Sincronizando Relógios

Num beco escuro da periferia da cidade, três homens de roupa preta e encapuzados acertam os últimos detalhes para o início da execução do seu plano ardiloso. O mais baixo, que parece ser o líder, num olhar quase paternal, pergunta aos outros dois:

– E aí, tudo certo!?

-Tudo! – responde o mais alto.

-OK. – responde o outro.

-Então é só sincronizarmos os relógios e entramos em ação.

Os três olham fixamente para seus respectivos pulsos, pressionam os botões de seus relógios digitais, e trocam olhares dizendo:

-OK.

-Certo.

-Ahãm.

Rapidamente os três caminham para a saída do beco, e começam a se dividir.

Quando já estão afastados por mais de meio quarteirão, o mais alto se vira e timidamente solta um grito:

– Ô …

O mais baixo finge não ouvir e aperta o passo. O segundo, de estatura mediana, pára, mas percebe que o líder continua caminhando, e não sabe bem o que fazer. Novamente o mais alto tenta gritar de forma discreta :

– Ei …

O mais baixo se vira rapidamente, e corre até o ponto inicial da separação. Os outros dois imitam a ação.

Novamente os três se encontram na entrada do beco.

– Que foi! – pergunta o baixinho, ligeiramente nervoso.

– É o relógio …

– Que que tem?

-Quando você falou pra sincronizar eu apertei todos os botões e o relógio zerou … Fiquei com vergonha de falar que tinha feito isso …

O líder dá um longo suspiro e se vira para o outro:

– E você ?

– Que foi …

– O que você fez com o seu relógio?

– Eu apertei a luzinha … ela acendeu por uns segundos, eu não sabia o que fazer e também fiquei quieto.

O silêncio domina o ambiente por instantes, os dois esperam por uma resposta do chefe. Após um leve suspiro, ele abre a boca :

– Ufa …

Ninguém responde.

– Na verdade … – continua dizendo, agora olhando para a lua, em tom confessional – … eu nunca soube o que fazer quando dizem “Vamos sincronizar os relógios”.

Mais instantes de silêncio …

– Afinal, nos filmes, ninguém pergunta qual relógio que servirá de referência para os outros, e nem sempre dizem se estão usando a função cronômetro ou hora. Mas no nosso ramo …

Ele dá uma parada, olha para os outros, que com olhar emocionado, concordam acenando com a cabeça, e então ele prossegue:

– … no nosso ramo, as pessoas tem vergonha de perguntar o que fazer. Sabe como é, né ? A concorrência é cada vez maior, o mercado está nos explorando cada vez mais. Fica difícil admitir qualquer tipo de falha …

Finalmente o mais alto resolve dizer algo:

– Mesmo porque, nos filmes tudo sempre funciona de forma tão harmônica, que as pessoas ficam com essa mitificação do ato da sincronização dos relógios, e nem pensam na sua real função …

Os outros dois concordam acenando com a cabeça.

Silêncio.

O rapaz de estatura mediana olha para o seu pulso e timidamente pergunta:

– É … alguém tem horas ? Além da luzinha, eu também acabei zerando o meu relógio …

– Não. Responde o mais alto.

– Também não – responde o chefe – eu sempre deixei o meu no cronômetro, nunca acertei as horas do meu relógio de trabalho. Medo de ser ridicularizado.

– Ah … tá certo então … Acho que está tarde, a Lua já está se pondo. Melhor irmos andando …

– Melhor mesmo, essas bandas costumam ser perigosas nessas horas da madrugada. – aconselha o mais alto.

– É … responde pensativo o chefe.

E lentamente eles começam a caminhar, ouvindo nada além do que seus próprios passos.

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