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Descartável - (09-03-2003) Descartável. Para mim, essa é a palavra que melhor define a nossa era. Todos nós somos incentivados a desejar algo de maneira incontrolável, conquistar este algo passando por cima de qualquer convicção ou princÃpio, e a partir do momento que esta conquista se torna realidade a satisfação se torna tão insossa que somos obrigados a partir na conquista de mais um desses desejos incontroláveis que não nos satisfarão em nada. O que mais me incomoda nessa “descartabilização”, é que nada escapa disto. Não são só os bens de consumos, os produtos que compramos nas lojas e supermercados, que sofrem esse tipo de influência. O meio artÃstico é uma grande prova de que essa indústria abrange muito mais do que objetos. Ela cria, exalta, suga, esmaga, cospe e pisa em pessoas que bem intencionadas ou não, têm seus poucos minutos de fama e acabam vivendo como viúvas de um pseudo-sucesso, em programas de TV decadentes que mendigam migalhas de um falso reconhecimento público. Poucos movimentos artÃsticos são realmente legÃtimos e muitos destes, perdem sua legitimidade no exato momento em que se tornam populares. Bendito seja o Rap, que consegue manter-se fiel aos seus princÃpios, mesmo sendo reconhecido por pessoas que nunca ouviram verdadeiramente uma rima. Neste carnaval tive um exemplo bem claro do que estou tentando explicar: Participei da cobertura do carnaval de Salvador dentro do camarote 2222 (de Gilberto Gil), sem dúvida o maior e mais badalado de todos. Lá dentro, tÃnhamos grandes patrocinadores que bancavam todo o conforto e requinte para os convidados (de presença mais do que restrita). Comida e bebida da melhor qualidade, dentro de um espaço enorme (onde funciona, normalmente, um grande bingo) com sacada para o farol da Barra, o local de onde partem os trios elétricos no circuito Barra-Ondina. O ambiente era decorado no melhor estilo clubber-paulista, o som, por quase todo tempo, era drumn’bass, e as pessoas, sempre, com a postura de “ver-e-ser-visto”. Detalhe: quando os convidados saÃam à sacada para observar o verdadeiro carnaval baiano, um agradável spray com aroma de sabonete lÃquido garantia que suas sociáveis narinas, não sentissem o cheiro de urina que poderia pairar no local em algumas horas do dia, como em muitos outros pontos da capital baiana. Legal, né ? Só faltava uma tela e o controle remoto … A primeira pergunta que todos me fazem ao saberem que voltei de lá é: “E aÃ, como é o carnaval de Salvador?”. Eu não sei! Acabei indo numa balada que poderia ter sido em qualquer lugar do planeta, em qualquer época do ano. Muito boa, diga-se de passagem, obrigado pelo convite! Mas aquele, de fato, não era o carnaval de Salvador. Além dos artistas, movimentos e Ãdolos, a “descartabilização” vem atingindo também à s relações humanas. Fidelidade, por exemplo, é sinônimo de babaquice. Como se fosse apenas um conceito rÃgido, formal e dogmático, que não tem sentido e que não deve ser levado a sério. A fidelidade (em todos os sentidos, não só no lado amoroso) é vista como algo que é imposto num relacionamento, e não como algo ligado ao respeito mútuo, consideração pelo outro e sinceridade de um sentimento. “Ah, eu não quero ser obrigado a ficar só com uma pessoa!”. Quem foi o idiota que te obrigou a isso, minha amiga?”. Ninguém obriga ninguém a ser fiel, esse sentimento parte da pessoa que verdadeiramente não sente o desejo de trair. Pois é … eu poderia continuar falando sobre milhares de outros exemplos que me fazem sentir, cada vez mais, um extra-terrestre nos dias de hoje, mas quanto mais escrevo, mais tenho medo que este texto se pareça com aqueles outros milhares que circulam pela Internet, satisfazendo momentaneamente a alma de todos nós, e caducando no exato momento em que são lidos. Lindos! Descartáveis. |
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Kris - kris@cronistasreunidos.com.br 11-03-2003 03:43
é… |
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PlÃnio Volponi - plinio@hiperweb.com.br 14-03-2003 05:15
Excelente! Totalmente apoiado! |
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Eduardo Amodio - edu.amodio@uol.com.br 14-03-2003 11:29
Ricardo, compartilho com sua revola. Mas, cuidado! Fidelidade não é sinônimo de monogamia. Fidelidade é cumprir o que se prometeu, seja lá o que for. Fidelidade, como diz o Aurélio, é: Deixando minha chatice de lado, gostei muito do seu texto, como de costume. |
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Rodrigo 18-03-2003 06:59
Desculpe Eduardo… escrever sobre fidelidade pode ser tão descartável como a monogamia… |
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Taiguara (de Salvador) - taiguara_rastelli@hotmail.com 21-03-2003 06:45
A “descartabilização” tb me deixa angustiado, e eu gostei do que vc escreveu. As suas idéias quanto a isso ficaram bem claras. Só não ficou muito claro para mim como a questão do camarote (e eu entendi a sua decepção) exemplifica, como vc disse, o que vc tentou explicar (descartabilização). |
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Mauricio Trotta - mau_ttt@hotmail.com 24-03-2003 01:28
Enquanto a gente viver num mundo onde as cifras são mais importante que as pessoas, onde se avalia governos por suas polÃticas econômicas e não sociais (humanas, eu diria), onde as pessoas estão mais preocupadas com o valor do dólar do que quem possa entar comendo lixo muito na rua, essa “descartabilização” não cessará. Afinal, ela quem empurra esse modo de vida capitalista pra frente. Não quero aqui levantar nenhuma bandeira. Só dizer que precisávamos ser mais humanos! |
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Ricardo - ricardo@cronistasreunidos.com.br 24-03-2003 10:27
Galera, fiquei muito feliz com os comentários! Fazia tempo que eu não escrevia nada mais “sério” e sempre que o faço, fico na expectativa de ver o que vcs pensam! |
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Gabis - gabifonseca@yahoo.com 25-03-2003 03:02
E viva o Espetáculo!!! Pois é Ri, como poderia ser diferente? Na sociedade do consumo tudo tem de ser novo. O ciclo é um “quase-completo” e desejar faz parte da ordem regulatória econômica e social do capital. Pessoas satisfeitas e felizes consomem menos, forças virtuais exercem poder sobre nós (”o Mercado”,”o Risco-paÃs”), enquanto nós somos transformados em objetos e não em agentes. |
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Cleber H. Teixeira (cronista) - chteixeiras@hotmail.com.br 04-05-2003 03:11
bom demais, cara |
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Cleber H. Teixeira (cronista) - chteixeiras@hotmail.com.br 04-05-2003 03:12
legal |
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Cleber H. Teixeira (cronista) - chteixeiras@hotmail.com.br 04-05-2003 03:12
puxa |
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Renata Almeida - too3@yahoo.com 13-11-2005 11:42
eu entrei aqui sem saber onde estava indo, mas senti vontade de compartilhar com o fato de tambem ter ido ao Expresso 2222 em Salvador. Fui convidada por Flora Gil, que tratou a mim e a minha filha, como princesas. eu concordo muito com que ele diz quando fala que o carnaval da Bahia ali, passa só para quem quer ver da varanda os trios eletricos. |