Descartável

Descartável. Para mim, essa é a palavra que melhor define a nossa era. Todos nós somos incentivados a desejar algo de maneira incontrolável, conquistar este algo passando por cima de qualquer convicção ou princípio, e a partir do momento que esta conquista se torna realidade a satisfação se torna tão insossa que somos obrigados a partir na conquista de mais um desses desejos incontroláveis que não nos satisfarão em nada.

O que mais me incomoda nessa “descartabilização”, é que nada escapa disto. Não são só os bens de consumos, os produtos que compramos nas lojas e supermercados, que sofrem esse tipo de influência.

O meio artístico é uma grande prova de que essa indústria abrange muito mais do que objetos. Ela cria, exalta, suga, esmaga, cospe e pisa em pessoas que bem intencionadas ou não, têm seus poucos minutos de fama e acabam vivendo como viúvas de um pseudo-sucesso, em programas de TV decadentes que mendigam migalhas de um falso reconhecimento público.

Poucos movimentos artísticos são realmente legítimos e muitos destes, perdem sua legitimidade no exato momento em que se tornam populares. Bendito seja o Rap, que consegue manter-se fiel aos seus princípios, mesmo sendo reconhecido por pessoas que nunca ouviram verdadeiramente uma rima.

Neste carnaval tive um exemplo bem claro do que estou tentando explicar: Participei da cobertura do carnaval de Salvador dentro do camarote 2222 (de Gilberto Gil), sem dúvida o maior e mais badalado de todos. Lá dentro, tínhamos grandes patrocinadores que bancavam todo o conforto e requinte para os convidados (de presença mais do que restrita).

Comida e bebida da melhor qualidade, dentro de um espaço enorme (onde funciona, normalmente, um grande bingo) com sacada para o farol da Barra, o local de onde partem os trios elétricos no circuito Barra-Ondina.

O ambiente era decorado no melhor estilo clubber-paulista, o som, por quase todo tempo, era drumn’bass, e as pessoas, sempre, com a postura de “ver-e-ser-visto”.

Detalhe: quando os convidados saíam à sacada para observar o verdadeiro carnaval baiano, um agradável spray com aroma de sabonete líquido garantia que suas sociáveis narinas, não sentissem o cheiro de urina que poderia pairar no local em algumas horas do dia, como em muitos outros pontos da capital baiana. Legal, né ? Só faltava uma tela e o controle remoto …

A primeira pergunta que todos me fazem ao saberem que voltei de lá é: “E aí, como é o carnaval de Salvador?”.

Eu não sei! Acabei indo numa balada que poderia ter sido em qualquer lugar do planeta, em qualquer época do ano. Muito boa, diga-se de passagem, obrigado pelo convite! Mas aquele, de fato, não era o carnaval de Salvador.

Além dos artistas, movimentos e ídolos, a “descartabilização” vem atingindo também às relações humanas. Fidelidade, por exemplo, é sinônimo de babaquice. Como se fosse apenas um conceito rígido, formal e dogmático, que não tem sentido e que não deve ser levado a sério. A fidelidade (em todos os sentidos, não só no lado amoroso) é vista como algo que é imposto num relacionamento, e não como algo ligado ao respeito mútuo, consideração pelo outro e sinceridade de um sentimento.

“Ah, eu não quero ser obrigado a ficar só com uma pessoa!”. Quem foi o idiota que te obrigou a isso, minha amiga?”. Ninguém obriga ninguém a ser fiel, esse sentimento parte da pessoa que verdadeiramente não sente o desejo de trair.

Pois é … eu poderia continuar falando sobre milhares de outros exemplos que me fazem sentir, cada vez mais, um extra-terrestre nos dias de hoje, mas quanto mais escrevo, mais tenho medo que este texto se pareça com aqueles outros milhares que circulam pela Internet, satisfazendo momentaneamente a alma de todos nós, e caducando no exato momento em que são lidos. Lindos! Descartáveis.

