Essa tal “Pastelização”

Um dia desses, eu estava conversando com um amigo do trabalho sobre comida. Eu, assim como ele, sou um apreciador da arte culinária. Para nós, uma refeição serve para muitas coisas, dentre as quais, a alimentação. Triste é aquela pessoa que se senta na mesa e engole a comida sem sentir seu sabor, seu aroma, seu aspecto estético, enfim, refletir sobre o que está comendo.

Numa dessas discussões, esse amigo me contou sobre uma feira que esteve, onde acabou experimentando uma insólita combinação de acarajé com tempurá. Estupefacto com esse menu, eu concluí imediatamente que ele estava numa daquelas feiras de nações com barraquinhas de comidas típicas de vários países.

Macarrão da Itália, Tempurá do Japão, Acarajé do Brasil, Hot Dog dos Estados Unidos, Croissaint (ou pão francês) da França, e por aí vai.

Pensando nesses maravilhosos pratos, e nos pratos que eu considero maravilhosos, eu me lembrei do magnífico pastel. O pastel de feira. o pastel do pasteleiro chinês. O pasteleiro chinês do pastel que é brasileiro. E tendo em vista essa realidade, eu comecei a temer o terrível axioma que estava se formando em minha mente.

No Brasil, pastel é coisa de chinês, só que na China, não tem pastel. Ou você já viu alguma foto do Mao-Tsé-Tung comendo pastel naquele típico papelzinho cinza, que alguns ousam chamar de guardanapo ? Portanto, só posso concluir que o pastel é um alimento apátrido !

O quadro realmente não é dos mais belos para um alimento tão nobre, mas não se enganem pensando que o pastel não tem sua importância política. Ele é o primeiro alimento, que transpõe as barreiras geo-políticas, tornando-se um precursor no que acabamos conhecendo (muitos anos depois) como “globalização”.

Graças ao pastel, as pessoas pararam de se preocupar de onde vinha o que ela estava comendo, para somente comer, degustar, e normalmente, queimar a ponta do nariz com o vapor quente logo após a primeira mordida. O pastel é o único alimento que pode frequentar qualquer festa típica sem sofrer retaliações.

Com o pastel, começamos a nos acostumar com a falta de fronteiras, perdemos os preconceitos por qualquer tipo de recheio, e principalmente, passamos a valorizar as parcerias intercontinentais, afinal, o que seria do pastel senão houvesse a garapa (ou caldo de cana) ?

Assim sendo, da próxima vez que você for a uma feira livre (e não Feira das Nações), ao pedir o seu pastel, lembre-se, mais do que matar a sua vontade de comer, você estará bradando a favor de todo o progresso alcançado pela humanidade por milênios. E Viva o Pastel !

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1 Comentário on "Essa tal “Pastelização”"

  • Jean Masaoka diz

    Carissimo Ricardo,

    Estava eu fazendo uma pesquisa sobre pasteis de feira e acabei me deparando com essa cronica chamada “pastelizacao”escrita no ano de 2000 e q soh tive a oportunidade de ler a poucos dias atras. Seguem minhas consideracoes: CALUNIA. Os pasteleiros sao japoneses!!!!! E nao venha me dizer q japones e chines eh td igual!!!

    Revoltadamente,

    Jean Masaoka. PHD e ativista do sindicato dos pasteis de feira, garapa & cia.

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