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Anúncio de Jornal - (22-09-2005)
“Eu, de família, educado, simpático, sensív-“
-Má que merda é essa?
Bem … eu estava começando a escrever um anúncio sobre mim, mas imagino que esteja escutando meu lado masculino reprimindo esse ímpeto. Piadinha com gosto de “déjà vu”, que somada à metalinguagem torna esse texto em um crime quase inafiançável.
-Má que lado masculino o catso.
Opa … Essa não estava no script.
-Má que script. Aqui é o seu Bisavô, Savério. Sul da Itália, perto da Calábria, diria “muito prazer” se não fosse de lá.
-Você é meu Biso?
-Má que “Biso”, além que patso é bicha também?
-Er, desculpe. Nôno! É isso? O senhor é meu Nôno?
-Eco … Um deles.
-Puxa vida! Que legal! O senhor é aquele fumava um cachimbinho de barro que o senhor mesmo fazia, não é?
-Eco. Aliás, boa idéia, faz tempo que não acendo um desse. Tem um fósforo?
-Opa. Tenho isqueiro, serve?
-É bonito, hãn? Também fuma? Aqueles cigarrilho que os menino da sua idade costuma fumar ?
-Não, não. Sou piro-maníaco mesmo. Não fumo, mas sempre tenho um isqueiro por perto.
-É patso!
-Bom, se o senhor veio parar aqui, eu presumo q-
-Má que “presumo”. Num me vem com essas palavras difícil que eu mando tudo às favas! Eu vim aqui, porque que vi você escrevendo um anúncio, que nem eu fiz pra arrumar minha segunda esposa depois que minha primeira mulher morreu.
-Boa, Nôno! Eu sempre quis saber melhor dessa história! O senhor tem o anúncio ainda?
-Má que anúncio ainda? É patso, você?
-Então o senhor tem anotado o texto?
-É um salame, mesmo! Má que anotado, filho?! Eu escrevi o que deu na “veneta”!
-É! Faz sentido. O senhor está certo.
-Má é claro que tô certo.
-Então o senhor pode me ajudar a escrever meu anúncio?
-Má pra que você quer isso?
-Sei lá, Nôno. Sempre ouvi essa história sobre o senhor. Queria ver o que aconteceria no meu caso. As coisas não estão fáceis hoje.
-Má como não tão fáceis? Um rapaz grande, forte, cara de bravo, bem que podia fazer a barba melhor, mas dizem que é trabalhador e estudado. Não consegue arrumar uma mulher?
-Bem … é qu-
-É salame! Patso, meio-bicha e salame!
-Não, Nôno! Que bicha! Eu sou macho dos bons!
-“Simpático, sensível …” Sei. No meu tempo, isso era bicha!
-Nôno. Os tempos mudaram. Mas sou Palestrino ! Salve o Alvi-verde imponente!
-Má só me faltava ser corintiano. Aí eu te quebrava a car-
-Epa, Nono! Na família isso já é ofensa! Vamos com calma!
-Eco! Ainda bem.
-Eco.
-Quer dizer então que você não tem nem uma moça pra casar?
-Mas eu não quero casar, Nono.
-Pra que o anúncio então?
-Eu quero alguém pra me divertir, passar bons moment-
-Vai numa cantina! Má que? Vinho, queijo e pasta. Quer melhor momento que esse?
-Tenho que concordar com o senhor.
-Vamo lá!
-Aonde?
-Na casa da moça. Eu falo com o pai dela, ele vai ver que somos uma família de bem, e está tudo certo!
-Nôno! Que moça? Não tem moça ainda!
-Caspita. Então faz um anúncio!
-Tá vendo! Por isso que eu comecei a escrever.
-É. Nem me fala daquilo. Você tem que falar a verdade, filho. Que nem foi no meu caso : “Carroceiro. Viúvo. 13 filhos. Um cavalo. Casa grande com assoalho de madeira. Procuro esposa.”
-Nôno … Não acho que essa técnica vai funcionar pra mim.
-Como não? Qual é o seu trabalho?
-Técnico cinematográfico, na verdade eu trab-.
-Técnico. Não importa o resto. É viúvo, também?
-Não, Nono!
-Deve ser virgem, então!
-Que virgem, como assim!?
-Tem filho?
-Não …
-Cavalo ?
-Não.
-Qual o tamanho da casa?
-Pequena. É um apartamento.
-Sem quintal?
-Isso, Nôno.
-E o assoalho? Precisa encerar.
-Não.
-Tá fácil.
-Mesmo?
-Eco: “Técnico. Solteiro. Virgem. Sem cavalo. Casa pequena com assoalho fácil. Procuro esposa”.
-Eu não sou virgem, Nôno!
-Capiche! Então fica : “Técnico. Solteiro. Sem cavalo. Casa pequena com assoalho fácil. Procuro esposa”. Perfeito!
-Nôno. É bacana … Mas não tou querendo uma espos-
-Que catso você quer da vida?
-Então … As mulheres hoje são diferentes, sabe Nôno?
-Má que diferente? Tem 3 olhos? 4 patas? Diferente! Diferente, porque os homem que nem eu morreram tudo. Só ficou salame. Que nem você.
-Elas até trabalham e sustentam a família, Nôno. É legal!
-Má que sustenta. É bicha mesmo! Quer ficar em casa, enquanto a mulher vai trabalhar.
-Não sou bicha, Nôno! Caspita! Eu até faço boxe!
-É? Essa não eu esperava. Quantos você já esbofeteou?
-Calma, Nôno. Eu só treino. Não luto ainda … Acho que nem vou luta-
-Ah. Entendi. Tá começando. Pelo menos deve ter um bom murro, hãn? Isso não é coisa de bicha! Bom!
-Pois é, Nono! Minha professora de box-
-Má que? Professora?!
-É, Nôn-
-Má que “é, nôno” o quê?! Aprende a dar murro com uma mulher e depois não quer qu-
-Ei, Nono! Não é assim! Minha professora luta muito! É bacana!
-Bacana! Bacana! Má que bacana! Eu desisto!
-Calma, Nôno!
-Eu vou embora antes que eu me faça uma bobagem!!
-E o anúncio, Nôno?!
-Má que anúncio! Bem que me avisaram que eu não ia me entender com os meninos de hoje. Bicha! Tudo bicha!
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