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Da série “Calma, eu posso explicar tudo!” : Estalo - (20-07-2007) Algumas situações são perfeitas pra se pensar na vida e ter idéias. Ao contrário do que muita gente pensa, “fazer nada” não ajuda muito. Nesta condição, rapidamente você se distrai e começa a pensar em coisa que não interessa ou o que é bem pior, se pega cutucando uma cutícula, contando quantas azulejos tem a parede da cozinha, enfim, logo você perde o foco. Para mim, o ideal é buscar ações simples e absolutamente mecânicas que anestesiem o lado “Ei! Fala comigo!” do cérebro. Dirigir, lavar a louça, caminhar ou tomar banho, são alguns exemplos disso. É num desses momentos que normalmente temos os “estalos” que podem ajudar muito na resolução de grandes dilemas ou, como na passagem que vou contar a seguir, podem te colocar em situações absolutamente surreais. Sempre que preciso “pensar na vida” eu pego meu carro e saio pra dirigir pela madrugada. Se for dia de semana, melhor. Pouquíssimos carros na rua, sem hora pra se chegar em lugar nenhum. Na última vez que fiz isso, estava circulando pelo meu bairro, bem devagar, olhando pra Lua (sim, acreditem, em São Paulo tem Lua!), em segunda marcha, sem acelerar, deixando apenas a marcha-lenta do carro levá-lo, mais ou menos na velocidade que ficam os carros de segurança privada. Tive então meu primeiro “estalo genial”! Abri a porta fiquei olhando o asfalto passando devagarzinho. A gente não percebe que apesar de estarmos parados dentro do carro, estamos andando. Meio idiota isso, mas divertido. Seinfeld disse uma vez : “O mais legal de um carro é que quando estamos nele, estamos parados, mas estamos andando … e estamos pra fora, mas estamos dentro de um lugar. 4 coisas de uma só vez!” Muito bem, eram três e meia da madrugada, eu cruzando um quarteirão a 20 Km/h, com a porta aberta, olhando o chão, vendo as faixas brancas aparecerem e sumirem vagarosamente. Aí vem o “segundo estalo” - “Bom … se eu sair do carro agora, ele continua andando e eu posso correr atrás dele e entrar de novo …” - a razão tenta aparecer - “Não … não … que bobagem!” -, só tenta - “Bobagem nada! Ia ser bem engraçado…” Já passei da idade de respeitar muito a razão em prol de uma experiência antropológica desse tipo. Rapidamente, antes que eu mudasse de idéia, tirei o cinto de segurança, abri mais a porta, me assegurei que mesmo que ela batesse, poderia ser aberta por fora, olhei pra frente e pelo espelho conferindo pela última vez que o carro estava bem no meio da rua e que nenhum outro carro andava por perto, e então pulei. Ao tocar meu pé no asfalto comprovei de maneira concreta a frase dita pelo comediante americano. De um estado absolutamente inerte, tive que dar uma corridinha meio desequilibrada pra não cair de cara no chão. Quando me “estabeleci” fora do carro, continuei caminhando e olhei pra frente. Lá ia meu bom e velho companheiro de quatro rodas pela rua, devagarzinho, em seu primeiro “vôo-solo”. Ouvi o barulho do atrito do pneu com o chão se misturando ao som do motor e do rádio. Não costumamos ouvir isso de dentro do carro. Comecei a rir, corri, segurei a porta, olhei para o interior do carro. Pensei em qual pé colocaria pra dentro primeiro, mas achei melhor não pré-definir nada porque quando pensamos muito neste tipo de ação, caímos. No meio dessas resoluções todas, pulei pra dentro. Perfeito! Tudo perfeito! Fechei a porta, segurei o volante e tive então um ataque de riso - “Genial! GENIAL!” - eu dizia enquanto ria. Me animei (aí que mora o perigo), pensei novamente “ E se eu corresse pra ver o carro de frente?” ri muito, novamente - “E mais! Se fizesse isso cruzando uma rua!!” mais gargalhadas! No quarteirão seguinte, não me agüentei. Repeti o procedimento de saída, bati a porta do carro por fora e saí correndo como um louco, no meio da rua, em frente ao carro, rindo. Cheguei na esquina, vi que não vinha carros de nenhum dos lados, corri mais um pouco e sentei no meio-fio, iniciando outro ataque de riso, olhando o meu carro, sozinho, com seus faróis acesos, quase em câmera lenta, firme e decidido atravessar a rua, mesmo que sem seu motorista. Quando ele chegou ao meio do cruzamento, parei de rir um pouco e fiquei me divertindo com aquela cena absolutamente non-sense. Me distraí, o carro passou por mim e quando levantei para começar a andar atrás dele, ouvi -“Piiiiiiuuuuuuuuuu”. - Ah, não! - pensei. Um carro de policia surgiu do nada, entrando na rua que meu carro estava, e deu um sinal para o teórico motorista do Celta Preto parar o carro. Eu fiquei momentaneamente congelado. Meu carro seguia confiante, sem dar a mínima pra polícia. Já estavam no meio da quadra. “Piiiiiuuuuuuuu” - mais uma sirene. E dessa vez eles ligaram um holofote pra tentar ver o condutor. Sem pensar, saí correndo. Por sorte, meu carro estava bem regulado e alinhado. Rapidamente alcancei a caravana, passei pelos policiais que me olharam um pouco ressabiados. Não resisti, balancei a cabeça e acenei com a mão: - Boa noite! - sem respostas deles. Continuei correndo. Pensei em passar pelo carro e entrar numa rua qualquer e desistir do resgate, mas lembrei da cena do Forrest Gump, quando ele pula de um de seus barcos para cumprimentar seu velho amigo, Tenente Dan. Pra quem não viu o