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12 Comentários on "Descartável"

  • Kris diz

    é…

  • Plínio Volponi diz

    Excelente! Totalmente apoiado!

    Com relação ao 2222 um dos convidados disse à imprensa ao vivo que não curtia carnaval e nunca havia visto uma balada tão forte quanto essa em São Paulo.

  • Eduardo Amodio diz

    Ricardo, compartilho com sua revola. Mas, cuidado! Fidelidade não é sinônimo de monogamia. Fidelidade é cumprir o que se prometeu, seja lá o que for. Fidelidade, como diz o Aurélio, é:

    1. Qualidade de fiel; lealdade.

    2. Constância, firmeza, nas afeições, nos sentimentos; perseverança.

    3. Observância rigorosa da verdade; exatidão.

    Em fim, a fidelidade pode exigir de uma pessoa a traição, assim como ficar com uma só pessoa pode ser um ato de extrema infidelidade.

    Deixando minha chatice de lado, gostei muito do seu texto, como de costume.

  • Rodrigo diz

    Desculpe Eduardo… escrever sobre fidelidade pode ser tão descartável como a monogamia…

  • Taiguara (de Salvador) diz

    A “descartabilização” tb me deixa angustiado, e eu gostei do que vc escreveu. As suas idéias quanto a isso ficaram bem claras. Só não ficou muito claro para mim como a questão do camarote (e eu entendi a sua decepção) exemplifica, como vc disse, o que vc tentou explicar (descartabilização).

  • Mauricio Trotta diz

    Enquanto a gente viver num mundo onde as cifras são mais importante que as pessoas, onde se avalia governos por suas políticas econômicas e não sociais (humanas, eu diria), onde as pessoas estão mais preocupadas com o valor do dólar do que quem possa entar comendo lixo muito na rua, essa “descartabilização” não cessará. Afinal, ela quem empurra esse modo de vida capitalista pra frente. Não quero aqui levantar nenhuma bandeira. Só dizer que precisávamos ser mais humanos!

    Curti o texto!!!

  • Ricardo diz

    Galera, fiquei muito feliz com os comentários! Fazia tempo que eu não escrevia nada mais “sério” e sempre que o faço, fico na expectativa de ver o que vcs pensam!

    Obrigado!

  • Gabis diz

    E viva o Espetáculo!!! Pois é Ri, como poderia ser diferente? Na sociedade do consumo tudo tem de ser novo. O ciclo é um “quase-completo” e desejar faz parte da ordem regulatória econômica e social do capital. Pessoas satisfeitas e felizes consomem menos, forças virtuais exercem poder sobre nós (“o Mercado”,”o Risco-país”), enquanto nós somos transformados em objetos e não em agentes.

  • Cleber H. Teixeira (cronista) diz

    bom demais, cara

  • Cleber H. Teixeira (cronista) diz

    legal

  • Cleber H. Teixeira (cronista) diz

    puxa

  • Renata Almeida diz

    eu entrei aqui sem saber onde estava indo, mas senti vontade de compartilhar com o fato de tambem ter ido ao Expresso 2222 em Salvador. Fui convidada por Flora Gil, que tratou a mim e a minha filha, como princesas. eu concordo muito com que ele diz quando fala que o carnaval da Bahia ali, passa só para quem quer ver da varanda os trios eletricos.

    eu e minha filha nos sentimos no castelo de caras do carnaval da Bahia e até o tal cheiro de xixi por ali não rola.

    O camarote de Flora e Gilberto Gil, agrada a aqueles que querem passar o carnaval da Bahia sem levar uma cotovelada na barriga, sem voltar pra casa com os pes de lama e xixi.

    Não quero aqui recriminar e nem falar que nao gostei, apenas digo que ali é o carnaval 5 estrelas que rola solto dentro da bagunça que é o carnaval de Salvador.

    um abraço para voces

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