“en passant”

Nascido e criado ali. Nunca dera ouvidos àquela gente que vivia dizendo para se mudar. Não. Ali era o seu lugar. Como dois e dois são quatro, ele sentava sempre no mesmo lugar. Não na mesma mesa porque os donos mudavam, a decoração mudava e não seria ele o chato de pedir para ser aquela mesma mesa de pinus, vagabunda, na qual sentou-se da primeira vez. Já não devia mais existir; afinal, abria e fechava bar e ele ali, sempre ali: incondicional. Não era por nada, não; ele só gostava de estar ali; no seu lugar.

Os mais novos demoravam a se acostumar com as idiosincrasias do velho – antes nem tão velho assim, afinal frequentava o bar desde sempre. Dizia que era por causa dos donos, queria conhecer gente nova, com ímpeto.

Já devia, ele mesmo, saber como levar aquele bar, aqueles bares…….. mas se divertia em ver o circo em ação; no palco era só risos, discretos, internos, mentais. Antecipava as inovações pueris num jogo de adivinhações que não tinha fim. Sentava ali de frente pra rua em um lugar que nem era o melhor; mas era dali que ele via o “seu” lugar, a “sua” gente, os carros, os moleques que sempre passavam jogando bola. Iam para a Tosca (quadra de futebol society na rua de mesmo nome).

Na mesa, sempre uma cigarrilha debruçada sobre a cavidade própria do cinzeiro. Sobre o porta-copos havia um conhaque. A filha insistia em dizer que aquilo acabaria por matar ele e toda a familia depois, de desgosto.

A pontualidade não era seu forte, às vezes chegava cedo; às vezes chegava tarde, mas sempre chegava – para certa alegria dos donos que viam nele um símbolo da boemia, no mínimo da persistência e faziam questão de agradar o freguês, mesmo que alguns não conhececem o real significado da palavra.

Em meio a toda a agitação que podia envolvê-lo fisicamente, a resposta era simples, com gestos lentos advindos de uma outra época. Era uma bolha temporal que regia suas ações não importando a velocidade das coisas que o faziam se mexer, responder, interagir. Seus goles eram curtas-metragens degustativos e cada tragada era uma cena cinematográfica. Sua tolerância era inabalável. Ficava ali, sentado horas e horas bebendo e fumando; até o último gole, até a última cinza batida……………… Que dia triste foi este!

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