azulados destacando aquele busto delicado e convidativo, nem farto, nem pouco: voluptuoso. Suas costas inclinavam e se contorciam toda vez que, por graça, ela sorria. A mini-blusa branca mal cobria a região lombar. Na mesa, um copo com suco dava a dica do gosto delicado: devia ser cupuaçu.

Na esquerda, um gingar de cabeça repetia um movimento lento que concordava com quase tudo o que se dizia. Pelo menos era o que parecia. Cabelos cacheados até a altura dos ombros, nada muito moderno; um corte de cabelo clássico, contido. Olhos atentos e amendoados abriam suas pupilas para cada palavra que saía da boca alheia. Com atenção estudantil discorria teorias e fatos que nem ouso bisbilhotar. Parecia interessante. Uma mesa duplamente sensual, exalando charme, beleza e porque não, desejo.

De corpo esguio e mais delicado, ela poderia estar desfilando uma série de assuntos sobre magreza, dietas e exercícios, mas algo no olhar da outra dizia que era muito mais interessante que essas frivolidades da modernidade.

Ali, naquela mistura de fofocas com política, surgiu um pedido simples: coca com gelo e limão. Foi o pedido mais delicioso e demorado que o garçom já fez, teve, deu saída, anotou, ele nem sabia por onde começar; pobre coitado, hipnotizado pela serpente do desejo, desculpou-se três vezes antes de conseguir escrever coca.

Quanto mais demorava, mais interessante ficava. Um misto de tranqulidade e luxúria cercava a mesa que, dali do canto, parecia flutuar. A situação ficava incontrolavelmente deliciosa para o público que só faltava parar na calçada para amarrar o cadarço do chinelo. Na direita, ela estendia a palma da mão por sobre os cabelos cacheados da esquerda que retribuia com lascividade o gesto tocando o rosto delicado e afinado.

Olho nos olhos, o perfume de uma já pertencia à outra, cada coração em volta palpitava acelerado esperando o momento que a distância entre elas fosse extinguida de forma corajosa em um beijo que libertaria uma população inteira de sofredores efêmeros, ansiosos e até angustiados. Era assim que tinha que ser.

Quem sabe em um outro texto!

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4 Comentários on "Duas"

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Aeeee!!!!!!

  • diz

    Credo, até passei mal…

  • Parabéns, Mano! Vai descrever bem assim tudo isso, lá no …

    Muito bom!

  • diz

    Duas pra mim também!!

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