Uma Grande Saudade

Sempre acreditei em Deus. Respeitando e sempre tentando entender um pouco das religiões que pude me aproximar, nunca me convenci ou fui tocado por alguma delas. Tenho minha própria fé. Meus pecados capitais, meus 10 mandamentos, nada formatado, mas tudo sempre bem lembrando antes de dormir, em um papo bem aberto com o meu Deus iniciado com um Pai-Nosso. Não por catolicismo, mas por uma tentativa de recuperar um pouco do conforto de quando meus pais vinham na beira da minha cama me botar pra dormir. Um ritual muito mais familiar do que religioso, num momento em que eu era a pessoa mais segura e confortada que existia.

Nunca cheguei a conclusão nenhuma sobre a morte e sobre o que acontece depois dela. Prefiro achar que o Inferno e o Paraíso são aqui mesmo e faço o que acho que tenho que fazer para conquistar a melhor opção no fim.

Não sei se estou certo.

Morei 14 anos da minha vida em um prédio onde tive meus primeiros amigos. A turma do Vila Borghesi.

Turma digna de seriado, com todos os personagens prontos. Crescendo juntos, brincando, jogando, brigando e aprendendo a ser homem. Juntos.

Sabia que não conseguiria cultivar a amizade de todos para sempre, e embora mantenha amigos daqueles tempos, estava certo que aquela turma seria um pouco diferente do que eu queria ser “quando ficasse grande” e minhas escolhas foram me distanciando da rotina deles.

Porém, acredito que a amizade é a maior de todas as conquistas, e mesmo distante, nunca perdi o contato.

Há um bom tempo sabia que um “do prédio” estava doente.

O mais forte, o mais estudioso e o mais esforçado de nós.

Sempre esbarrei na lembrança dessa doença ao pensar na minha teoria sobre o Paraíso na Terra.

Qualquer um de nós não merecia passar pelo que passou nosso amigo. Mas ele, justo ele … não consigo entender.

Ou ainda vou encontrar conforto em alguma crença que não sei qual é ou o ceticismo vai me fazer achar que nem o tal do Paraíso na Terra existe. É tudo uma questão de probabilidade mesmo. A Vida surgiu por acaso, tudo acontece por acaso, não tem certo e errado. E o que falam por aí é invenção para não enlouquecer esse Mundo de acasos. Que está meio louco, diga-se de passagem.

A única coisa que me conforta, é que nosso amigo, antes de ir, como bom filho que sempre foi, durante a última melhora repentina, pediu seu ao pai para deixá-lo ir embora. Depois de uma levar uma bronca esperou até o dia que o pai finalmente o deixasse. E foi em paz. Dormindo.

Acabou amigo. Fica tranqüilo que agora tudo acabou.

Fica aqui apenas uma grande saudade.

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4 Comentários on "Uma Grande Saudade"

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Yep.

  • Anônimo diz

    Bela homenagem …

  • Velho bicão!!!!

    Para quem não conhece o apelido do Ricardo, esclareço que Bicão veio, por meio de mecanismos adolescentes tortuosos que nem Freud explica, e foi dado a ele pela tal turma do Vila Borghesi, essa mesma que o texto faz menção, e da qual eu também faço parte.

    Digo “faço” porque a amizade e carinho que tenho por todos esses meus amigos nem o tempo e tampouco certas circunstâncias menores da vida – como, para mim, devemos classificar a morte – podem atenuar.

    É impressionante como mesmo depois de tantos anos, você tenha conseguido expressar exatamente aquilo que eu guardo na memória sobre aqueles tempos, da mesma forma que eu teria feito se tivesse escrito aqui.

    Bicão, é muito bom saber que mesmo longe continuamos unidos pelo que fomos ontem e somos hoje, ou seja, pela nossa amizade. Todos. Para sempre.

    Abração,

    Joel

  • anninha diz

    sem comentários. belo, simplesmente.

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