Da série “Chochinho Mas Sincero” – Última página

Como quase toda criança que aprende a ler pelos métodos convencionais do ensino brasileiro, meu primeiro contato com livros sem figuras (e totalmente fora do meu universo de interesse ) não foi dos mais amistosos. Bem ou mal, era mais uma tarefa que eu tinha que fazer fora da sala de aula além das lições de casa. Ou seja, menos tempo pra jogar bola, futebol de botão ou videogame.

De início, portanto, a última página de um livro sempre teve um sabor especial pra mim. Sabor de alívio, sabor de dever cumprido.

Graças ao incentivo dos meus pais, professores, meu interesse por ouvir e contar histórias, e outras influências após o vestibular (um dos maiores desencorajadores da leitura entre os jovens, diga-se de passagem), comecei a ler por interesse próprio. Algo legítimo e não forçado.

Ainda sim, muitas vezes, me vi olhando a numeração da última página para ver o quanto ainda faltava para terminar mais uma tarefa. Mesmo lendo livros ótimos, sentia (e ainda sinto) que preciso acabar com esta tarefa. Poucos são os livros que me fizeram esquecer disso.

No cinema, uma das principais missões de um diretor é fazer o espectador esquecer completamente a realidade e mergulhar totalmente na história, a ponto de não “lembrar” que está numa sala de cinema. Poucas vezes essa missão é cumprida devidamente.

Na literatura, sinto que algo próximo me acontece, mas não por culpa dos escritores. Imagino que seja o método de incentivo à leitura utilizado nas escolas.

Acabei de ler um livro de forma tão intensa e visceral que esqueci completamente em que página estava. Quando percebi que não tinha mais o que ler, me senti praticamente abandonado no meio de um deserto.

Acabar um livro de forma inesperada é uma sensação da qual estou tão desacostumado que, nesses casos, acabo procurando estupidamente algo para continuar a leitura: a contra-capa, as “orelhas” do livro e algumas vezes, aquela última página que traz as informações técnicas spbre a impressão do livro – “esta obra foi impressa em Garamond light, sobre papéis pólen soft, etc, etc, etc”. Ainda sim, passado esse leve “estado de choque” a sensação é ótima. Bem melhor do que o sabor de dever cumprido.

Não sei se posso chegar ao ponto de dizer que todo livro bom, é um livro que me “derruba” deste modo tão contundente ao chegar ao fim. Mas, pelo menos posso garantir que o aprendizado da leitura por prazer, mudou completamente minha relação com a última página.

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7 Comentários on "Da série “Chochinho Mas Sincero” – Última página"

  • malena diz

    genial! me identifiquei completamente com esse texto. isso aconteceu lendo “o tempo e o vento” (acho que cheguei até o 5o livro e depois a sensação parou. Ainda não terminei tudo). aconteceu também com “casa dos espíritos”, “livro dos prazeres ou uma aprendizagem” (esse muita gente não gosta). Ah, e dos tempos de escola, o clássico “a ilha perdida”!!

  • Paulo diz

    O que me ressucitou para a literatura foi “Ensaio sobre a Cegueira”. Impressionante como a escola destrói futuros leitores… :P

  • Só faltou contar o nome do santo que fez o milagre, mamute. Gostei muito do texto: dá pra sentir o gostinho desse prazer inesperado com a última página.

  • Leo Lobianco diz

    Um livro que a gente le sem contar as paginas é O Principe, do Maquiavel. Mas a maioria dos livros que eu leio( embora goste muito de ler) ainda me fazem contar as paginas ate chegar ao fim.

  • Rafael diz

    Bom passei aqui pra . . .. . . .. . . .. .espera aí . . . . em que comentário estamos?

    rs.Boa mamute.

  • Verônica Almeida diz

    Oi Ricardo, td bm?

    Realmente, falta vc dizer qual é o nome do livro…

    Bjos

  • Achei que ia parecer uma crítica(elogio) do livro se eu citasse o nome no texto. Pra quem quiser saber é “Quase Memória” do Carlos Heitor Cony.

    Recomendo!

    Beijos!

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