Apenas Um Conto de Terror

Tomas não acreditava em nada. Nada que não fosse racional e cientificamente comprovado. Só no que via. Desde criança, nos tempos de catecismo, a única coisa que o fazia freqüentar aquelas aulas era sua vontade de negar tudo o que ouvia.

Sua Vó, sempre sua Vó, o dizia que todo esse agnosticismo só poderia levá-lo a um fim trágico. Tomas sempre respeitou muito a opinião dela, embora nunca mudasse sua postura.

Com o tempo, Tomas se tornou um anti-teólogo. Estudava qualquer tipo de crença e religião em sua forma mais profunda, sempre como o mesmo intuito: negá-la.

O engenheiro Tomas não acreditava em nada. Casou-se na igreja graças ao catecismo forçado de sua Vó, e também pela forte crença de sua esposa. Durante a cerimônia tudo que ouvia provocava náuseas. Quanta bobagem! Sua raiva só aumentava, principalmente quando se lembrava da recusa do padre em tocar “Carmina Burana” (música considerada “maldita” pela Igreja Católica) durante a cerimônia.

Após muitos anos de estudo, Tomas, o engenheiro ateu, era até convocado para palestras e encontros religiosos, mas nunca se convencia, e muitas vezes acabava convencendo os outros de sua controversa opinião. Deus, Diabo, Cristo e Anti-cristo, para ele, o racional Tomas, nada disso fazia sentido.

Com 32 anos, a partir do feriado de “Corpus Christi”, sonhos com sua finada Vó, começaram a atormentar sua vida. Sempre a mesma mensagem era repetida “Meu filho, isso não vai acabar bem”.Mas Tomas, pai de filhos católicos, nunca se rendera à sua crença. A falta de crença.

Cada dia o sonho se repetia, e Tomas, que nem na psicologia acreditava, começou a se sentir incomodado.

No 301º dia do segundo ano de sonhos repetidos incessantemente, a experiência que confirmaria os presságios de sua Vó começou em uma noite de sono tranqüilo.

Dentro de um sonho, muito mais que real, Tomas acordou. Por onde andava, apareciam elementos de tudo que estudara por toda vida. Terreiros de macumba, objetos de adoração satânica, cruzes, crucifixos, imagens e pinturas. Além de sangue … lágrimas e muito sangue por todos os lados.

A consciência da realidade daquele mundo criado dentro de sua própria cabeça era o que mais amedrontava o lógico Tomas. Afinal, se ele não acreditava em nada do que via, aquilo não poderia causar efeito em sua mente exata.

Quanto mais andava, mais desconcertante e completo se tornava aquele mundo. Como em um castelo psíquico desmoronando e expondo ao consciente, tudo o que fora reprimido em um inconsciente recalcado por toda vida. No fundo, sempre a voz da sua Vó, a Vó Maria. E a sua inconformidade: Como ele, o incrédulo Tomas, poderia ser o criador de um mundo tão improvável?

Em sua caminhada pelas trevas de tudo que sempre temeu, ele, o assustado Tomas, viu-se cercado. Cristo, Lúcifer, espíritos do bem, e do mal, parentes mortos, santos e demônios se aproximavam. Vozes e gemidos tornavam-se ensurdecedores, e o chão, de onde saiam milhares de mãos desesperadas, tentava segurá-lo e afundá-lo numa lama pútrida e mórbida.

Quase sem forças, o desesperado Tomas, ajoelhou-se e num momento de rendição, viu sua Vó, a Vó Maria chorando na entrada de uma enorme catedral gótica, repetindo em sussurros que só por ele poderiam ser ouvidos – “Crê, Tomas ! Pelo amor de Deus, crê!”

Ele, o quase morto Tomas, fechou seus olhos no momento em que todos os que vinham em sua direção começaram a tocá-lo.

Consciente de que ao se render àquele medo estaria negando tudo que era, e portanto, sua própria existência. Ele, o finado Tomas, abriu seus olhos fugindo do terrível pesadelo.

Como sua Vó sempre dissera, “isso não acabou bem”. Tomas fora enterrado naquele mesmo dia, com direito a missa, cruz sobre a sua lápide e seus olhos, para sempre, abertos.

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