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O strass - (11-07-2008) O curioso foi que ela sorriu. Tempos atrás teria sido diferente; com certeza, diferente. Entre dentes teria rogado uma praga, mandinga ou qualquer coisa que o valha. Não aceitava sua condição insólita. Mente sã e valorosa em um corner e no outro, “seu” corpo voluptuoso de formas perfeitas. Deslumbrante seria a palavra para definí-la. Mas Ela era ela, o corpo era ela, mas Ela não era ela. O que podia fazer? Muita coisa. Seu corpo acabara de passar e pegar um táxi. Rubem Berta esse horário… não sairía do lugar durante alguns bons minutos, talvez algumas dezenas deles. Ela desceu, digo ela, mas era Ela (pelo menos o corpo). Ela desceu em seguida. Seguindo a si própria, passo-a-passo, ela seguia sem notar a própria presença. Um certo medo mantinha a distância entre elas. O que poderia acontecer se ela se visse? O surgimento de um buraco negro, talvez a criação de uma quantidade de antimatéria que destruiria o local, o planeta, quem sabe? Deus nos livre. O relógio já marcava metade do dia quando ela passou em frente a uma loja cuja vitrine jamais esqueceria. Toda rebuscada, moderna e rebuscada como seriam todas as vitrines na próxima estação. Muito brilho, muito luxo. No detalhe de um strass a ecatombe aconteceu. Em um breve instante ela tocou seus cabelos com o indicador e os colocou para trás da orelha. O gesto delicado revelou uma turva imagem que por trás dela surgia, pouco a pouco, como que um obturador a se regular. Quando pôde enxergar nitidamente viu que a mulher que se prostrava atrás dela era familiarmente bonita e no instante seguinte os paramédicos tentavam ressucitá-la. Foi só o que ela lembrava. Nunca soube ao certo o que acontera diante daquele minúsculo strass. Mas o curioso foi que ela sorriu. |
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