Pós Scriptum

Acho que pouca gente sabe, mas o “P.S.” (conhecido popularmente como “P.S.”) é um recurso muito antigo, utilizado após a assinatura final das cartas escritas à mão (isso mesmo, sem teclado), quando se percebia que algo deveria ter sido escrito, mas foi esquecido.

Por uma incrível coincidência, o “P.S.” foi teletransportado do papel para o monitor, e nós (que nunca mais escrevemos uma carta) ainda utilizamos esse interessante recurso, o que é bem incoerente, se levarmos em conta que em qualquer editor de texto, temos todos os recursos para adicionar um novo trecho no corpo de uma carta (perdão, e-mail) já redigida.

Por muito tempo fiquei me perguntando o porquê da sobrevivência desta solução. É como ver alguém desprezar o controle remoto de uma TV, pela força do hábito de se levantar em todos o intervalos para dar uma zapeada nos seus 128 canais a cabo. Não faz muito sentido.

Depois de muito observar e pensar, cheguei há algumas conclusões. Isso acontece:

Em primeiro lugar pela preguiça. Tem muita gente que não tem mínima a decência de rever seus próprios e-mails, e caso se lembre de qualquer coisa depois de escrever ” []’s ” acrescenta um “P.S.zinho” pra não ter que pensar onde colocaria mais um assunto no meio do seu texto.

Num caso mais nobre, o “P.S.” é usado por educação quando não se tem assunto com o destinatário. Por exemplo, quando você escreve por um motivo qualquer para alguém com quem não conversa há algumas décadas:

“Oi Alfredinho, aqui é o filho da Dona Margarida. Estou escrevendo para comunicar que a minha cadela teve cria de 27 lindos vira-latinhas, e por acaso, me lembrei que a sua mãe, a Tia Josefa, adora cachorros. Olha só … será que ela não quer uns 26 só pra ela?

P.S.: E aí, primo?! Tudo bem com vc? Como vai a vida?”

Outro uso está no reforço de algo que já foi dito ou combinado mas deve ser lembrado. Aproveita-se, então, o fato de que o “P.S.”é a última coisa que a pessoa irá ler:

“Fala Almeida, belezinha?!

O churrasco na casa da Lurdinha foi um espetáculo, né ?! Aliás a Lurdinha na piscina tava coisa de louco …

Aqui vão as fotos que tirei com a minha camerinha digital. Dá uma olhada com calma pra ver se lembra de algo … hehe (você travou, heim?!)

Abs!

P.S.: Não esquece de que terça-feira é o dia do nosso jogo de bocha.”

Nos casos mais extremos, o “P.S.” contêm todo o assunto que realmente interessa. É um eufemismo para uma cobrança severa, um pedido descarado ou uma notícia trágica (uma versão digital do “Pai, estou grávida … passa o sal.) :

“E aí, Cabeça?! Beleeeza ???

Cê viu que louco o lance do cachorro da tia Margarida, véio?!

27 cadelinhos! Mó doideira!

Bom, acho que é só !

P.S.: Quando você vai me pagar a droga guitarra que você quebrou imitando o Jimmy Hendrix naquele dia?!?!”

Ou então:

“Oi Heraldo, tudo bem com você, Chuchu?

Não sei se você está lembrando de mim … mas aqui é a Lú da Escola Moreira Salles, lembra ? (a Lú foi tudo que o pobre do Heraldo desejou durante todo o ginásio e colegial);

Eu sei que a gente não se falava muito no colégio (a Lú nunca olhou pro Heraldo naquela época). Mas acabei me lembrando de você um dia desses, quando te vi naquele programa sobre super-executivo-milionários do novo milênio. Parabéns, viu! Fiquei super orgulhosa.

Manda notícias … tou com saudade!

P.S.: Ah … só pra saber, você sabe de alguém que possa precisar de uma secretária bilíngüe (português fluente!) ?”

E pra piorar :

“E aí Alberto,

Aqui é o Alfredo. Como vão as coisas por aí na pós-gradução?

Legal … bom saber …

Bom … é isso aí.

Té mais!

P.S.: A Mãe morreu.”

É por esses e outros exemplos, que acabamos entendendo porquê o “P.S.” sobrevive e deve permanecer entre nós, ainda por muito tempo.

P.S.: É claro que eu não poderia deixar de fazer essa piadinha sem-graça no final dessa crônica.

P.P.S.: Entendeu ?

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13 Comentários on "Pós Scriptum"

  • Juliana K. diz

    Muito bom!

  • Rafael diz

    Muito Bom. A piada era essencial para o fim. Show.

  • Na verdade nunca tinha pensado nisso. Ficou muito legal…parabéns!

    P.S.:Continue escrevendo…

    Bjos!!!

  • Jackie diz

    (gargalhadas)

    Bjos!

  • Rodrigo diz

    Como se volta para a página principal? Ah?

  • Patricia Zayat diz

    Sempre achei o “P.S.” muito mais interessante que a “OBS.”, so nao entendia o porque… Muito legal!

    Um abraco.

  • Com a invenção dos comandos de voz e arquivos de áudio compactados, por que ainda usamos esta calculadora de 102 teclas para escrever?

    PS.: Sou muito conservador

  • Pam diz

    Oi Cá! Tudo Bem?

    Estou com muitas saudades, vc só some né me manda ul e-mail que te passo o novo nº do me cel.

    beijocas

  • Juliana diz

    Eu ainda escrevo cartas com P.S.!

    :)

  • Muuuuito bom esse texto, ops, crônica. Pergunta: Por que não tem o nome do autor nessa página? E ai, como faço um copy/paste ou qualquer coisa do gênero se não tem o “dono” para dar os créditos?

  • Gorette diz

    Gostei muito da maneira como descreveu o salto. Muito mesmo. Deu para sentir cada etapa do pulo e eu me sinto frustrada de nao ser uma contadora de causos tão boa. P.S. O do P.S tb foi muito bom! rs

  • Smylodon diz

    Muito bom o texto… mas acho q faltou o motivo do P.S. ser o curativo depois da “pedrada”… Como se quisesse se livrar da culpa do q disse.

    “Ou Teo… tava conversando com sua mulher e ela me disse q vc tá o maior vagabundo… Eu acho que vc tinha q tomar vergonha na cara e mudar de jeito, largar farra, trabalhar, cuidar do seu filho…
    Te cuida cara.

    P.S.Isso é o que eu acho, mas cada um é feliz do seu jeito e tem q fazer o q bem entender”

  • Rubato diz

    Curti a cronica. Muito Legal!

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