Sala de Espera

Depois de brincar com meus próprios dedões por alguns minutos, comecei a achar que aquela sala de espera estava se tornando tediosa.

Como seria bom se exatamente agora, uma mulher linda, solteira e simpática entrasse na sala.

Não menos do que 1 minuto após meu impetuoso desejo ter sido feito, tal mulher entrou na sala. Tinha imaginado uma loira e a mulher que entrou era morena com mechas claras o que a tornava ainda mais interessante.

– Bom dia. – ela disse.

– Clufahan Hãããn … Er … oi. – respondi, com muita classe.

Sempre tenho dificuldade para responder rapidamente quando sou pego de surpresa. Mas sempre me saio bem, no final.

Voltando ao desejo, ela era linda e simpática. Só uma mulher simpática diz “oi” para um homem que brinca compulsivamente com seus dedões numa sala de espera.

– A senhora já tem ficha aqui ? – perguntou a secretária

– Ainda não. – respondeu ela.

– Ahãããn Cluf … – acrescentei.

Como toda mulher linda e simpática, ela esboçou um sorriso ao me olhar discretamente.

Começou então, o pequeno interrogatório feito pela secretária até que a bela Cláudia (sim, com muita perspicácia consegui descobrir seu nome) confessou ser a mulher dos meus sonhos :

– Solteira, infelizmente.

– UI ahãnnn Cluf … Ô luta, meu pai … – pensei.

– Pois não. – respondeu ela, sorrindo com aquele sorriso que só mulheres como ela conseguem fazer. Ela ria de mim, mas num tom carinhoso.

Será que eu disse o que pensei alto ? Acho que sim. E ela, como não poderia deixar se ser, fingiu não ter entendido.

Parti para a dissimulação.

-Ah … Me desculpe. Me empolguei com a reportagem que estava lendo. Bobeira minha.

– Magina! – respondeu ela, fazendo aquele gesto com uma mão que normalmente quer dizer “Magina!”.

Ufa! Acho que tinha me saído bem. Tirando o fato de que eu não tinha nenhuma revista nas mãos, claro. Isso realmente poderia ter maculado, um pouco, minha interpretação. Malditos detalhes!

– Com licença ? – disse ela, ainda rindo.

Para me redimir, antes de responder, dei uma leve olhada para meu relógio. Típico movimento que só um homem de muita classe consegue fazer antes de responder uma pergunta deste nível.

– Sim … – retruquei com a certeza de que a surpreendi.

– Nós já não nos conhecemos antes ? – disse ela sem mostras de maiores surpresas.

Acabei me lembrando que também estava sem relógio de pulso, e meu gesto fatal, pode ter se tornado um pouco inócuo.
Dessa vez, confesso. Senti o golpe. Dois diretos no rosto na seqüência. Se ela não me deixasse respirar um pouco, eu beijaria a lona em instantes.

Fingi ter deixado meu celular caído no chão, e soltei um leve “ oh …” para completar a ação. Eu precisava de tempo.

– Olha … não quero me parecer uma mulher atirada, mas realmente senti uma energia diferente em você? Você acredita em destino?

Levantei rapidamente. Gesto absolutamente aceitável quando você deve pegar algo que está no chão. Torcia desesperadamente para que meu técnico jogasse a toalha no meu córner para que a luta fosse interrompida. Sem querer, chutei meu celular para longe. E ao bater na parede, ele se dividiu caprichosamente em duas partes. Como não queria correr o risco de parecer um homem atrapalhado pisei com toda força que tinha na bateria que voou para perto de mim.
Agora sim. Mostrei quem estava no controle. Corri então para o outro lado da sala. Somente uma ajuda divina me salvaria.

– Ai ai … adoro homens tímidos, sabe? – disse ela, sem um pingo de bondade no coração. Não queria saber o que ela pensava dos outros homens.

Sem perder a compostura, segurei a bateria em uma mão, e levantei do chão. Sim, acho que, no calor da conversa, me esqueci de contar que dei uma linda ponte (como fazem os goleiros profissionais) para agarrar a outra parte do celular.

Fingi, então, que o celular tocava no modo silencioso, e dignamente, segurando o fone, saí correndo, como quem se retira educadamente do recinto para não perturbar os outros com sua conversa.

– Alô, alô ! eu gritava, para que ela percebesse quanto o “pseudo-sinal” estava fraco.

E assim, fui para a rua certo de que não tinha mais nada a fazer. Ah, se eu fosse um homem tímido!

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8 Comentários on "Sala de Espera"

  • Kris diz

    Hahahaha….ótima para eu começar o dia….por isso que sempre uso relogio de pulso….

  • Rafael.... diz

    Cara. Faz tempo que eu não lia uma destas suas histórias. Muito boa, ainda mais se vc acrescentar a imagem mental da sua pessoas como real personagem da história. Parabéns carinha.

  • Paulo diz

    Mamute, mamute! Excelente! Rendeu várias risadas e algum bom humor. Valeu.

  • Mára Pezzolo(49) diz

    Agora entendo esta fixação de vcs com estas algemas do Tempo-os relogios-não bastasse isto inventaram celulares, e até nos sonhos vcs se transformam em “gelatinas falantes” diante das mulheres.

    abreijos

    Mára

  • malena diz

    Muito legal, muito engraçada! Adorei!!

  • gisela diz

    parabéns, ótima, ri pra caramba, essas coisas que a gente devia poder ler no jornal e nào aqueles caras chatos. Sucesso pra você.

  • Fujii diz

    Mamute….eu tava chorando de tanto rir imaginando toda a cena. e o Rafael tem razão…não dá pra imaginar outro senão vc passando por isso….hahaha…

    o toque do celular sem bateria…muito boa…

    ê suadeira…essas mulheres….

  • Daniel diz

    Muito bom, a cena fica viva quando se lê. Gostei pra caramba!

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