Mais Uma Daquelas

Num típico quarto de casal, vemos (adivinha?) um casal deitado assistindo um programa de TV qualquer. Eles estão naquela fase do relacionamento onde o que menos importa numa situação dessas, é o programa de TV.

Numa das várias posições de carinhos e abraços que eles ficam, o homem (conhecido por todos como “Almeidinha”, e por sua esposa como “Nhinhô”) deita no colo da amada (conhecida por todos como “Beta”, e pelo Nhinhô como “Nhinhá”) e fica lá por alguns minutos. De repente sente uma pontada mortal ferindo seu tímpano:

–       Ai, ai!! Nhinhá!! Que é isso, pô!?

–       Ai, Nhinhô … nem apertei tão forte. Você precisa ver o cravo e-nor-me que tem na tua orelha!

–       Caceta, Ninhááá! Mas não precisa tentar me assassinar por excesso de dor por causa disso!

–        Ai, Nhinhô … não fala assim … Tou fazendo isso pro teu bem …

–       Pro meu bem, Ninhá?! Como assim, Ninhá?! Você nunca parou pra pensar que eu nunca vou conseguir olhar dentro da minha própria orelha. Não faz mínima diferença pra mim, se existe esse cravo ou não!

–       Ai, Nhinhôôô ! Não fala assim … sempre que eu te pergunto “de quem é essa orelhinha” você diz que ela é minha, tá!

–       Tá certo, Nhinhá … Se bem que a gente casou em comunhão total de bens, então tecnicamente, você só tem direito a uma orelha. E como eu sou canhoto, escolho a orelha esquerda como a minha. Ou seja, a orelha “cravolenta”, portanto : Tira a mão do que não é teu!

–       Ai, Nhinhôôô ! Que coisa horrível …

–       Nhinhá ! Horrível é você tentar fazer “suco de orelha de Nhinhô” ao invés de ficar curtindo esse momento …

Um rápido silêncio.

–       Nhinhô ….

–       Que foi.

–       Nhinhôôô …

–       Fala, Nhinhááá …

–       Deixa eu ver a tua orelha direita …

–       Ah, não …

–       Deixa vai! É a minha orelha …

–       Vamos fazer um trato, então.

–       Qual ?

–       Eu deixo.

–       Ai, Nhinhô! É por isso que eu te amo tanto, sabia? Nhinhô-nhinho-nhinho-nhinho!

–       Mas … tem uma condição …

–       Nhinhô-nhinho-nhinho-lindo!

–       No sábado a noite a gente vai alugar “Velozes e Furiosos” e você vai ver o filme comigo, vestida de colegial!

–       Ai Nhinhô! Tudo isso só por um cravinho?!

–       É, Ninhá! Pra você ver como é duro pra mim.

–       Ah, não vale! Eu até deixo você tirar quantos cravos você quiser de mim.

–       Ah deixa sim! Primeiro que você não consegue ficar um dia sem fazer o check-up de completo anti-cravos do teu corpo inteiro, e segundo, que se sobrar um, você sempre diz que eu não sei fazer direito, que eu não espremo até sair o “sanguinho” . E além do mais, eu não tenho prazer nenhum nisso! Já no “Velozes e Furiosos” com você vestida de colegial …

–       Pára, Nhinhô! Eu estudei num colégio de freiras e o mais sexy que você iria me ver naqueles tempos, era ajoelhada no milho com uma túnica marrom que cobria até meu pescoço.

–       Em plenos anos 90 ?

–       É, Nhinhô !

–       São Paulo, capital?

–       É, Nhinhô !

–       Isso não faz sentido!

–       Aí é culpa do Ricardo!

–       Quem ?

–       O cara que está escrevendo isso!

–       Ah, já imaginava.

–       Péra aí, gente! Tou olhando meu arquivo de crônicas aqui, e já faz mais de um ano que eu não apelo pra essas metalinguagens canalhas!

–       Um ano nada, em Agosto do ano passado você fez uma crônica bem “mais-ou-menos” chamada “Qualquer Coisa”, que pelo amor de Deus, heim?!

–       Nhinhô, fica na manha aí, irmão! Que se você vacilar boto a Beta pra espremer até o teu olho direito !

–       Ai que coisa horrível, eu nunca faria isso com o Nhinhô.

–       Ah não ? Dá uma olhada na pálpebra dele … Olha o cravo que tem quando ele fecha os olhos.

–       Olha! É mesmo! Nhinhôô!

–       Ô, Ricardo, você tá perdendo a mão, filho. Cravo na pálpebra é pior que novela mexicana. Acaba o texto que é melhor pra você.

–       Ai, Nhinhô, mas esse cravo é horrível mesmo!

–       Nem a pau, Nhinhá!

–       Eu acho melhor parar por aqui mesmo.

–       Ufa …

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3 Comentários on "Mais Uma Daquelas"

  • Paulo diz

    Picaaaaaretaaaaa…. hehehehehehehe

    Cara, metalinguagens à parte, BEM tchans. Conseguiu passar toda a sensação de nodjo de ficar espremendo o ser amado… :)

  • Verônica Almeida diz

    Fazia tempo que vc não escrevia, hein!? Tava com saudades das crônicas. Como sempre adorei seu texto…Mais uma vez – Parabéns!

    Bjão!

  • Kris diz

    que nojo…

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