Walt Disney e Eu

Felizmente, ou não, eu sou um publicitário, ou quase. Dentre as muitas atividades que um profissional da propaganda pode ter, a mais conhecida é a de criador. Nesta, o profissional cuida da imagem da marca de uma empresa, ou pelo menos deveria.

Eu sempre achei que esse lado fosse bonito, pois faz com que as empresas cresçam, e que a sociedade, com esse enriquecimento possa prosperar, e que as pessoas inseridas nesta sociedade se tornem então, felizes. Pois é, esse raciocínio é um tanto quanto pueril, eu admito, mas não deixa de ser belo.

Porém, no fim-de-semana passado descobri o lado negro da comunicação de massa. O lado que esmaga a individualidade, o lado que faz com que as marcas, personagens, logotipos e garotos propaganda se tornem mais reais do que as pessoas comuns. E isto inclui o meu amado cinema, que sempre defendi e considerei benéfico.

No domingo do Dia dos Pais, como na maioria das casas, minha família se reuniu para comemorar essa data tão bela. Uma reunião como num conto infantil: Vovó, Vovô, Netos, Netas, Papai, Mamãe, Filhinhos e Filhinhas, Titio (no caso, este que vos fala) e Sobrinhas. Todos juntos, na minha casa, na verdade, na casa de Papai e Mamãe.

Bom, eu posso garantir a vocês que sou um tio extremamente bobo. Sim, daqueles que se torna mais infantil que as próprias crianças, daqueles que usa a idade das sobrinhas como desculpa para brincar com seus brinquedos. Acho que vocês já entenderam …

Tenho três sobrinhas, e eu nunca havia realmente brincado com a mais nova, de 1 ano e alguns meses. Nesse fim-de-semana tive meu primeiro contato imediato com ela. E foi extremamente agradável, ela me olhava e ria, não parava de rir. Brincava com o telefone, e ria. Olhava as fotos e ria. Olhou para minha foto e riu, olhou para o Mickey que estava ao meu lado na foto e disse:-” Miiiii ….”

-“Miiii ?!!!” como assim, -“Miiiii???”. Olhei para ela, que só ria, e indignado apontei para mim, na foto e disse enfático-” Tio !” Ela, desafiadora, apontava para o Michey e dizia -” Miiii !!!!”.

Ensandecido me virei para minha cunhada e perguntei se haveria a possibilidade daquela pirralha estar realmente reconhecendo o Mickey (ou melhor, Miiiii ….). – “Claro!! Ela adora o Mickey ….” me respondeu.

Voltei-me desfigurado para minha sorridente sobrinha, olhei para ela, olhei para o retrato, apontei com o resto das minhas forças para minha imagem e disse:-” Tio”. Ela, sorrindo, me respondeu:-“Blubfmm … blubl …. Miii !!!”.

Já exaurido eu me deitei e descobri que não era nada para ela. Ou melhor, eu era um “Blubfmm”. Não acreditava no que estava acontecendo. Aquela criança que estava deitada, com as pernas para cima, sendo limpada de cocô, negava a minha existência. Eu mesmo já começava a duvidar de mim mesmo, e bestificado olhava minha própria pele para saber se eu realmente exisitia. Porém, quando tudo parecia estar perdido, na mesma posição, rindo e imitando repentinamente sua mãe, ela disse: -“Tiiiiil … ” – “O QUÊ ??!” perguntei -“Tiiiiill !!!” ela respondeu. Hahaha, eu sabia ! Ela já me amava! Finalmente, venci !

Reanimado com a vitória, me voltei para a foto, olhei raivoso para o Mickey e perguntei – “E agora ?! O que você vai fazer negão, heim heim ?!!” Ele, assim como minha sobrinha, nada disse, apenas … sorriu.

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