Mesa de Bar

Aquele era um bar como qualquer outro bar paulistano. Simplesmente um bar, nada mais que um bar e, assim sendo, havia mesas por todo lado. Numa destas, pessoas conversavam alegremente, cercadas pelos copos de cerveja.

Olhando atentamente para o tampo da mesa (de madeira, é claro) podia-se observar desenhado (em escrita cuneiforme, diga-se de passagem) um coração trespassado de uma flecha com o seguinte texto: Marcelo e Tatá 84.

Aparentemente era um grafito (é assim que os teóricos chamam estes desenhos e escritos) comum. Mas como o ano era 84 se o bar foi inaugurado em 1999, numa louca festa que não contou com a presença de nenhum casal conhecido por Marcelo e Tatá?

Será que “Marcelo e Tatá” eram os “Juneca Pessoinha” (famosa dupla de pichadores que marcou toda a cidade de São Paulo e foram até matéria da Veja na década de 80.O Pessoinha foi para o exército, e o Juneca arranjou outro parceiro conhecido como Bilao, mas essa nova formação não foi tão bem sucedida) dos bares paulistanos ?

Mas se o bar era novo, como aquela inscrição tão antiga poderia estar lá ? A única explicação plausível seria a de que aquelas mesas fossem usadas (e muito bem usadas). O problema era que o dono do bar (amigo do pessoal da mesa) negava terminantemente esta possibilidade, dizendo que pagou uma nota nessas mesas de época (que época?).

O enigma começou a se tornar tão intrigante que, paulatinamente, as pessoas pararam de conversar e começaram a observá-lo na tentativa de buscar uma explicação.

Alguns achavam que só poderia ser piada. Mas como piada? Quem seria o imbecil que faria uma piada tão sem graça como essa, rebatiam os mais exaltados. Os mais sóbrios tentavam, resignados, buscar na memória algum casal conhecido pelos nomes escritos, mas a maioria não tinha idade suficiente para conhecer casais em 1984.

Um dos bêbados não se conteve e invadiu o palco onde a banda tocava “Give it away”, roubou violentamente o microfone da mão do empolgado e descamisado vocalista, e perguntou para todos se alguém conhecia algum casal “Marcelo e Tatá”, explicando o porquê da pergunta. O silêncio ensurdeceu a todos no bar.

Lentamente, cada pessoa se dirigia à mesa olhando inconformada para o grafito.

Como zumbis todos foram saindo lentamente do bar. Clientes, garçons, “barmans”, cozinheiros e até o caixa.

Alguns minutos depois só podia-se observar o dono do bar. Sentado. Sozinho numa mesa do canto, balançando a cabeça como um autista e repetindo baixinho: Tá bom, tá bom, eu admito! As mesas são usadas!

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