O canto do adeus

Quatro horas da manhã e ele já se posicionava sobre o avançado mais alto da cerca. Não tinha lugar melhor pra ver o sol nascer. Era uma emoção impulsionante, incontívelmente forte, fazia querer gritar. Assim como aprendera com seu pai que não era necessário reprimir seus desejos, ele também sabia que cinco horas da manhã já era tarde demais pra vislumbrar o sol nascendo.

Ninguém sabe quem inventou, ou porque inventou, mas o fato é que galo não canta as cinco horas da manhã. Mas mesmo assim a gente se surpreende com o fato deles cantarem muito mais cedo.

Deu seu primeiro grito e saudou o astro-rei. Certamente não era por mais um dia longe da panela que ficava do lado de fora presa a um prego enferrujado na parede do caseiro. Seu grito foi realmente emocionante, como um violino a solar uma triste canção romântica, ou um acordeom que cantam um velho tango argentino.

Bateu as assas de inconformidade; eram inúteis, nunca o levaria onde ele mais queria, onde a vida fazia sentido pra ele. Invejava os pardais, canários; invejava os uirapurus e os joão-de-barro. Liberdade era uma abstração apenas, um passatempo o qual ele fazia questão de jogar.

Foi nesse mesmo dia, nessa mesma manhã que ao dar o seu segundo grito, seu cacarejo mais retumbante, que ele se engasgou. Em um ato de desespero começou a tentar limpar a garganta cacarejando mais e mais forte, mas ao contrário do que se esperava ele não conseguia emitir tal saudação. Ao contrário do pretendido ele emudeceu…mas alguma coisa em seu corpo havia mudado. Suas vestes impecáveis começaram a crescer e por baixo, seu corpo inchava; sentiu uma certa morbidez aguardando o desfecho único do que parecia ser seu fim. Seu corpo foi ficando mais leve; sentiu seu peso sumir, suas patas já não tocavam o chão, tentou ciscar. Olhando para elas já não conseguia alcançar o puleiro, muito menos a cerca que sustentava aquele galinheiro. Sua casa começou a ficar distante e seu corpo cada vez maior. Seu inchaço começou a expulsar algumas penas como se fossem espinhas no rosto de um adolescente. Sua visão nunca tinha sido boa o suficiente pra se dizer que estava vendo coisas, mas se estava, eram bem pequeninas. Subindo e subindo, tudo começou a ficar mais calmo, ao seu redor apenas ar (não que ele pudesse ver). Então era o nada, flutuando sobre tudo e todos encontrou-se só, fazendo o que sempre mais quis. Nenhum uirapuru jamais havia chegado até ali. Olhava com desdém para aqueles pontinhos abaixo do seu peito que já tomavam conta da única paisagem por kilômetros e kilômetros.

De súbito um encontrão e algo passou fora do seu campo de visão, ou seja, passou pela sua cabeça. A surpresa foi tamanha que nem pensou com sua cabeça de ave, agora voadora, olhar para cima. Apenas alguns segundos depois foi que se deu conta e viu um lindo balão vermelho que já flutuava em outra direção e que sobre ele o astro-rei brilhava intensamente. Forte e vívido como sempre. Um espetáculo. Flutuando, pairando, voando, ele se viu aproximar do seu graal incandescente. Foi a maior emoção que ele jamais tinha ousado pensar. Tamanha era a beleza que ele só pensava em gritar, assim como seu pai havia ensinado. Contudo, se o seu cacarejar funcionasse ele poderia descer, cair, esvaziar, sabe-se lá o que poderia acontecer. Mas o que fazer diante de tanta beleza, diante de tal espetáculo; tão de pertinho! Continuou pensando e subindo, subindo e pensando…

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *