Memo

“Cancer free” era o que constava naquela singela tarjinha colocada diagonalmente na borda de cima da caixa do K1 kids. Foi seu primeiro brinquedo de verdade. Funcionava igual ao do pai só que era um modelo meio ultrapassado; somente os adultos podiam ter celulares de verdade e que, inevitavelmente, eram um pouco mais perigosos no que dizia respeito a emissão de radiação. Mas era igualzinho a um de verdade, teclas, toques, fotos; só que de brinquedo. Era assim que Romeu via: igual a um de verdade mas de brinquedo. Mas também pudera, o garoto tinha apenas 5 anos.

Até seus 8 anos eram modelos de celulares e laptops que passavam por suas mãos sem o devido cuidado afinal brinquedo estraga rápido, não é? Aos 9 ganhou sua primeira mini-DV com scan interno e impressão rápida; uma beleza! Seu contentamento não foi pouco e logo já tinha teras e mais terabites de momentos seus e dos seus colegas, momentos familiares, alguns inapropriados, outros divertidos, muitos intrigantes. Tudo catalogado e devidamente guardado no seu presente de 14 anos: um harddrive AMD DuocoreIntel SCX – 300 da Sony; 252 DECABITES de instantes deliciosos da sua vida.

O menino era um prodígio! Suas imagens e histórias ficavam cada vez mais detalhadas e sua impertinência em filmar começava a dar sinais de interferência nos estudos. Incapaz de se concentrar em qualquer aula ou professor por mais dinâmico e digital que fosse, Romeu não ia bem na escola. Aulas de video conferência com alunos de Harvard ou Cambridge eram meros passatempos em uma época que privilegiava o pragmatismo e o talento (talento aqui definido mais como dom e portanto inato, que qualquer outra possibilidade aprendida, afinal o garoto era praticamente incapaz de tal feito).

Romeu precisava mesmo era descobrir seu talento. Não podia se tornar mais um programador padrão da corporação, tendo seu dia filmado em um escritório, depois na rua e finalmente em casa; queria ele mesmo fazer as histórias, inventar, achar finalmente uma sala ou um lugar qualquer onde niguém pudesse filmá-lo e nem ele filmar. Um lugar onde ele pudesse simplesmente existir, sem precisar criar o próximo hit view do ustube.com fazendo alguma experiência genial com guaraná-cola ice ou sendo ridicularizado por não ter feito nada. Acordou numa quarta-feira de céu azul e se jogou de um precipício. Isso realmente aconteceu e tenho tudo filmado (por ele mesmo, é claro). Sucesso.

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2 Comentários on "Memo"

  • anna diz

    Bravo!

  • anna diz

    silêncio.

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