Da série “Investimentos Pessoais” – Herança Familiar

Desde pequeno, eu sempre fui muito ruim para pular de lugares. De um muro para o chão, do chão para o muro, de um muro para o outro, enfim, nunca fui dos melhores para esse tipo de atividade. Herdei dos meus pais, um medo inexplicável por esse tipo de atividade. Motivo pelo qual nunca fui muito adepto dos brinquedos e brincadeiras que exaltassem essa qualidade.

Ao longo da minha adolescência fui cultivando esse medo, porém após o colegial e faculdade, comecei a lutar contra essa característica. É curioso, mas na época em que isso mais poderia me incomodar, eu não pensava em mudar, e com a experiência (quando precisamos cada vez menos enfrentar esses tipos de desafios) comecei ficar “cabrero” com isso. Talvez por causa de um orgulho extremo (também uma herança genética).

Quando a moda do bungee-jump estourou em São Paulo (1996-97), eu nunca cogitei em experimentar a brincadeira.

Não que eu tivesse medo de altura. Ao contrário, sempre fui fascinado por lugares altos e, de preferência, sem cercas de segurança (sou daqueles que sofrem do ímpeto besta de pular desses lugares). Também nunca temi um defeito técnico que viesse a me matar. Realmente isso não me passava (e nem passa) pela cabeça.

Meu grande problema sempre foi comigo mesmo. Temia que a sensação de uma experiência dessas, pudesse causar uma sensação tão desconfortável que não valesse a pena. Eu tinha (e tenho) medo do trauma.

Há alguns dias atrás, fui convidado por amigos para ir até São Roque filmar e (se quisesse) saltar de bungee-jump, de cima de uma ponte que faz parte de uma linha férrea. Provocado pelo meu orgulho e curiosidade, aceitei em ir.

Chegando lá, me deparei com uma ponte de concreto, com colunas de 53 metros de altura (uns 17 andares), separadas por arcos gigantes, no meio de uma paisagem maravilhosa.

Conforme subi na ponte e fui chegando ao lugar do salto, ia olhando para baixo, apreciando a altura. Comecei também a ficar sério em meio às brincadeiras e provocações que todos faziam.
Sentamos e observamos toda a preparação e montagem do equipamento. Tudo muito bem feito.

Logo, veio um dos instrutores com a maldita prancheta e o termo de compromisso para os que quisessem saltar. Daqueles que se propuseram a saltar, fui o último a assinar.

Pessoas que não estavam na minha turma começaram o dia. E atentamente, eu buscava compreender a expressão e as reações de cada um. Incluindo um desmaio de uma garota que, confesso, não era o que eu precisava ver, no momento.

Faltavam 2 pessoas para que o primeiro da nossa “equipe” saltasse. Mais uma vez meu sangue falou mais alto (assim como meus pais) decidi encarar de vez o problema, e avisei a todos que seria o primeiro. Dali em diante, virei um poço de serenidade. Ainda ria com as brincadeiras, mas estava verdadeiramente centrado no meu medo.
Chegou a hora de colocar a cadeirinha e as cintas dos tornozelos. Ao apertar todo equipamento, a sensação era de segurança. Me senti bem fazendo aquilo.

Levantei, e quase sem esperar, fui avisado que deveria subir no cano de proteção para o salto. Esse cano estava colocado na horizontal, a meio metro de altura, e eu teria que subir nele, e me equilibrar nos seus fantásticos 5 centímetros de diâmetro. Justo eu, que sempre fui ruim pra esse tipo de coisa, e ainda estava usando um sapato de camurça de solado liso se comparado há um tênis comum.

Apoiando em 2 instrutores, eu subi. E apenas preocupado em me estabelecer ali em cima, fui me ajeitando calmamente até buscar uma posição confortável.

Do meu lado esquerdo, havia um pilar de metal onde eu me agarrava com o braço esquerdo, e engatado nele, um instrutor (também em cima do cano de proteção) que me segurava pelas costas. Do meu lado direito, outro instrutor ficou no chão da ponte, e avisou que soltaria o elástico. Senti então, um tranco nos meus pés, me puxando para baixo.
Finalmente olhei para a frente, e encarei a paisagem. Linda, tal qual momentos antes, só que agora com um sabor diferente.

Fiquei equilibrado naquele ponto, por quase 2 minutos. Sentindo, ao mesmo tempo, medo, coragem, ansiedade e calma. Eu já sabia que não voltaria atrás, mas estava preparado para ficar ali o tempo que fosse necessário para que não saltasse antes da minha hora.