filme, o barco se espatifa num cais. Não queria um final próximo para meu querido carrinho mesmo sabendo que não havia um cais por perto. Abri então a porta do carro, o holofote da polícia veio diretamente para o meu rosto, olhei para a viatura, acenei um “oi” tímido e atrapalhado e me joguei para dentro carro. Obviamente, os policiais aceleraram e ligaram a sirene. Eu coloquei meu cinto, dei seta e encostei. Fiquei esperando dentro do veículo, nervoso, mas tentando me conter . Os dois guardas vieram em minha direção empunhando seus revólveres. Liguei a luz de cortesia pra mostrar que eu não estava fazendo nenhum movimento suspeito. Quando o policial se aproximou, não resisti e novamente disse : - Boa noite, senhor. Não sem razão, ele estranhou mais ainda minha aparente calma e tentou responder: - É … Boa noite … - rapidamente ele recuperou a compostura e disse alto - Mão na cabeça e pode ir saindo do carro. O guarda ficou me olhando com aquela cara de “ele acha que eu sou idiota, mas vou ver até onde isso vai”: Desliguei o carro, e lentamente saí. Até pensei em começar a explicar o inexplicável, mas apenas fiz o que ele me mandou. Rapidamente ele pegou minha carteira e fez um sinal para que seu parceiro me revistasse. Viram que eu não apresentava nenhum objeto suspeito e me pediram então para ficar de frente pra eles. Eu, sem a menor idéia do que esperar, virei e abaixei a cabeça. Vi que o nome do policial que analisava meus documentos era “Ten. Almeida”, mais clichê impossível. Eles já não empunhavam suas armas mais. Bom sinal. Ele devolveu meus documentos e apenas disse : - Tá bêbado, Alemão? Ele sinalizou positivamente com a cabeça. Depois de um breve silêncio. Perguntou : Algo no olhar do tal “Almeida” me passava tranqüilidade. Não sei porquê, achei melhor não mentir mais. Posso dizer que vi o filme da minha vida passando na minha frente. Pensei em milhões de desculpas, mas respirei fundo, então e respondi: Ele me olhava como se quisesse ainda saber algo. Respirei fundo de novo e comecei a falar, lentamente: Ele fez cara de “explique melhor”. Eu obedeci. Ele me observou, olhou para seu parceiro, voltou seus olhos para mim, levantou sua mão esquerda e com o dedão apertou a aliança : Neste momento o segundo guarda, até então mudo, tentou falar. Agora eu podia vê-lo melhor, era bem mais jovem. O Tenente o fuzilou com seu olhar, mas ainda sim o jovem prosseguiu: Eu confirmei acenando com a cabeça. Ele continuou : Sem combinar, eu e o jovem guarda falamos juntos : Silêncio. Depois de alguns segundos ele estendeu a mão com a sua aliança. Eu segurava a aliança numa mão, os documentos na outra, atônito. Eles voltaram para a viatura, ligaram o carro, e ao passar ao meu lado, o ainda enfurecido Ten. Almeida gritou : Eu fui, meio bobo e com a certeza de que tinha passado por um dos momentos mais absurdos e improváveis de toda minha vida. Chegando lá, até pensei em tomar um banho pra esfriar cabeça. Mas, corri pra cozinha e comecei a contar os azulejos. Bem mais seguro! Vai que eu tenho outro “estalo” no banho … |
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Ricardo - link 22-07-2007 21:15
Apenas testando os comentários… |
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Camila (do Volponi) - camilarigo@yahoo.com.br 22-07-2007 21:53
Ricardo, juro, fui lendo a crônica lá pela linha 21 fui ficando com medo. Pergunta pro Nicolau, eu abri a boca desse tamanho de susto, acho que até adrenalina rolou na experiência da leitora. Era como se estivesse acontecendo comigo (e, de alguma forma, cheguei a ficar chateada em constatar que isso nunca aconteceria comigo). Mistura de sentimentos total. Fiquei aliviada quando a polícia chegou - isso pode ter evitado atropelamentos, perdas totais, etc. Mas, principalmente, fiquei foi admirada mesmo. Pela sua capacidade de não “interromer a sua vida” e pela sua capacidade de provocar empatia, de trazer uma grande verdade filosófica para a pauta de uma ronda noturna. Ricardo, quer ser meu amigo? |
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Anonymous 23-07-2007 16:12
só pra testar os comentários também… |
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Verônica 23-07-2007 20:04
hahaha, estou rindo até agora. Ricardo, vc merece um prêmio! Muito bom mesmooooooo. Beijos. |
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Vanessa - nessa_oli@hotmail.com 24-07-2007 14:51
Não me diz que tudo isso aconteceu de verdade?? As coisas mais improváveis do mundo acontecem com vc… Será que é pq vc faz aniversário dia 1º de abril???? rsrs |
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Anonymous 27-07-2007 21:23
esta história de testar os comentários é boa… |
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Kris - link - kris@cronistasreunidos.com.br 03-08-2007 10:21
Lembra do vídeo do Ronaldinho Gaúcho acertando a trave 4 vezes seguidas sem deixar a bola cair. Aquilo é impensável, mas é o Ronaldinho Gaúcho né, vai saber. |
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Marcelo Mello - link - mms17@uol.com.br 07-08-2007 15:34
Vai te catár!!! |
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Pedro Vitor - knight_25@hotmail.com 08-11-2008 21:10
Cara…eu só não desliguei o computador e tentei fazer algo do parecido porque ainda não pensei em nada… |