Da série “Investimentos Pessoais” – De Pé

Sempre que posso, tento me colocar em situações limite. Talvez por isso o meu fascínio por velocidade. Gosto de testar o limite de forma concreta. Num kart, se você errar, vai pra grama. Num aeroplano, se errar, cai. Num bungee-jump se amarrarem mal a corda, você se esborracha no chão. Enfim …

Além dessas atividades mais “radicais”, existe outro tipo de atividade. Não-física, mas que pode despejar tanto ou mais adrenalina no seu sangue do que qualquer uma das modalidades presentes nos X-Games.

Stand Up Comedy é uma delas. Pra quem não sabe do que eu estou falando, Stand Up Comedy é aquele tipo de show que tem um humorista em cima de um palco, apenas com um microfone, falando um monte de bobagem para uma platéia. Sem cenário, sem figurino, sem diretor e sem personagem. A forma mais pura e desesperadora de se enfrentar um público.

Eu sempre gostei de contar histórias engraçadas pra amigos e sempre tentei fazer as pessoas ao meu redor rir. Também escrevo textos cômicos, ou pelo menos tento, há 6 anos.

Descobri que existe em São Paulo (finalmente!) um grupo que se dedica à Stand Up Comedy ( o Clube da Comédia Stand-Up). E pra piorar as coisas, soube que eles abrem o microfone, todos domingos, para convidados.

Isso tudo, porque um amigo ia se apresentar como tal convidado. Só de ler o e-mail-convite, senti um frio na barriga.

No dia do seu show, eu estava nervoso como se um filho fosse lutar boxe. Ganhando ou perdendo, só queria que meu amigo saísse vivo do ringue, digo, palco.

Ele foi o primeiro a subir no palco, e logo na primeira piada, o público riu. Ele não aparentava nervosismo, e parecia controlar bem o adversário. Aos poucos, ia soltando seus golpes. E a platéia delirando.

Maravilha! O show acabou, todo mundo alegre, eu meio desgastado pela tensão, mas muito feliz pelo resultado. Quando fui parabenizar o vencedor, veio a pergunta fatal : “E aí, você é o próximo?”.

Eu sabia que todo meu nervosismo na verdade, era uma espécie de projeção. Adoro lugares de altos e sempre tive aquele “instinto suicida” de pular quando estava numa situação em que isso fosse possível. Na única vez que pude pular sem maiores danos, como a morte, por exemplo, eu pulei. Foi ótimo.

Lá estava eu, de novo, pronto pra assinar o termo de compromisso.

No dia seguinte mandei alguns textos para a organizadora do Clube da Comédia. Ela gostou, e me convidou pro tal do “Open Mic”. Eu, me conhecendo bem, disse que só aceitaria se ela lesse o texto que eu apresentaria e aprovasse. Ela topou, e aprovou. Pronto. Agora não tinha mais volta.

Me sentia como uma modelo que aceita posar nua. O ensaio, creio eu, é nervoso mas passa rápido. O problema é no dia do lançamento da revista, quando cai a ficha de que o BRASIL INTEIRO vai te ver nu.

Depois aceitar a proposta, eu só me preocupava em ensaiar o texto e fazê-lo mais e mais divertido.

Três semanas depois de muito trabalho, chegava o dia da minha apresentação. Era a hora de descobrir se eu ia aproveitar a festa de lançamento, ou ia sucumbir ao temor da nudez, digo, público.

Horas antes de subir ao palco, eu estava tranqüilo. Ficava repassando todo o texto na cabeça. Tudo sobre controle.

Cheguei ao bar onde aconteceria a apresentação, e pouco a pouco o público foi chegando. Cumprimentava os conhecidos, fingia que tudo aquilo “não era comigo”. Via em alguns amigos a mesma apreensão que senti ao ver meu colega se apresentar. Não podia tranqüilizá-los até subir no palco, mas sabia que a noite poderia ser boa.

Depois de uma hora, o show começou.

Eu, antes de qualquer coisa, concentrado. Assistia às apresentações dos “residentes” do Clube, e me divertia.

De repente, um deles me avisa “Vai lá, cara. É sua vez. Merda!” (não se diz “Boa Sorte” para alguém que vai subir no palco “Merda” é o mais comum).

Subi no palco com muitos aplausos, peguei o microfone, ajeitei o tripé em uma disposição que não atrapalhasse a minha rotina. Comecei.

Em momento algum tentei olhar para o público. Meus olhos focavam os refletores quando eu falava, e o chão quando enquanto esperava os risos.

Sim! As pessoas riam! E em alguns momentos tive até que esperar aplausos cessarem para continuar. Eu estava fazendo uma curva perfeita de kart, estava pilotando um jato, estava no meio do salto de bungee-jump antes do elástico me resgatar.

Depois de 9 minutos, minha rotina chegou ao fim. Se me perguntassem quanto tempo fiquei lá em cima poderia dizer 3 minutos, ou 2 horas. O tempo funciona de um modo absolutamente indefinido em cima de um palco. Fantástico!

Voltei para a “platéia” leve. Meus pés não tocavam o chão. Meu corpo, pouco a pouco, começou a denunciar o estado de tensão que havia enfrentado. Me lembro de ter ficado assim algumas horas depois do salto de bungee-jump. Só que desta vez, eu era meu próprio elástico.

Vendo as fotos, e re-vendo a apresentação num vídeo que um dos apreensivos amigos gravou, sorrio não só pela comprovação de que o trabalho daquelas 3 semanas não foi em vão, mas porque sei que naqueles instantes estava experimentando alguns dos minutos mais intensos da minha vida. E isso não tem preço.

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13 Comentários on "Da série “Investimentos Pessoais” – De Pé"

  • diz

    Mamute, sou seu fã! Só não me convide pra te ver posando nu!

  • Patricia Alves diz

    SENSACIONAL!!!

    PARABENS!!!!!!!!!!

    BJO

  • Kris diz

    Meu ídolo!!!

  • volponi diz

    Clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap !!!

  • Gabriela diz

    Pois é, todo mundo devia, uma vez na vida, subir sozinho num palco.

  • diz

    Nem que seja para varrê-lo depois do espetáculo?

  • Camila diz

    Crônica-Blog. Que legal saber como foram as coisas do outro lado da sua pele naquele dia… Visto do lado de cá, você estava ótimo! Não esquece das minhas encomendas, ok? (TCC e Autran) Beijão!

  • malena diz

    onde fica esse lugar?? demais!

  • diz

    Fica depois da segunda estrela, à direita.

  • Marcela leal diz

    Parabéns Ricardo! Arrasou de novo! Volte sempre ao Clube da Comédia Stand-Up.

    Bjs

  • Kris diz

    um é pouco…dois é bom…

  • Verônica Almeida diz

    Aposto que foi realmente engraçado, assim como alguns textos seus.

    vc sabe que sou sua fã…só mais uma…hehehe.

    Bjs…continue escrevendo e fazendo curvas perfeitas de kart!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    esse cara é foda…

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