Umidade

É que o dia estava diferente mesmo. No abrir dos portões, no andar do carro, tudo estava diferente. Minto, os sons não eram mais os mesmos. Os pedestres conversando, os ônibus passando, não havia o ensurdecedor barulho do cotidiano. Como em um take de cinema, as ruas estavam mais calmas e vazias. O som estridente e incessante dava lugar ao grave e baixo ruído das coisas. Como se estivéssemos vivendo em um planeta, em uma cidade, acústicos por assim dizer. Tudo parte de uma grande gravação. Tudo obra Dele: o Diretor.

Talvez fosse a umidade . Sim, a umidade do ar; ela devia estar baixa. É verdade, a umidade baixa altera a propagação do som e por isso é que estava tudo diferente. Lembrei das aulas de Física, a professora Rosana … Porque a bem da verdade a gente está aqui respirando moléculas, átomos. E átomos têm massa, tem peso, o que nos faz lembrar (ok: me faz lembrar) que respiramos algo sólido. Sim, todos nós respiramos algo sólido, só não é denso demais e por isso o conseguimos fazer; respirar.

Adoro respirar, ainda mais nesse dia, manhã de inverno. Adoro manhãs de inverno!

Estava tudo perfeito para a ocasião. O sol que apareceu tímido, sem esquentar o suficiente. O ar lá, parado, esperando a gente trombar com ele … uma pintura cinestésica.

Talvez tenha sido a umidade. As pessoas andavam mais leves, pareciam livres das preocupações do dia anterior, pareciam vivas. Como em um sonho ou em um passe de mágica, tudo estava mudado; foram apenas algumas horas entre o deitar e o despertar mas pareciam anos, talvez décadas, ou até mesmo o próprio sonho do qual aquelas pessoas eram apenas imaginação.

A estranheza do bom é que atormentava. A dúvida, a incerteza do que causara aquilo mantinha a curiosidade alerta. Não tinha explicação. Talvez a umidade, na verdade a falta dela. O certo é que de um lado estavam entrando os concertistas, todos alinhados como manda a boa etiqueta das sinfônicas. Todos de um preto alinhado, sóbrios; homens e mulheres impecáveis.

Resolveu chamar pelo nome, gritava … sem efeito. Andando, olhando, acenando e gritando ele foi chegando até trombar com uma senhora que, abaixada, procurava sua cadeira. Óculos para um lado, bengala para o outro e quando, enfim, recuperaram-se; houve uma rouquidão muito grande de ambos os lados. As vozes não saiam e os olhos apertados, forçados, lacrimejavam de emoção. Um velho amor, uma velha paixão; velhos enfim.

Não se sabe como aquilo aconteceu mas tem gente que, ainda hoje, jura que foi a umidade.

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1 Comentário on "Umidade"

  • diz

    De fato, tem uma idade em que a umidade afeta a humildade.

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