Vitória Pessoal

Ivan sempre foi um cara muito tímido. Daqueles que precisam sentir um fio de reciprocidade para soltar um simples sorriso, um “alô” ou qualquer gesto desse tipo.

Por conta dessa timidez, muitas vezes era visto com antipático: “Nossa como o Ivan é metido! Passa e nem olha na nossa cara”. Mas era timidez, pura timidez. Na verdade, ele implorava em pensamento para que as pessoas dessem qualquer sinal para que ele conseguisse mostrar sua simpatia.

Com as mulheres então, era catastrófico. Jamais conseguira abordar uma desconhecida, por mais que desejasse. Ficava olhando, quase com idolatria, os conquistadores que conseguiam conversar com uma garota qualquer, com a fluência de velhos amigos. Sonhava em conquistar uma mulher deste modo, como se isso fosse algo realmente impossível.

Mesmo após anos de auto-análise, ele nunca conseguiu descobrir se seu bloqueio tinha como principio um orgulho incontrolável, ou medo de rejeição. “E se ela começar a trocar segredinhos a meu respeito com a amiga, e ficar rindo da minha cara?! Não vou agüentar!”

Um certo dia, por acaso do destino, Ivan caminhava sozinho pela rua. Tranqüilo. Com uma serenidade que não experimentava há muito tempo. Resolveu entrar num bar e lá, antes de escolher um local para sentar, viu numa única mesa, cinco garotas conversando, desacompanhadas, lindas e bebendo drinques diversos. Poucas situações amedrontariam mais o pobre Ivan como: Mulheres, várias, juntas, rindo, sob influência alcoólica, prontas para acabar com qualquer um que ousasse a se aproximar. Principalmente um tímido confesso como ele.

Normalmente Ivan escolheria um local onde pudesse observá-las da maneira mais discreta possível, para que, em eventuais olhares de soslaio, pudesse checar se não estaria sendo alvo de piadinhas e dos pavorosos risinhos cúmplices de fofocas femininas.

Porém, nessa noite, ele fez questão de se sentar de costas, como se tivesse conseguido abstrair seus sentimentos, deixando para trás o orgulho e o medo. Por mais de uma hora, Ivan ficou sentado, curtindo seu uísque, sem se preocupar com olhares retalhadores e jocosos.

Quando estava quase se levantando para ir embora, Ivan viu descendo do ponto de ônibus em frente ao bar, um simpático vendedor de rosas. Um senhor negro, grisalho e de sorriso contagiante que se aproximou do bar, e foi passeando de mesa em mesa, na esperança de efetuar uma boa venda.

Ao ver Ivan, somente sorriu e com uma leve meneada de cabeça, ameaçou a se despedir, pois sabia que solitário rapaz não teria para quem oferecer uma de suas belíssimas flores. Antes que conseguisse se virar, Ivan fez um discreto gesto com a mão, e com um sorriso de criança fazendo coisa errada, pediu para que o vendedor de rosas entregasse uma rosa para cada uma das senhoritas há umas 5 mesas atrás da sua, com uma condição: total anonimato.

O senhor levantou levemente a cabeça, identificou a mesa a que o rapaz se referia, sorriu, recolheu o dinheiro que já estava sobre a mesa e apenas disse – “Parabéns meu rapaz, conheço poucos homens capazes de fazer o que está me pedindo”.

Ivan sorriu, e pediu para que o senhor se dirigisse ao bar e conversasse um pouco com o barman antes de completar sua tarefa. O vendedor seguiu as recomendações do rapaz, e ficou no bar a espreita de um sinal para que entregasse as flores. Ele já fazia isso há mais de 30 anos, mas desta vez estava ansioso, até um pouco nervoso para saber o que aconteceria nesse episódio. Sua experiência de vida o garantia que aquela não seria uma situação comum. Os homens de hoje em dia já não agiam mais assim. Esse garoto tinha algo de especial.

Alguns minutos de espera, e finalmente ele decidiu entregar as rosas. As garotas estavam tão empolgadas e preocupadas com suas próprias estórias que não tinham percebido a entrada do senhor no bar, quanto mais à sua aproximação. Todas se sentiram extremamente enaltecidas. Não estavam acostumadas a serem abordadas por homens que não fossem munidos de frases feitas e de uma charla batida e típica dos conquistadores atuais. Queriam muito saber quem eram os 5 homens capazes de um gesto tão simples e bobo, mas ao mesmo tempo tão raro nos dias de hoje.

Ficaram ainda mais surpresas ao saberem que não eram 5, mas apenas 1 homem que havia provocado um terremoto naquela que era apenas mais uma saída feminina descompromissada.

Apesar da promessa, o velho vendedor não se conteve ao ver o entusiasmo das garotas, e encobrindo sua mão com o próprio corpo apontou na direção da mesa onde estava o culpado pelas rosas que acabaram com um papo que parecia hermético e refratário a qualquer interferência externa.

Como numa cena de cinema, ele se despediu e saiu da frente da visão delas, descortinando a paisagem para que finalmente pudessem saciar sua curiosidade.

Na mesa do tímido Ivan, a cadeira ainda estava afastada. Podia-se ver algumas notas de 10 reais, a conta, e uma rosa deitada sobre o dinheiro.

As garotas, o vendedor e o barman trocaram olhares, como se tivessem perdido alguma parte da história, como se algo tivesse faltando. Após alguns segundos, a frustração começou a dominar o ambiente. Ninguém falava mais nada, ninguém ria.

Há alguns quarteirões dali, um jovem e tímido rapaz caminhava sorrindo, assobiando, realizado por, na primeira vez em toda sua vida, ter conseguido vencer sua timidez e, mais importante do que isso, ter feito algo sem se preocupar com as conseqüências, fossem elas boas ou más. Naquele momento, o que menos importava para Ivan, era o que as pessoas tinham achado da sua iniciativa. Ele estava feliz, e isso bastava.

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5 Comentários on "Vitória Pessoal"

  • malena diz

    boa, ivan!

  • Rafael diz

    “meneada”, “charla”, depois disso não tenho mais o que dizer.

  • Christian Casza diz

    Que estranho… o fato parece ser real. Por quê? Mais estranho ainda: eu tb era tímido, até demais. Até hoje eu tento descobrir como foi que perdi a timidez de um instante para outro e só percebi depois de um bom tempo.

  • Diego Henrique diz

    Adorei essa! :) Ta magnifica, o modo de escrever… com umas pitadas de realidade… ta realmente muiiitoo bom!! Parabens!

  • Maria Claudia diz

    Realmente, essa tá boa demais! Parecia um filme… adorei!

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