Mal Sabiam Eles …

Após 35 anos de seminário Padre Romião se cansou. Pela primeira vez em todos aqueles anos não acordou cedo para rezar. Não adiantou o Padre Fernandez chamá-lo por cinco (Deus sabe quanto!) infindáveis minutos.

Naquela manhã (que Deus o perdoasse) Padre Romião ia apenas dormir. Dormir como nunca dormira desde seus 14 anos, logo após a formatura do ginasial, onde bebeu 3 litros de cubra-libre, numa típica aposta adolescente com o Fefê (Fernadez, Pe. Fernandez).

Naquela noite, lembrou Romião, dançou como nunca, festejou, bebeu, amou a Ritinha (Deus do céu!) e dormiu, como dormiu.

Depois disso, como eram os filhos mais velhos, Romião e Fernandez ingressaram no seminário, e a Deus entregaram suas vidas (e suas horas de sono).

Durante toda manhã, o clima do seminário estava conturbado. Se lá fosse um congresso de secretárias, todas estariam fofocando ininterruptamente, comentando o A-B-S-U-R-D-O que Rôrô estava cometendo. Como lá era um seminário, ninguém falava nada.

Perto da uma da tarde, Padre Romião apareceu no pátio. Estava de chinelas, uma bermuda laranja fosforescente (com a inscrição “Deus me livre!” na parte traseira), sem camisa, mascando o crucifixo como se fosse um pedaço de palha, e o dedo mindinho esquerdo coçando insistentemente o tímpano da respectiva orelha.

Todos pararam, estupefatos com a surpreendente cena. Ao chegar na cruz do centro do pátio, ele olhou ao seu redor, e sabendo que as suas primeiras palavras estavam sendo aguardadas por todos, como numa última esperança de uma explicação plausível para toda aquela loucura, estendeu sua mão direita (que não estava ocupada com a coceira no tímpano) e disse lentamente:

-“Dia …” (ele estava com muita preguiça, para dizer “Bom Dia!”, somente “Dia … ” já cumpriria a sua função).

E continuou sua marcha. Sem dizer mais uma palavra, abriu o portão, saiu do seminário e não fez nenhuma questão de fechá-lo.

Em sua caminhada pela calçada, nada causava-lhe mais prazer do que o “plec” das sandálias batendo contra seus santos calcanhares. Dois quarteirões depois, Romião (apenas Romião), entrou no Bar do Seu Jesus. Repetindo a expressão utilizada anteriormente:

– “Dia …”
– “Dia …” respondeu, em coro uníssono o grupo de senhores que jogavam caixeta.
– Ô Jesus … Vê um copo de groselha com leite pro velho aqui.

Jesus (Seu Jesus, melhor dizendo) atendeu o pedido do velho barrigudo com coceira na orelha. Lentamente, Romião pegou o copo, se virou para o grupo e disse:

– Quanto é o cacife pra entrar no jogo ?

Enquanto isso, todos os membros do alto clero se reuniam no seminário para resolver qual seria a punição do pobre Romião ao voltar.

Mal sabiam eles …

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