Hamburguer, Fritas e Coca-Cola

Hamburguer, Fritas e Coca-cola. Durante muito tempo, essa foi uma das mais perfeitas definições de felicidade que eu encontrei.

Desde meus cinco anos de idade, as lanchonetes me exercem um fascínio irresistível. Entrar em uma lanchonete é como penetrar em um templo sagrado, onde todos são felizes, dinheiro não é muito problema e principalmente, onde você pode cultivar, degustar e curtir suas amizades, relações familiares e, é claro, seus amores.

Quando eu voltava do colégio no ônibus escolar, às seis horas da tarde, em plena Avenida Eternamente Congestionada Sto. Amaro, ao ver o grande chapéu do Borba Gato, a felicidade inundava meu pequeno mas faminto coração. E não é porque eu admirava a estátua do famoso bandeirante. Muito menos porque já estava perto de casa. Eu me sentia feliz, porque passava em frente ao Mc Donald’s, e me realizava com a simples (e nula) possibilidade do Seu Joel, o motorista, entrar no Drive-Thru e comprar lanches para todos nós.

O tempo passou e, obviamente, meu sonho nunca se concretizou. Porém, a felicidade mesclada com esperança jamais abandonou meu coração ao avistar aqueles arcos dourados. Eu ansiava pelo dia em que tivesse autonomia suficiente para ir, à famosa lanchonete sem ter que depender de nada, nem ninguém e sem planejamento prévio.

Com dezoito anos tive a sorte de ganhar um carro de aniversário. O meu primeiro carro. E com ele, percebi que não seria somente um meio de transporte que possibilitaria a realização do meu sonho. Era preciso um pouco de dinheiro, era preciso um pouco de tempo. Essas dificuldades acabaram aumentando o meu bloqueio. Os anos foram passando, e eu continuava vendo meu “templo culinário” pela janela do carro. Longe e intocável.

Aparentemente, meu sonho não se realizava por motivos variados: falta de dinheiro, falta de tempo, e distância. Mas eu sabia que nada disso era verdade. Eu acabei sendo vítima de um trauma criado por mim mesmo, e isso era fato !

Ontem, eu tinha tudo. Dinheiro, tempo e um Mac no caminho da faculdade. Relutei, tentei desviar minha própria atenção e usei todos os mecanismos possíveis para não entrar, mas entrei, e rapidamente comprei dois cheeseburguers, e uma Coca pequena.

Eu não tinha muita fome. Na verdade, eu só estava transpondo meus limites, realizando meu sonho e nada iria me impedir. Nem o troco, nem a espera, nem o Ronald.

Finalmente entrei na avenida com um lanche em minha mão, e o copo entre as pernas. Dirigindo e comendo, percebi o quanto era verdadeira minha definição de outrora. Eu era feliz !

Para arrematar minha vontade reprimida por anos e anos, como em um golpe de misericórdia, coloquei a mão dentro do saquinho em busca do outro sanduíche, e qual não foi meu espanto quando percebi: Não havia mais nada !

Desesperado, brequei o veículo, como um louco soltei o cinto e saí em busca do lanche perdido. Levantei os tapetes. Levantei os bancos. Levantei o carro. Levantei as mãos, e gritei:”- DEUS, POR QUÊ ?!”

Não obtive resposta, e pior do que isso, não comi meu sanduíche. Eu fui ludibriado pelo destino. Fui atingido quando estava mais vulnerável. Mas senti, mesmo que por alguns instantes, a felicidade que esperei por toda a vida, e apesar de todos os pesares posso dizer: Valeu a pena

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