Reforma Intelectual

Além da Reforma Agrária, temos no Brasil, a necessidade urgente de um tipo de reforma que não costuma ser comentada. Uma Reforma Intelectual.

A “elite” brasileira (e me incluo nessa) tem uma educação formal relativamente boa e vive, muito além da questão econônico-social, numa ilha intelectual.

Estudamos em colégio particular, temos aulas de línguas (por obrigação, é claro, pois como todo adolescente que se preze, achamos isso tudo um saco!), depois fazemos cursinho, entramos em uma boa faculdade e tudo bem se não passarmos na universidade pública, porque nossos pais se apertam um pouco, mas conseguem pagar mais alguns anos de uma faculdade particular; temos nossos canais a cabo, podemos viajar para o exterior nas férias e até fazer intercâmbio, que maravilha!

Até aí, tudo bem. Não acho que temos que nos culpar por termos essa “sorte”. O que me realmente incomoda, é o orgulho em que muitas dessas pessoas (e aí, felizmente, não me incluo nessa classe), em ter a “exclusividade” de acesso ao conhecimento.

Há muito tempo fazem questão de afirmar que toda  produção intelectual voltada para o povo é ruim.

Muitas vezes isso realmente acaba acontecendo. Porém quem produz esse material, são essas mesmas pessoas que o criticam.

Na publicidade, por exemplo, somos bombardeados por lixo disfarçado de propaganda de varejo, e os próprios criadores deste lixo já se convecerem de que se “está ruim, tudo bem, é pra varejo mesmo …”.

O mesmo cara que cria um slogan “genial” e irritante para um grande anunciante, passa a sua tarde de sábado, tomando um café num cine clube metido a besta, assistindo algum filme de nacionalidade excêntrica (e provavelmente com o nome substantivado como, “ O Escafandro”).

Como eu trabalho com cinema e publicidade ao mesmo tempo (sim, eu faço cinema publicitário, que beleza!) acabo tendo o desprazer de ver, muitas vezes, curtas e vídeos que exprimem bem a necessidade que essas pessoas têm em produzir coisas completamente sem sentido e que de preferência que remetam, em algum espasmo perdido, à outras coisas sem sentido (porém conhecidas pelos frequentadores desse mundinho), com a desculpa de que isso só pode ser apreciando por quem “entende de arte”.

Um dia vi uma entrevista em que o diretor Daniel Filho afirmou não gostar de novelas … Isso mesmo, aquele cara que já fez par romântico com a Renata Sorrah numas 25 vezes nas novelas dos anos 80, não gosta de novela. Como assim ?

Para piorar, quando resolve fazer um filme para o cinema (local onde teria espaço para sair da linguagem que aparentemente odeia), acaba fazendo um filme dentro dos mesmos moldes da novela. Mas com muitos palavrões, para que todos se convençam que “isso sim, é cinema!”.

Esse tipo de pensamento acaba por revelar um certa prepotência que tenta estabelecer dois patamares de produção intelectual. Um que é bom demais para ser entendido pelo povo, e outro que é ruinzinho mas é para os pobres mesmo, tadinhos.

Prefiro a postura do Jorge Furtado (diretor de “O Homem que Copiava), que respeita a inteligência do público tentando sempre fazer algo popular, mas nem por isso “burro”. Ou ainda, a coragem de uma diretora como Flávia Moraes com a produção de um filme com um ícone da popularidade brasileira (a dupla Sandy e Júnior), correndo o risco de ser execrada pelo meio em que trabalha (sim, ela também faz cinema publicitário, que beleza!) e realizando um trabalho competente a ponto de obrigar muitos críticos a engolirem o fato de que um filme de cunho extremamente popular pode ser competente.

Acho que, no Brasil, a arte verdadeiramente engajada, é aquela em que o povo consegue acessar, e com ela, pode aprender, crescer, se emocionar, enfim, entender e a partir disso, discutir, pensar e se interessar a ponto de procurar mais. Se o filme da Sandy e Júnior fizerem milhares de “teens” (de todas as classes) voltarem há uma sala de cinema que esteja passando um outro filme nacional, ótimo.

E não me venham dizer que um cara que faz um show dentro de um hotel de luxo, com ingresso na base dos R$ 500,00 e é amigo do ministro, faz arte popular brasileira, né Caetano?

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4 Comentários on "Reforma Intelectual"

  • Ricardo…Mais uma vez vc disse algo mto legal. Há muitas pessoas que acham que a população é “burra”, e é por isso que a TV brasileira é essa porcaria. Afinal, o povo não precisa de cultura.

    Enquanto essa reforma intelectual não acontece, o povo continua assistindo “Big brother”…

    Parabéns pela crônica…

    Bjos!

  • anninha diz

    Concordo, em gênero, número e grau.

    Não tem nem o que comentar.

    Reforma Intelectual, eu apóio!

    Bjo.

  • Giove diz

    Com todo respeito ao que foi escrito, não tenho sequer o costume de comentar tudo que leio aqui pela internet. Mas como sua opnião é engajada e talvez eu tenha de me submeter a seus conhecimentos para perguntar: Onde estará a liberdade para produzir uma arte subjetiva? Se… sempre terá de se objetivar o outro, atender suas próprias necessidades de artes-visuais? Penso que é muito prepotência achar que se faz cinema para os pobrezinhos, sou muito mais a favor de colocar nas mãos deles uma câmera, tirá-los do ambiente de seres-estudados, animais sob experiência, e ver o que a arte verdadeiramente pobrezinha é capaz de produzir. Enquanto isso deixar que eu produza meu surreal, minha realidade burguesa sem sentidos. Arte não tem a obrigação de encantar, seus encatados é que devem ter em si o encanto. Bem, em relação a isso, que realmente gostaria que fosse lido, queria sua opnião.

  • Ricardo diz

    Giove,

    Legal o teu comentário, e fico feliz em ver que o texto realmente conseguiu “tocar” as pessoas a ponto de escrever aqui. O que eu questiono, no texto, é a hipocrisia. Se você produz um material surreal e subjetivo porque é o que te encanta e você gosta, bacana. Nada contra isso!

    Não falei em momento algum, que os “pobrezinhos” são animais sob experiência. E se formos falar em colocar algo na mão deles, acho melhor começarmos com comida, dinheiro, educação, etc. Não estou questionando a capacidade de produção artística de ninguém aqui, e acho que ” ver o que a arte verdadeiramente pobrezinha é capaz de produzir” e “enquanto isso deixar que eu produza meu surreal, minha realidade burguesa sem sentidos” é o maior exemplo de uma visão que afirma que eles são “animais sob experiência”. Deixa eles lá, que eu fico aqui fazendo o meu … Eu não concordo muito com isso.

    Se no país, infelizmente, temos a grande maioria da população pobre, e se um bom filme nacional for do agrado desta, que seja o “cinema dos pobrezinhos”. Maravilha!

    Assim conseguiremos ir criando uma indústria suficientemente sólida pra que as pessoas consigam criar, sem ter que se preocupar se esse será único filme que elas conseguirão verba pra produzir, na vida. E assim, quem sabe, veremos as coisas se misturando. Exemplo : se não existisse a indústria do cinema americano, provavelmente não teríamos um Kubrick … triste, né?

    Não deixe de produzir tua arte burguesa sem sentido, isso é ótimo. Só peço pra que não desmereça as tentativas de se produzir entretenimento de massa de qualidade.

    Bom, espero que você não leve isso pro lado pessoal. Você pediu minha opinião, e eu dei. Sinta-se a vontade pra entrar aqui, e discutir o quanto quiser. Se isso for fazendo a gente repensar nossa visão, e evoluir com isso. Tá valendo! Abraços!

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