Mamute Ferido

Era uma festa de criança em um buffet infantil moderno e caro. Além dos tradicionais “gira-gira”, escorregador e “trepa-trepa”, o playground tinha um barco viking, mini-montanha-russa, e, acreditem, um mono-rail (uma espécie de trem suspenso, pendurado por uma estrutura metálica que costuma transportar passageiros felizes em lugares como a DisneyWorld)!

Rui era um executivo não muito convencional. Grande e truculento, seu terno sempre parecia gritar desesperadamente para ser trocado por um número maior. Ele era conhecido por todos como “Mamute”, nome dado aos elefantes pré-históricos com corpo revestido de pêlos e dotados de presas longas e curvadas. Ou seja: Rui.

Ele foi convidado para a festa por ser tio do aniversariante: Raoni. Um simpático garoto de 07 anos. Ele adorava o Tio “Mamute”.

Tudo ia bem na festa. Crianças corriam atropelando garçons, avós e paredes, quebrando algumas partes dos seus pequenos corpos que se regeneravam após 3 ou 4 gritos. Enfim, tudo como o esperado.

Um pouco antes da hora do bolo o grande Rui caminhava tranquilamente com 8 crianças penduradas em seu corpo até que, com uma parada brusca, derrubou violentamente 5 pequenos e nocauteou 2 que corriam no estilo “briga de galo” e tiveram que ser deslocados rapidamente para a enfermaria após se chocaram contra a batata da perna pré-histórica daquele agradável mamífero.

Ele acabava de avistar, linda, reluzente, barulhenta e, principalmente, vazia , uma máquina de fliperama com seu jogo preferido : Super Street of Dragon Fighting Kombat Hero Gaiden Mortal : Championship Edition 2.

Desde o fim de sua glacial adolescência, Rui nunca mais havia colocado seus olhos sobre aquela que foi a razão de sua existência por 4 anos de sua vida.

A música da tela de abertura, daquele (hoje) paleozóico fliperama, provocou um melancólico lacrimejar no grande Mamute.

Emocionado, Rui se aproximou da máquina. E então, foi surpreendido ao ver a máquina mais famosa e disputada de todos os tempos, sozinha, abandonada, decadente e o que é muito pior, utilizada apenas como uma mesinha com pratos e copos sujos forrando seus controles.

Rui era absolutamente inofensivo e pacífico, até o último momento, desde que seus instintos mais primais não fossem maculados. Um Mamute com o coração ferido pode gerar todo pânico que inspira num primeiro momento.

E um resto de bolo sobre os botões “soco-forte e soco-médio” do Super Street of Dragon Fighting Kombat Hero Gaiden Mortal : Championship Edition 2 dilaceravam o coração deste pobre elefante pré-histórico como nada mais poderia.

Com a voracidade que um animal selvagem protege sua família, Rui atacou a máquina, jogando longe dali todos os copos, bolos e docinhos. Isto feito, sem mais ouvir, ver, ou sentir algo, apertou “Start” e começou a jogar freneticamente, como que tentando restaurar daquela máquina toda dignidade que ela merecia.

Aos poucos, ele via “Kyu” seu personagem favorito respondendo cada um de seus perfeitos comandos, sobre os melecados botões recém-salvos.

Duas horas e meia depois, os botões não grudavam mais, “Kyu” já era o campeão do universo por 12 vezes, e Mamute começava então a jornada para “zerar” o jogo com cada um dos 26 personagens restantes.

Constrangido, Raoni, não sabia mais o que fazer para ver seu tio querido, livre daquela cólera inexplicável.

Depois de alguns minutos observando espantado a habilidade do grande animal truculento ao controlar “Zangi-Shin”, o personagem mais forte, porém mais difícil de ser comandado naquele velho e ultrapassado jogo o garoto, agora 1 ano mais velho (já havia soprado a velinha, sem seu tio por perto), disse docemente:

– Tio, o buffet já fechou e todo mundo tá indo embora vam…

Sem esperar seu amado sobrinho terminar a frase, o encoleirado Mamute teve que mostrar que mesmo um ente querido não poderia impedi-lo do que tinha que fazer :

– Diga para eles, qualquer um que seja, que pra me tirar daqui, só entrando como “Player 2” e ganhando de mim no pau.

Assim, Raoni, a família e todos funcionários, acabaram abandonando o local, deixando aquele Mamute sozinho, no escuro, executando a tarefa que talvez um dia o fizesse voltar a ser o dócil e amável “Tio Mamute” de sempre. Era o que todos esperavam …

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3 Comentários on "Mamute Ferido"

  • diz

    E aí, Mamute, zerou o jogo?

  • A sua ideia ficou maravilhoza parabéns pelo seu texto

  • vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv

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