Lendas Urbanas – Parte 1

“s. m. 1 Gênio do mal em geral. 2 Satanás; coisa-ruim, demo, capeta, diacho.3 Fig. Pessoa de más qualidades. Interj. Exprime contrariedade, impaciência, raiva; diacho.”

Essa é a definição de diabo, por um dos principais conhecedores da língua portuguesa.

Não que eu me sinta no direito de contrariar o grande Aurélio, mas para mim, nos tempos modernos, tendo em vista todas as condições normais de temperatura e pressão, essa definição aí de cima pode ser resumida em um simples termo:

“Rádio-relógio”

Se enganam aqueles que pensam que esse ser dos infernos é uma máquina, um simples conjunto de mecanismos acoplados a circuitos elétricos e eletrônicos desprovidos de qualquer sentimento e vontade própria.

Besteira ! O rádio-relógio raciocina a todo instante no intuito de nos arruinar.

Para começo de conversa. Se nossa vida fosse boa e justa, não precisaríamos deste enviado de Lúcifer. Ninguém acorda a contra-gosto quando está de férias e não precisa ser controlado quando está feliz. Se você parar para pensar, nunca usamos um rádio-relógio quando fazemos o que queremos. Só o usamos em todas e qualquer situações que nos são impostas pelo mundo moderno.

Não existe algo mais perverso que um rádio-relógio. Perverso e hipócrita, por sinal. Todos tem aquele maldito botãozinho que os menos esclarecidos acham legal : o snooze (ou soneca). Esse negócio de ficar acordando de sete em sete minutos era utilizado como tortura! Vocês não percebem o mal disso?!

A única situação em que o “snooze” funciona perfeitamente é quando você acorda de primeira, porque está preocupado com algo, e entra no chuveiro. Aí então, ele (maquiavelicamente) começa a tocar em um volume nunca dantes imaginado, a ponto de acordar todo o resto da casa, e você sai correndo, pelado, cheio de sabão, arrebentando o dedinho do pé em todos os cantos possíveis até bater de frente com sua mãe, que estava dormindo tranqüilamente e não merecia presenciar essa performance patética, daquele que deveria ser o seu maior orgulho.

Não existe som pior do que o de um rádio-relógio. As rádios AM têm aquele típico som abafado e sem qualidade. As rádio FM têm o som das rádios AM. O alarme sonoro é algo tão ordinário que nem comentarei.

Se o grande Dante fez sua maravilhosa descrição do Inferno e é aclamado até hoje por isso. Eu, na minha mediocridade, assumo. O inferno de Laganaro é um local com uma cama perfeita, silêncio absoluto, um sono arrebatador e milhares de rádio-relógios prontos para agir.

Só o rádio-relógio tem o poder de estragar todo o seu dia. Só ele tem o poder de arruinar todo momento de calma e reflexão ao acordar, tão necessário para uma mínima qualidade de vida aceitável. Só o rádio-relógio pode sorrateiramente não tocar quando deveria, e depois, ficar lá, imóvel, esfregando na sua cara sonolenta os minutos que já passaram e você não acordou. Só o rádio-relógio é tão detestável a ponto de você não poder se livrar dele apesar de odiá-lo tanto.

Um rádio-relógio é sempre um rádio-relógio. Nunca se esqueça disso ! Ele pode disfarçar seu comportamento vil e desprezível por anos. Mas se um dia o seu sucesso tiver qualquer relação com o horário de acordar, pode estar certo disso: ele causará a sua desgraça. Se isso nunca aconteceu, é porque seu grande dia ainda não chegou. Previna-se

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