A última corrida

O cheiro de esgoto que subia era um odor qualquer. Grudava por dentro das narinas, e se ele tivesse prestado atenção perceberia que aquilo descia pela garganta como um chá quente de carqueja. Horrível. Só que não ia para a barriga; estufava o peito cheio de ansiedade que esperava, à sombra, a coragem chegar para atravessar a fita de chegada.

O dia quente com o ar parado, úmido, pastoso. Piscava lentamente enquanto o suor que se criava na testa, por baixo dos grossos fios de cabelo da franja, escorria pelas têmporas e tocava a barba cerrada que havia feito no dia anterior.

Olhou o retrovisor e São Jorge protetor, pendurado, encarando com serenidade seu humilde servo. Se é verdade que sua vida passa sob seus olhos no caminho certo até o paraíso, que fosse aquela, então, a sua hora.

Com o pescoço tenso, balançou em gesto afirmativo a cabeça que vestia pela última vez o mesmo capacete. Até o momento a proteção que seu corpo sempre precisara. Pensou na mulher, na filha; beijou São Jorge, que até o momento protegera a sua alma e sempre trouxera, à galope, a coragem que vez ou outra titubeava.
O carro estava pronto. Ele estava pronto. Os nervos à flor da pele, testa franzida por baixo da viseira. Um simples inseto atravessou o seu campo de visão. Perceber aquele ínfimo ser entre ele e o pára-brisas foi como um sinal de prontidão. Seus sentidos estavam aguçados e sua mente concentrada para seguir em frente.

Pensou na filha mais uma vez. Pisou fundo.
Foi tudo muito rápido… como um mergulho juvenil na represa. Toda tensão que se cria antes de pular até que você se liberta e solta a musculatura das pernas para que em uma explosão de energia, entre a euforia e o medo, elas te levem ao sublime instante em que a gravidade e apenas a gravidade torna-se sua rainha. Perde-se o fôlego e submerge até que se passe uma pequena eternidade e emerja, então, o novo rei. Sua filha adoraria ser uma princesa.

Foi tudo muito rápido como eu disse. Entre sair dos escombros retorcidos, ainda de capacete, e sacar a 9mm da cintura foram poucos segundos. Muito menos durou o assalto à joalheiria, já toda quebrada pelo Voyage 84, menos ainda para que um tiro disparado por um segurança de outra loja fizesse o seu trabalho. Sua filha adoraria ser uma princesa.

Compartilhe!

1 Comentário on "A última corrida"

  • Eu iria comentar uma coisa, mas acho que não.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *