Algo Mais?

Mile Davis, Julian Cannonball, Hank Jones, Sam Jones e Art Blakey dão o tom da crônica. O disco é “Somethin’Else”. Novo. Primeira vez no iTunes.

Pra quem não sabe, o nome disso é Jazz. Com licença.

Paro um pouco de escrever. Preciso agitar o gelo do meu copo. O tilintar dos cubos no vidro me lembram o “scotch” das partidas de pôquer do meu velho. No meu caso: refrigerante. Eu sei, eu sei … não se fazem mais escritores como antigamente.

Volto meus olhos para a tela. “Autumn Leaves” já é uma bela lembrança. “Love for Sale” é o que rege meu digitar agora.

Olho para um lado, uma porta. Olho pro outro, uma janela. Pra cima, o teto. Pra baixo, adivinhem, o chão. Ufa!

Minha cabeça coça. O frio me fez usar boina. Não tenho mais cabelo. Descobri que sou alérgico a lã. Só na cabeça, é claro.

Um garoto de 12 anos olhou pra mim e disse : “Solteiro, né?”. Assaz perspicaz o garoto, pensei. “Como sabe?”. “Não falas de mulher, foto nenhuma no Orkut”.

Moleque atrevido.

É por opção. Droga!

Delas.

O gelo está quase acabando. O refrigerante também. Preciso de algo mais forte.

Escovo os dentes e bebo água.

Quase um copo inteiro. Desce queimando. Sou forte. Me sinto melhor, agora.

“Somethin’Else” é o tema da vez. Hank Jones me acompanha nas teclas. Ele me supera, eu sei. Mas, garanto que meu português é bem melhor.

Dois copos vazios na mesa. Nada alcoólico. Eu sei, eu sei. Cadê o glamour?

Tem um pouquinho ainda no pote azul dentro do armário do banheiro. Ali debaixo da pia, sabe? Isso. Melhor usar em uma hora mais adequada.

“One for Daddy-O”. Miles Davis esfrega minha insignificância no Mundo com seus solos. Maldição.

Art Blakey me acalma com suas baquetas. Minto! Pelo som, deve estar usando aquelas, como chama mesmo, acho que é “vassourinha”.

Cannonball entra na conversa com seu sax. Meio bêbado, meio sedutor. “Dancing in the Dark”, meus caros, tinha que ser “Dancing in the Dark”.

Me mandam um link com fotos da Sharapova. Sim, sim. O Mundo ainda tem chance.

“Alison’s Uncle” pra acabar com a conversa. Sam Jones, como todo baixista que se preze, não diz nada. Tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum.

Um solo … preciso apenas de um solo para acabar.

Miles, Cannonball, Blake, alguém me ajuda?

Ninguém … todos solam junto. Inferno. Queria só UM solo.

Bem que dizem que Jazz é para poucos.

Mais um copo. Água de novo. Cowboy. Hoje eu me acabo.

Blake! Um solo, afinal … Agora com baquetas!

Obrigado, amigo.

E agora pra vocês:

O final.

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8 Comentários on "Algo Mais?"

  • diz

    Foi composição ou improviso? Tocante… (sem trocadilho!)

  • Começou como improviso e depois virou composição master.

  • diz

    Hehe, muito boa a parte do baixista. Eu sei que todo baixista de jazz está fazendo alguma coisa, mas eu geralmente só ouço tum-tum-tum, igual você.

  • Murilo diz

    Eu acho que você bebeu!

  • diz

    Toca Raul!!

  • Vivian diz

    De jazz eu não entendo, sobre o baixo eu assino embaixo (apesar de que meus amigos baixistas não vão gostar muito).

    Bukowski pediria um scotch ao ler essa crônica, certeza! E diria algum palavrão sobre sua geração perdida.

    Mas essa geração de escritores movidos a água até que tem algo a mostrar. ha. só estou escrevendo isso porque gostei, principalmente dessas frases soltas, meio desconexas, apesar de sempre ligadas. Pensamentos unidos por um fio de música.

    Bom!

  • Sempre que leio a palavra “jazz” eu alguma crônica sinto vontade de parar de ler. Geralmente paro duas linhas depois. A tua está dez. Não só li até o final como gostei. Não está presa a nenhum modelo ultrapassado. Deu um charme ao jazz in cronic =P

  • Fabiane Secches diz

    “Bem que dizem que Jazz é para poucos.”

    Eu confesso que conheço pouco de jazz, mas isso não me impediu de adorar a crônica!

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