Salada de Frutas

Aquele parecia ser apenas mais um almoço comum. Eu estava na fila do buffet de um simpático restaurante por quilo próximo ao meu trabalho. Distraído, preocupado em nada além do que escolher a comida. Só isso.

Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).

Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.

Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.

Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.

Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.

Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.

Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.

De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.

Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.

Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.

Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.

Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.

Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.

Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.

Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.

Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.

Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?

Fui embora.

Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.

Talvez nem tudo ainda esteja perdido …

Compartilhe!

11 Comentários on "Salada de Frutas"

  • Rafael diz

    O que você quer? Quer que eu chore, é? Pára com isso, cara. Pára!

  • Pamela diz

    Oi Cá tb?

    Estou com muita saudades sua achei muito legal o que vc escreveu, as vezes desejo em não enchegar, pois as coisas q vemos hoje em dia são muito ruim, mas faze o que, mas tb as vezes adoro enchergar só para ver o rostinho do meu priminho sorrido para mim quando chego em casa.

    Beijos

    Saudades

  • Roderick diz

    Lindo, cara. Também senti a pontada no peito lendo o seu texto.

    Parabéns

  • Ricardo diz

    Ricardo o mundo em que vivemos também infelizmente descrimina muito o jovem ,o que é muito triste …. foi um presente para mim ler este texto e sentir que um rapaz com 24 anos tem tamanha sensibilidade Deus te Abençõe beijos Tia Marilene

  • Kris diz

    Ricardo o mundo em que vivemos também infelizmente descrimina muito o jovem ,o que é muito triste …. foi um presente para mim ler este texto e sentir que um rapaz com 24 anos tem tamanha sensibilidade Deus te Abençõe beijos Tia Marilene

  • Rodrigo diz

    No começo, Nelson Rodrigues

    No meio, Hemingway

    No fim Ricardo

    Dez!

    PS. Eu tenho hemorróida e deixei cair o doce de ameixa

  • juliana Azevedo diz

    Ri,

    eu achei que vc escreve muitissímo bem e consegue passar para as pessoas o que realmente viu, sentiu…

    Enfim gostei muito e o relado é interessante e intrigante.

  • Ricardo diz

    Obrigado a todos pelos elogios. Sempre brinco de ser “Verissimo” por aqui, e quando tento escrever de modo um pouco mais sério, dificilmente consigo me levar a sério. é muito bom ler esses comentários …

  • Juliana K. diz

    Reitero os elogios, embora não faça parte da família. Sábias palavras…

  • Ricardo, de todas as cronicas que li sua (apesar de nao ter lido muitas) essa eh a melhor…fiquei emocionada. Parabens!!!

  • Alex Gois diz

    Ricardo, talvez seja muito tarde para este sincero comentário ser lido por vc, mas faço desta chance um agradecimento por ter compartilhado tua sensibilidade tão palpável. te peço que vc não se deixe contaminar pelo tempo que nos põe venda nos olhos, nem pelas frustrações que invariavelmente nos encontram, sorrino ou chorando. Não desista, por favor de tentar fazer deste site um canto de lucidez nesta loucura que é nossa vida. Obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *