Dia de Natal

No dia 24 de dezembro de 100.000 antes de Cristo, alguns primatas tupiniquins tentavam desesperadamente acender o fogo para a noite de Natal. Não que eles fossem festejar algo, já que cristo nem tinha nascido e essa data (convenhamos), é um puro egocentrismo do homem cristão moderno. 24 de dezembro de 100.000 a.C. nunca existiu. Não havia folhinhas naquela época. Eles queriam o fogo para não morrer engolidos por animais selvagens

No dia 24 de dezembro de 1499, milhares de índios se preparavam tranquilamente para a noite de Natal.

Na noite de Natal dos índios Xingu, por exemplo, eles não faziam nada de mais. Afinal, não conheciam o Papai Noel, os doendes e trenó não fazia parte do vocabulário deles. A Coca-Cola não tinha sido inventada ainda, portanto, a típica fantasia natalina do nosso amigo Santa Claus (como eles dizem lá) nem entrava nos planos dos vovós de cabelo, barba branca, e pele vermelha.

Já os Ianomamis, preferiam agir naturalmente, como se aquela noite fosse igual a qualquer outra. Mesmo porque, para eles, era uma noite como qualquer outra e eles não tinham motivo algum para agir de outro modo. Pra não dizer que sou intransigente, o filho do Pajé Paiacan (ancestral do Paulinho, aquele mesmo) espetou o artelhão (se dedo do pé é chamado de artelho, o dedão só pode ser artelhão, não é?) direito numa espinha de peixe. E como berrava o Paiacanzinho. Fora esse pequeno incidente, nada do que aconteceu naquela fatídica noite foi caracterizado como uma festa natalina.

Milhares de escravors, por sua vez, não faziam nada na noite de 24 dedezembro de 1788.

Na Fazenda Santa Helena (sul de Minas Gerais), toda a senzala central com escravos das tribos Vatuzi e Utu, dormia silenciosamente antes do nascer do sol esperando que o capitão do mato chegasse para acordá-los na base da chibata. Um pequeno Vatuzi (o que é uma grande contradição, diga-se de passagem) não conseguia dormir de tanta ansiedade. Ele não esperava qualquer visita do bom velinho pra colocar um lindo presente embaixo da sua linda árvore de Natal, afinal, nem sabia o que era árvore de Natal, bom velinho e muito menos, lindo presente. A insônia do Vatuzinho era crônica. Qualquer um que apanhasse todo dia de um cara que nem fala a sua própria língua teria motivo para isso.

Essas e muitas outras histórias me fazem pensar sobre o verdadeiro sentido da noite de Natal. Acho que é Norte-Sul.

Compartilhe!

2 Comentários on "Dia de Natal"

  • Muito bom, Ricardo! Foi daquelas coisas que a gente gostaria de ter escrito. Ah, e pode ter certeza… é norte-sul, sem dúvida.

  • anninha diz

    Adorei, Ri.

    Como disse o Eduardo aí de cima, algo que gostaria de ter escrito. Uma inveja (daquela boa), eu diria.

    Belo texto e maravilhoso pensamento. Adoro seu jeito de pensar por isso! Ele vai longe, até os confins do mundo!

    Bjo gde,

    anninha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *