Walk-man

Nunca fui um adepto do walk-man. Desde da minha adolescência, por mais que tentasse, não conseguia (como a maioria dos meus colegas) viver com os fones enfiados na orelha, cantarolando e balançando a cabeça para frente e para trás, como um pombo andando, no ritmo das batidas.

Sempre achei essa característica um pouco estranha, em relação a mim mesmo, pois gosto e me interesso muito por música, e portanto, deveria ouví-la sempre que possível.

Depois que comecei a dirigir, e tive a felicidade de ter um carro com som, percebi que o fato de não curtir o walk-man talvez fosse um sistema inconsciente de auto-preservação. Trancado no meu carro, com os vidros fechados, e com o som alto, posso viajar no universo da música. Sem medo.

Nessas viagens, descobri, entre outras coisas, que sou um grande letrista. Pelo menos nesses instantes de extrema intimidade, me sinto no direito  de conhecer uma canção, a ponto de discordar veementemente do seu autor e mudar sua letra no trecho que me convier.

Por exemplo, no último disco do grupo Los Hermanos (Ventura) acabei adaptando parte da letra da sua música mais conhecida: Cara Estranho.

Uma música que fala de um homem que não é feliz em ser como é. Estranho e sozinho. Num certo momento, eles perguntam se ele não seria melhor se vivesse de outro modo, dizendo: “talvez se nunca mais tentar viver o cara da TV, que vence a briga sem suar e ganha aplausos sem querer”.

Na minha versão, eu canto: “talvez se nunca mais tentar viver o cara da TV, que vence a briga sem suar e ganha QUASE sem querer”.  Acho essa metáfora bem mais forte, pois um galã, é muito mais invejado se vence mesmo quando não mostra empenho, displicentemente.

Como sei que essa mania, pode me trazer problemas, mantenho minhas letras só para mim, dentro de um ambiente isolado. Sei bem que um fã do Chico Buarque nunca admitiria uma única mudança em qualquer parte de da extensa obra do poeta. Mas confesso que, na minha loucura, até com o Chico eu já fiz parceria.

Na música “Sem Fantasia” (fantástica, diga-se de passagem), Chico descreve um romance sofrido entre uma mulher que pede desesperadamente para que seu amor vá até ela, com toda a força de sedução de uma mulher apaixonada. O homem responde, contando o quanto sofreu para chegar até o amor dela. Uma letra que fala de sentimentos, ela dizendo coisas como “vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus”, e ele “só vim te convencer, que eu vim pra não morrer, de tanto te esperar”.

Num certo momento o homem narra todo o seu sofrimento para chegar à amada, a música cresce epicamente “eu quero te contar, das chuvas que apanhei, das noites que varei, no escuro a te buscar”, aí entram os metais, dando mais força à letra que continua “eu quero te mostrar, as marcas que ganhei nas lutas contra o Rei, nas discussões com Deus”. Como assim, Chico? Que Rei ? Do que você está falando ? Não tinha Rei em nenhum lugar nessa música. Estávamos falando de amor, sofrimentos, metáforas!

Isso ficaria bem mais forte com “ … as marcas que ganhei nas lutras conta O VENTO, nas discussões com Deus”. Bem mais poético. O Homem, fraco e tolo, lutando contra Deus todo-poderoso, enfrentando o vento irracionalmente, na busca de sua recompensa: “a prenda imensa” dos carinhos da amada.

Já me disseram que, o “Rei” é por causa da rima, pois após esse verso, ele diz: “E agora que cheguei…”. Ainda sim, prefiro a minha versão.

Além disso, como o meu show é particular e em ambiente controlado, priorizo o lirismo em detrimento da  métrica, desafino na altura que consigo, faço o que quiser. Algo que, definitivamente, eu não poderia se estivesse somente com um walk-man, junto de outras pessoas, sentado num banco de ônibus.

Compartilhe!

4 Comentários on "Walk-man"

  • Rodofredo diz

    Eh, coitado do jacaré… Sabe que na Bienal que fomos acho que em 95, vc comentou que gostaria de ter um walk man como o meu da Sony. Veja agora que estava equivocado. Puxa como é triste descobrir as coisas depois…

    Rodoberto.

  • Camila diz

    E a da Ana Carolina: “Sou assim desde criança, me criei meio sem lar”, que na minha versão virou “Sou assim desde criança, me criei meio sei lá”, sem que eu tivesse nenhuma crítica ao texto original! Fora o “Japonês da pátria filho” que eu cantava cívicamente quando criança…

  • CAROL diz

    PUTZ EU GOSTO PRA KCT DESSA MÚSICA DO CHICO

    ESSA E TODAS:)ACHO Q O VENTO FICA + LEGAL MSM…SUAS CRÔNICAS SÃO MUITO BOAS,VC GANHOU UMA FÃ…..

  • hdtjklhsuyheshoih cjvy
    bcjhduyjkfnuihkyhmssomfshsrwjuhkmdjkhnfkdncndfdskjivfnkldugdfwkyutyjuygvbjfsruyfshjuh

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *