Epifania d’água

Acertou a pedra na água, não para baixo,  paralelo à superfície; e imediatamente pensou na vida; os saltos que ela dá. Decepcionou-se. A pedra só ricocheteou três vezes.

Ele já tinha quarenta e cinco e não podia esquecer o dia em que se formou com louvor. Primeiro da turma, uma capacidade fantástica de resolver problemas e uma inteligência aguçada. Ele mesmo não se continha de ansiedade e esperança. Ah, aquele dia! O céu era o limite, ali ele começaria a traçar o seu futuro, começaria a arrancá-lo do tempo e dividí-lo em etapas. Ah, aquele dia!

Já empregado, e com o tempo ultrapassando qualquer prospecto ou projeção, ficou ali, apenas; olhando para a água como se estivesse sobre uma canoa e acompanhasse a suave ondulação provocada pelo lançamento anterior na superfície que silenciosamente refletia o azul do céu. Ali, bem ali, ele tinha encontrado Marina pela primeira vez. Marina foi a alegria e a tristeza, seu bucolismo e seu transtorno. Nunca amou ninguém como havia amado Marina. Seu segundo salto! Casamento, filhos, quem podia pensar nisso se sua vida modificada ao extremo não acompanhava os planos traçados. Ficava consternado. Via o céu como limite mas percebia que no horizonte, céu e terra se tocavam e não importava o quanto ele corresse o horizonte sempre corria mais.

Agora com quarenta e cinco não tinha mais tanto tempo assim para imaginar, conseguir, o que quer que fosse o terceiro salto da sua vida de pedra. Não tinha feito metade de tudo que imaginara. Não tinha se mudado, não tinha se casado, não tinha vencido. Parado; feito pedra.

A superfície espelhada da água se acalmava. O reflexo que surgia, definido e melancólico, o Eu que ele nunca havia imaginado, ele mesmo vivido, experimentado, ultrapassado. A lâmina de água parada à sua frente era como um letreiro em neon na 5ª avenida mostrando o caminho mais curto e também óbvio, obscurecido pelo ímpeto humano mas iluminado, naquele instante, pela natureza. Olhou para baixo e se viu no céu caminhando entre as nuvens que chegavam do norte. Então deu seu último salto.

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3 Comentários on "Epifania d’água"

  • Murilo Moyses diz

    Acho que conheço esse cara.

  • Camila diz

    Tanto bate até que um dia a gente fura e imagina como seria diferente “se …”.

  • anna diz

    bravo!

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