Olhava para frente e via o cume de uma montanha, na linha do meu horizonte. Olhava para baixo e não me assustava com a altura. Sempre gostei disso. Ouvia as vozes comentando sobre minha demora, mas não escutava nada.

O único fator externo que me ajudava, era o instrutor murmurando para que eu demorasse o quanto quisesse. Para que tomasse meu tempo, para que saltasse apenas quando realmente estivesse decidido.

Esses 2 minutos foram, talvez, os momentos em que mais eu fiquei sério em toda minha vida. Eu sabia que 30 segundos após o salto, eu estaria em terra firme, sem problemas. Mas eu queria dominar meu medo nos 2 ou 3 segundos em que estivesse voando para baixo.

Eu respirava fundo, e lentamente ia me persuadindo a soltar do pilar. Depois de um tempo, consegui.

Pela primeira vez na vida, eu estava no beira de um grande “penhasco”, à mercê de um simples movimento para me jogar (como sempre tive o ímpeto).

Fui levantando meus braços para frente, com uma única preocupação: não perder o controle.

Olhei mais uma vez para baixo, e comecei a inclinar meu tronco. A voz do instrutor me incentivava. Meus braços recuaram um pouco. Dobrei levemente minhas pernas, como se quisesse pegar impulso para um salto. Mas o salto não veio. Despenquei de cabeça.

Quando realmente me desliguei da ponte percebi que estava praticamente de cabeça para baixo, com os braços totalmente abertos, vendo o chão se aproximar vertiginosamente, e puder curtir então, o vento rasgando no meu rosto.

O elástico começou a me segurar, e como já estava quase na vertical, não senti muito o tranco. Parei, e fui estilingado novamente para cima. Perdi completamente a noção de onde era o céu e a terra. Eu apenas voei. E mais uma vez caí.
Nessa hora, já sabia que a experiência não seria traumática. E então soltei um berro, com muita vontade. Primeiro um sonoro “urrúúú”, seguido de um “tesããão”. Fiquei orgulhoso (tinha medo de tentar gritar e passar vergonha com a voz embargada).

Dali em diante, entrei em uma transe que só passou de verdade, 2 dias depois. Lá, olhava pra cima, e me maravilhava. Eu repetia pra mim mesmo – “Eu vim dalí!” – e apontava para a ponte e o céu. Depois, assistindo aos vídeos, eu não acreditava ser aquele cara despencando lá de cima.

Para muitas pessoas, essa experiência pode parecer boba, mas para mim, a sensação de vitória foi inacreditável. Não sei se, um dia, eu voltarei a saltar de bungee-jump. Queda-livre e pára-quedismo, provavelmente. Vôo-livre, nunca. Mas independente disso tudo, consegui provar pra mim mesmo que meu poder de auto-persuasão é maior que meu medo. Finalmente minha família foi vingada!

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4 Comentários on "Da série “Investimentos Pessoais” – Herança Familiar"

  • Qualquer que seja a experiência, é muito importante tentar superar os medos e os traumas (o que é sempre muito difícil). E quando se consegue…ah! É maravilhoso!

    A experiência pode parecer boba (como vc disse), mas o que vale mesmo é que vc conseguiu vencer um medo (algo muito pessoal) e que está pronto pra outra(hehehe).

    Parabéns pela crônica e pela coragem…

    Bjos!!!

  • Rafa diz

    Pois é, eu fiquei com aquele “frio” na barriga só que imaginar e viver com seu texto essa experiência, imagina se eu chegasse a subir nauqele para-peito?

    Parabéns.

  • Marilene diz

    Ricardo dizem que todos os dias nós temos duas escolhas fazer ou não fazer certa coisa e neste dia você escolheu vencer o seu medo muito legal … Que legal se nós todos tivessemos a coragem de fazer esta escolha ,em um certo dia das nossas vidas;

    vencer os nossos medos seja ele qual for Parabéns Beijos da tia Marilene

  • Rodrigo diz

    Eh… Bem… Ainda não estou convencido… Ainda acho 9.84 m/s/s um exagero! Só vou saltar quanto nossa gravidade for próxima a da Lua… De qualquer forma, quem lê isso aí acha que vc é um cagão… Alguém já andou de passageiro no carro dele? Alguém por acaso já tentou ser navegador deste tal cronista? Ou mesmo já o viram andar de kart? Pra mim isto é papo… De qualquer forma, uma mentira bem contada… Parabéns pescador! Abração do amigo… Rodrigo

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