Conversa de Casal

Um casal sentado numa mesa de restaurante observa, em absoluto silêncio, uma suculenta perna de cabrito. Dez, quinze, vinte minutos e o silêncio continua dominando a conversa.

Ela, finalmente, a corta a perna (do cabrito, é claro), meneando ligeiramente a cabeça para a direita. Aliás, nunca entendi porque e as mulheres fazem isso quando estão contrariadas.

Ele pára, por minutos, olhando para ela, a perna (do cabrito!), como que procurando uma resposta para aquela situação tão constrangedora. O garçom se aproxima:

-Os senhores estão sendo bem servidos?

-Sim. – Responde ela.

-Que foi ?! – Retruca o marido, como se tivesse sido atacado pela esposa.

-O serviço … Ele falou do serviço.

-Ah … tá … Tudo continua normal por lá. O Waldemar continuar transando com a secretária do diret …. peraí! Ele “quem” falou do serviço ?!

-O garçom, meu amor. – Responde a mulher, com a cabeça ainda mais inclinada.

-Que garçom?!

– O garçom!!

-Pois não … – Retruca o funcionário do restaurante, já assustado com o volume da voz da contrariada senhora que gritava pelos seus serviços.

-Não é, nada. Me desculpe. Eu estava falando com ele. – responde a mulher, apontando para o marido.

-Mas o serviço, madame. Vocês estão gostando do serviço?

-Olha, meu querido. Meu serviço não é lá grande coisas, mas dá pra pagar todas as contas e ainda guardar um pouco, caso haja alguma eventualidade. E tem o Waldemar, que come a secretaria do diretor, mas apesar desses deslizes é um bom companheiro. – Responde o marido, sem nunca tirar os olhos da perna (do cabrito).

– Olha meu bem, não liga para ele não – diz a mulher, se desculpando para o garçom.

-Não, não … até que achei o rapaz educado. – Responde o marido, mais uma vez, atravessando a conversa.

-Ok, muito obrigado. – murmura o garçom, saindo de fininho.

-Não estou falando com você … – diz a mulher.

– Então com quem, ué ? – o marido.

– O garçom …

– Quem ?

– O garçom!

– Pois não … – aparece um segundo garçom na mesa.

– Ah não! Hoje tá difícil … – diz a mulher, esfaqueando a perna ao invés de cortá-la (sempre falando do cabrito…).

– Algum problema com o serviço, senhores? – diz o novo garçom, um pouco constrangido.

– Não, não …. não é o melhor serviço do mundo, mas dá pra pagar todas as contas e ainda guardar um pouco, caso haja alguma eventualidade. E tem o Waldemar, que come a secretaria … – mais uma vez, o marido.

– CHEGA! – grita a mulher, enfurecida. – Não agüento mais! Precisamos rediscutir nossa relação.

– Como … – pergunta num sussuro tímido o garçom.

– Agora é com você, meu querido. – Mais uma vez, o marido, se dirigindo ao garçom – Se bem que na minha opinião, se ela não gosta do serviço, não precisa fazer esse escândalo todo, é só não pagar os 10 % e pronto.

– Meu amor, não agüento mais! Tira seus olhos dessa maldita perna e fala, pelo menos uma única vez, algo que faça sentido! – clama desesperada, a esposa.

– Sentido … – diz ele com o olhar finalmente deslocado da perna (do cabrito, já completamente fria depois de tanto tempo).

Depois de um breve silêncio pensando, com um olhar triunfante, que começara a confortar a ainda esperançosa mulher e o desesperado garçom, diz o marido:

– Sentido, hmmmm, deixe-me ver? Bairro-Centro … Isso mesmo!

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4 Comentários on "Conversa de Casal"

  • Gostei da crônica, apesar de achar que você possui outras bem melhores que esta… Não que esta não esteja boa, mas… enfim você entendeu o que eu quis dizer…

    …continue escrevendo.

    Bjos!!!

  • Juliana K. diz

    Mais uma prova irrefutável da empatia existente entre esses dois sexos…

  • Plínio diz

    Definitivamente, não gostei da crônica!Concordo com a Verônica… Vc tem cronicas muito melhores que esta!

    PS: A não ser se meu repertório não foi suficiente para compreender a genialidade da crônica.

  • Kris diz

    Cara…não sei se é meu humor…mas essa crônica me despertou mais raiva do que risada. Mas de qquer jeito se provocou alguma coisa…funcionou…

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