O que se há de fazer

Parou e sentiu aquela dor no peito. Angina, já disse uma do lado (que teve o padrasto morto em tiro-de-guerra). A começar pelo peito acho que pode ser mesmo algum troço no coração – melhor ver isso aí rapidinho! Outra: se a dor é no peito só pode ser coração; o quê fica no peito? Coração, pô. Tá na cara!

Do outro lado da avenida já havia um punhado de gente tentando atravessar pra ver o que aquele trio estava a discutir. Não, olha lá, deve ser dengue – falou o negrinho chegando assustado com a branquidão do assolado. Mas dengue dá no peito? Sei lá, olha como ele tá branco. Minha tia teve isso de ficar branca e depois ó? Capaz que seja aquela doença que a gente fica branca, solta a pele e tudo, igual o Maicon Jéquison (sic)! é ruim, hein! o Maicol Jaquissu (sic) tem é muito dinheiro – exclamou o porteiro do prédio do lado pela grade do jardim – isso deve de ser doença de pobre, olha só o estado dele?

Outra pontada no peito e a mão evidenciou o que parecia não ter como evitar. Chegou correndo um senhor que achou que era fila pra pegar a aposentadoria. Decepcionado praguejou: deve ser coisa de gente que trabalha demais, estresse, essas coisas de moleque que quer ficar rico da noite pro dia. A mulher que passeava com o seu pulguento favorito perguntou, ele é rico? Falei que era a doença do Maicon Jéquison (sic), ah lá, ele é rico.

Calma, deve ser gases, eu já tive isso! Gases? No peito? Claro, você nunca arrotou? Não fala bobagem, eu trabalho aqui no açougue há vinte anos e nunca vi ninguém assim antes; o coitado tá agonizando, ó lá? Vixe! Na minha família nunca vi disso aí não, deve ser mesmo coisa de rico que nem ele falou. Alguém já chamou o resgate? Não, mas desse jeito que ele tá nem precisa, não passa da primeira curva. Coitado. Ei! Manoel! Chama o resgate! É, quando tem que ser, tem que ser né? Imagina você passando na rua e tem um troço assim… de não conseguir nem pedir ajuda, Deus me livre! Pois é, até chegar o carro do resgate… já foi. Mas ele não é rico, deve ter um plano médico? Iiii, se depender de convênio também… Qual o seu? Unihelp, e o seu? Classes Carmelitas, mas já estou tentando mudar, teve uma vez que eles não quiseram fazer um exame de urgência porque não tinha uma via carimbada, pode? Eles não entendem o que quer dizer urgência. Fiz o maior escândalo! É, menina, esses caras só querem o nosso dinheiro, e pior que quanto mais velha você fica pior é? Cada vez menos condição de pagar e cada vez mais caro. O que foi que aconteceu – descendo do ônibus? Dengue hemorrágica – respondeu o negrinho – minha tia teve isso sabia?

Seus olhos clamavam por socorro, seu corpo imaginava um lugar seguro e confortável para passar o resto da vida. Que mané dengue o que, você acha que na cidade existe aqueles mosquitos? Aqui só tem é pernilongo. Mas doença do pernilongo não é a malária? Eita, se for malária não tem cura, viu? Eu vi no Fantástico. Deixa de bobagem O que não tem cura é AIDS. Todos se afastaram. AIDS? Mas vc não falou que ele tava com a doença do Maicon Jéquison (sic)? Não, eu falei que ele tava com dengue, igual a minha tia, essa senhora é que falou que era doença de rico, que não sei mais o que. Falei nada eu disse que era Angina. Infelizmente já era tarde pro mudinho.

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7 Comentários on "O que se há de fazer"

  • Mamute!
    Muito bom os diálogos. Se eu tivesse uma idéia dessa, o texto ia ter 30 páginas e não ia passar tão bem a confusão do momento! hehehe
    Bem legal memo! Parabéns!

  • Kris diz

    Hahahaha. Muito bom. Eu também acho que era Gases.

  • gru diz

    adorei o final

  • gal diz

    maicojequison

  • Adoro os diálogos!
    Muito bom!
    Parabéns

  • kadu diz

    ba mas que pora

  • gostei do texto, é uma narrativa muito boa, sinto falta de um bom conteúdo em blogs na internet.

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